Barão do Mês: Milton Santos

Barão do Mês: Milton Santos

Pupilos e pupilas,

Há dezesseis anos, o mês de junho ficou marcado pela perda de um brasileiro ilustre, que deixou um enorme legado em nosso país, e também fora dele, para uma disciplina bem conhecida de vocês. Nosso querido Milton Santos foi um pesquisador necessário e brilhante para a Geografia e, por isso, ele é o grande homenageado do mês aqui no blog!

“A contribuição do Milton é gigantesca. É até difícil mensurar… ele realmente transcende. Não temos nenhum geógrafo que a gente possa comparar em vastidão de obra e importância”, ressalta o nosso mestre dos estudos geográficos, João Felipe Ribeiro. “Lembrando que o Milton rompeu várias barreiras. Primeiro, a barreira acadêmica: principalmente na sua volta do exterior, ele teve um reconhecimento que transcende a academia e, efetivamente, como intelectual, conseguiu passar parte de suas ideias para um público maior, que é uma coisa que a gente sempre reclama da Academia. No que se refere a Geografia: a obra e os conceitos dele, como o do meio técnico-científico-informacional e a importância que ele dá ao território, acabam sendo usados em várias outras áreas de estudos que não só a Geografia”, completa o professor.

Conheçam mais sobre a vida e a carreira admiráveis desse geógrafo que orgulha o Brasil até os dias de hoje! 🙂

 

Milton Almeida dos Santos nasceu em 3 de maio de 1926 na cidade baiana de Brotas de Macaúbas, região da Chapada Diamantina. Sua mãe, Adalgisa Umbelina de Almeida Santos, era professora e filha de professores enquanto seu pai, Francisco Irineu dos Santos, foi professor primário e, quando criança, Milton recebeu educação formal em casa, com os próprios pais, até o primário. Com dez anos de idade, tornou-se aluno interno do renomado colégio Instituto Baiano de Ensino, na capital do estado, onde residiu por dez anos. Já no ginásio, se interessou pela disciplina de Geografia Humana, ministrada pelo professor Oswaldo Imbassay, que marcou a memória do jovem estudante, e, aos quinze anos, começou a ensinar os colegas mais novos.

5637032381_5a7b91dd70_oEntre 1942 e 1943, Milton Santos realizou o curso pré-jurídico e, em 1948, formou-se como Bacharel em Direito pela renomada Faculdade de Direito de Salvador. Posteriormente, começou a lecionar Geografia Humana para o ginásio no colégio municipal de Ilhéus (BA). Nessa época, Milton também trabalhou como jornalista e redator no jornal “A Tarde”, onde escreveu 116 artigos versando sobre a zona do cacau, a cidade do Salvador, Europa e África e Cuba e outros temas locais e globais até 1964.

A geógrafa Marie-Hélène Tiercelin e o professor Jacques Levy explicam o desenvolvimento da carreira de Milton Santos destacando três grandes momentos. O primeiro foi o que eles definiram como “um pesquisador implicado na realidade local”, no período de 1948 a 1964. Durante esses anos, Milton exerceu cargos públicos e iniciou sua carreira acadêmica como professor de Geografia Humana na Universidade Católica de Salvador. Em 1958, formou-se doutor em Geografia pela Universidade de Estrasburgo, França, com a tese “O Centro da Cidade de Salvador”, sob orientação do professor Jean Tricart. Ao retornar ao Brasil, Santos tornou-se professor catedrático de Geografia Humana na Universidade Federal da Bahia, onde fundou o Laboratório de Geociências. Também foi diretor da Imprensa Oficial da Bahia (1959-1961), representante da Casa Civil do presidente Jânio Quadros na Bahia, em 1961, e presidente da Fundação Comissão de Planejamento Econômico do Estado da Bahia (1962-1964).

Conforme destacou a professora Maria Auxiliadora da Silva, a década de 60 pode ser considerada como a época áurea de Geografia na Bahia, pois o Laboratório de Geomorfologia e Estudos Regionais, fundado por Milton em 1959, representou uma proposta acadêmica renovadora. Nele, a ciência geográfica era tratada não apenas como técnica, mas como reflexão. A implantação de uma nova filosofia de trabalho em Geografia, até então inexistente no Brasil, abre espaços para a geração de pesquisas, capazes de movimentar outras mentes e acionar novas ideias. Essas atividades foram fortemente estimuladas por Milton, que transmitia, além de ensinamentos, motivações e autoconfiança, através do pensamento autônomo, crítico e criativo, sobretudo em relação a questões socioeconômicas.

Em 1964, logo após a implantação do regime militar no Brasil, Milton foi preso e enviado para um Batalhão do Exército em Salvador, onde parte de sua equipe do laboratório e seus amigos o visitavam diariamente. Posteriormente, após sofrer um princípio de derrame, ele foi solto e, após negociar sua saída do país, seguiu para o exílio na França para lecionar na Universidade de Toulouse-Le Mirail (atual Universidade Toulouse – Jean Jaurès). Assim, o professor iniciou sua carreira internacional, que ficou conhecida como a fase de “um pesquisador viajante” (1964-1977).

Na França, Milton foi professor convidado nas universidades de Toulouse, Bordeaux e Paris-Sorbonne, e no Instituto de Estudos do Desenvolvimento Econômico e Social (IEDES). Entre 1971 e 1977, o geógrafo exerceu uma carreira itinerante, começando pelo Canadá (Universidade de Toronto). Depois, foi para os Estados Unidos como pesquisador convidado do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), trabalhando com o linguista e filósofo Noam Chomsky. Passou ainda pela Venezuela, onde foi diretor de pesquisa e planejamento de urbanização da Organização das Nações Unidas. Datam desta época as pesquisas do geógrafo acerca dos processos de urbanização das cidades do então chamado “terceiro mundo” (países subdesenvolvidos). Como desenvolvimento deste seu interesse, posteriormente, realizou trabalhos de pesquisa sobre pobreza urbana na América Latina em Lima (Peru), onde também lecionou na Faculdade de Economia da Universidade Central. Na Tanzânia, penúltimo destino antes do retorno ao Brasil, Milton organizou o curso de pós-graduação em Geografia da Universidade Dar-es-Salaam, e lá residiu por dois anos. De volta aos EUA, terminou o longo período de exílio lecionando na Universidade de Columbia, em Nova Iorque.

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Seu retorno ao Brasil, em 1977, marcou o início da terceira etapa de sua carreira, como “um pesquisador engajado”, conhecido e admirado mundialmente e já com várias obras publicadas. Durante os treze anos que esteve fora do país, Milton estruturou a base do pensamento que analisa o efeito social provocado pelo desenvolvimento urbano político e econômico. O impacto das publicações em português dos livros do geógrafo, que até então só haviam sido editados em outros idiomas, foi enorme. Suas ideias foram responsáveis pela renovação de boa parte dos conceitos e temas debatidos na geografia brasileira. “Ele é uma referência importante na geografia crítica. Tem um livro fundamental chamado ‘Por uma Geografia Nova’, em que ele faz uma crítica contundente a uma corrente de pensamento geográfico (a ‘nova geografia’), que é a Geografia quantitativa, e prega um engajamento social e político da produção geográfica”, salienta nosso mestre João Felipe.

O geógrafo se tornou Consultor de Planejamento do Estado de São Paulo e, depois, lecionou como professor visitante na Universidade Federal do Rio de Janeiro entre 1979 e 1983, quando então foi contratado como professor titular da Universidade de São Paulo (USP), onde lecionou até se aposentar. Ademais, os convites do exterior continuaram: foi professor visitante da Universidade de Stanford, na Cátedra de Joaquim Nabuco, entre 1997 e 1998; diretor de Estudos em Ciências Sociais, na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais – Paris em 1998; consultor das Nações Unidas, Organização Internacional do Trabalho (OIT), Organização dos Estados Americanos (OEA) e Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco); consultor junto aos governos da Argélia e Guiné Bissau e consultor junto ao Senado Federal da Venezuela para questões metropolitanas. Além das universidades francesas, americanas e latino-americanas, da África e da Ásia, Milton Santos colaborou ainda com a Complutense de Madrid, de Barcelona e de Lisboa.

Milton seguiu lecionando e orientando mestres e doutores no Brasil, ao mesmo tempo em que continuou publicando livros, o que o alçou a uma das mais extensas e densas bibliografias brasileiras, sem dúvidas a maior entre geógrafos latino-americanos. Deixou como legado mais de 40 títulos publicados em diversos idiomas e mais de 300 artigos e pequenas publicações. Em relação a sua produção bibliográfica, o professor João Felipe destaca: “na Geografia especificamente, a obra do Milton é muito vasta porque ele tem preocupações em campos muito variados. Eu destacaria a questão urbana, na qual ele tem uma série de livros, como o ‘Manual da Geografia Urbana’ e ‘Urbanização Brasileira’, que são referência fora do Brasil inclusive. É um geógrafo do ‘terceiro mundo’ contando como a urbanização se dá por aqui. Então, a produção dele é muito grande nessa área de urbanização, que é um assunto fundamental para a Geografia”. O docente também ressalta o importante tratamento que Milton Santos deu ao conhecimento teórico em seus textos: “ele tem uma preocupação epistemológica muito grande e estuda os conceitos fundamentais da Geografia com grande cuidado. Conceitos como território, espaço, paisagem, lugar, tudo isso é motivo da produção dele”.

Além da grande produção sobre urbanização, o professor João Felipe destaca outro tema que Milton Santos priorizou: “mais para o final da sua vida, ele acabou escrevendo muito sobre globalização. Porque o Milton, nessa sua ‘gana’ de analisar epistemologicamente a Geografia, valorizava muito o papel das técnicas – a técnica como mediadora de algo fundamental para a Geografia que é a relação sociedade-natureza. No final dos anos 90, momento em que a globalização entrava no Brasil como uma panaceia, com questionamento muito baixo ou até mesmo quase nenhum, ele escreve um livro chamado ‘Por uma outra globalização’, que também tem um impacto muito grande pra gente”.

Por fim, nosso mestre resume: “a produção dele é vasta demais, de assuntos muito variados, mas de assuntos fundamentais. Acho que essa é a grande questão. O Milton gostava de assuntos fundamentais e eu destacaria pelo menos esse tripé: os conceitos fundamentais da Geografia, da análise territorial e espacial dos fatos; os estudos de urbana, onde ele tem um destaque absurdo, e, mais recentemente, os estudos de globalização, da maneira como ele enxergava esse fenômeno e achava possível uma outra globalização e, de certa maneira, o próprio papel das técnicas na produção do espaço geográfico”.

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No decorrer de sua brilhante carreira, Milton Santos recebeu dezenas de títulos e homenagens no mundo inteiro. São vinte títulos de Doutor Honoris Causa, sendo doze conferidos por universidades brasileiras e oito estrangeiras, além do título de Professor Emérito da USP, recebido em 1997. Dentre as diversas premiações recebidas, merece destaque o Prêmio Internacional de Geografia Vautrin Lud, em 1994, uma espécie de Prêmio Nobel da Geografia. Essa foi a primeira vez que o prêmio era concedido a um geógrafo que não era francês nem norte-americano.

Em 1996, para os seus 70 anos, amigos se reuniram para prestar-lhe uma homenagem, no Seminário Internacional, em São Paulo, denominado “O mundo do Cidadão. Um cidadão do mundo”. Nessa ocasião, foi lançado o livro com o mesmo nome, com depoimentos de 67 intelectuais e amigos de todas as partes do mundo, acolhidos na ocasião pela USP. Abaixo, vocês podem conferir um vídeo desse belo encontro.

Milton faleceu aos 75 anos, em 24 de junho de 2001. Seu sepultamento ocorreu no cemitério da Paz, em São Paulo. Cinco anos depois, foi lançado o documentário “Encontro com Milton Santos: O Mundo Global Visto de Cá”, dirigido por Silvio Tendler. O filme apresenta, por meio de entrevistas com o geógrafo, alguns dos seus principais conceitos.

 

Grande importância em provas e concursos

Em decorrência da importância singular de seu trabalho para os estudos da Geografia brasileira e mundial, Milton Santos é um autor abordado de forma constante em grades curriculares e exames das mais variadas instituições, com grande destaque para as provas do Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD). “Os textos e as ideias do Milton aparecem muito no concurso dada a dimensão monumental da produção dele. Isso não é uma característica só do CACD. Isso acontece, na verdade, em concursos no Brasil desde provas de vestibular e de Ensino Médio – abordando, obviamente, de maneira mais superficial, mas trabalhando com os conceitos do Milton, que são muito importantes – até concursos para professor. Isso é, realmente, espalhado”, salienta o mestre João Felipe.

Para finalizar, o professor faz uma excelente análise da relação entre os temas de Geografia cobrados pelo CACD e a produção teórica de Milton Santos:

“No caso específico do CACD, o que nós temos é um programa de Geografia de sete itens e, indiretamente, todos estão ligados à obra do Milton, porque ele trabalhou de maneira epistemológica e trata de todos esses temas. De maneira direta: o item 1 fala da história do desenvolvimento da Geografia e ele é um personagem icônico nesse processo, muito importante numa escola de pensamento geográfico (a Geografia crítica). É um autor importantíssimo para a análise de conceitos. Já aconteceu de o concurso cobrar a maneira como Milton Santos vê o conceito de espaço, de paisagem e por aí vai. Então, o item 1 é diretamente ligado à obra dele. O item 2 é um pouco menos. Os itens 3 e 4 tratam de Geografia Econômica e Agrária e ele tem uma produção enorme nessa área, principalmente na parte de globalização, de indústria e até mesmo ao valorizar aquele estudo das técnicas, na questão do campo – ele fala muito sobre a ‘artificialização’. O item 5 é Geografia Urbana e, nesse tema, ele é a referência do sul global. E o item 6 do programa, que é Geografia Política, trata das relações entre o Estado e o território, sobre a qual ele também tem uma produção grande. É até difícil mensurar a relevância dos seus textos. Óbvio, Milton Santos não é um autor fácil de ser lido. Ele tem uma linguagem toda própria. Mas, independente da questão do concurso, o que não pode se questionar é a monumentalidade da sua obra”.

 

Fontes:

miltonsantos.com.br

museuafrobrasil.org.br

ub.edu/geocrit/sn/sn-124f.htm

 

Participação especial neste post:

Imagem do Professor

João Felipe Ribeiro

Licenciado em Geografia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Foi professor dessa disciplina em escolas das redes estadual e municipal do Rio de Janeiro e, atualmente, leciona na Escola Parque e na rede de ensino Pensi. É professor de Geografia na preparação para o Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD) e nos demais cursos de Carreiras Públicas e Internacionais do Damásio Educacional / Clio.

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