O Mundo em 3 Minutos: Brexit formalizado: nova relação Reino Unido – União Europeia

Estimadas e estimados estudantes,

Após quase cinco décadas de intensa integração econômica e política, Reino Unido e União Europeia (UE) deram início a uma nova relação no último dia 31 de janeiro, com a formalização do Brexit – abreviação de “British exit” (“saída britânica”), como ficou conhecido o processo de saída do país do bloco regional. Trata-se de um acontecimento histórico, pois é a primeira vez que um Estado-membro se retira da UE desde sua formação, em 1958, a partir da Comunidade Econômica Europeia.

O Brexit foi iniciado oficialmente em março de 2017, quando o Reino Unido acionou o Artigo 50 do Tratado de Lisboa, cláusula que permite a retirada de um país-membro do bloco europeu. Nove meses após a população britânica ter decidido pela saída no referendo realizado no Reino Unido, a então Primeira-Ministra britânica Theresa May formalizou a decisão por meio de uma carta enviada ao Conselho Europeu –  órgão que reúne os Chefes de Estado e de Governo dos Estados-Membros para definir a agenda política da UE. Dentre os principais motivos que levaram a essa decisão estão as divergências econômicas que tornaram complexa a relação entre o país e o bloco, sobretudo no tocante a temas como centralização versus controle nacional.

Os vinte e sete Estados-membros da União Europeia e o Reino Unido começaram, então, um longo processo de negociação para decidir como se daria a saída do país e de que forma as relações existentes seriam reestruturadas. Inicialmente, o egresso foi marcado para o dia 29 de março de 2019, conforme o prazo de dois anos previsto no Artigo 50. Contudo, esse prazo não foi cumprido e acabou adiado três vezes, até se chegar na data de 31 de janeiro de 2020. Desde o início das negociações, a parte mais complexa tem sido (e continuará sendo) a definição de um novo relacionamento comercial, na qual as partes devem estabelecer quais tarifas e outras barreiras à entrada serão praticadas e acordar novas regras para a circulação de bens, serviços, capitais e pessoas.

Além dessas questões, outros desafios serão enfrentados pelo Reino Unido e pela Europa Ocidental como um todo até a conclusão das negociações de transição, prevista para 31 de dezembro de 2020. Para compreendermos melhor toda essa conjuntura, nosso grande mestre de Política Internacional, Paulo Velasco, comenta sobre essa nova fase do Brexit e seus desdobramentos no episódio de hoje de “O Mundo em 3 Minutos”. Assistam a seguir!

 

Participação especial neste post:

O Mundo em 3 Minutos #4: Brexit: em que ponto se encontra?

Minhas caras e meu caros,

No último dia 29 de março, o Reino Unido iniciou oficialmente o processo do Brexit – a saída do país da União Europeia (UE) – ao acionar o Artigo 50 do Tratado de Lisboa, a cláusula que permite a retirada de um país-membro do bloco europeu. Nove meses após a população britânica ter decidido pelo Brexit no referendo realizado no Reino Unido, a Primeira-Ministra Theresa May formalizou a decisão por meio de uma carta enviada ao presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk. Dentre os principais motivos que levaram a essa decisão estão as divergências econômicas que tornaram complexa a relação entre o país e o bloco, sobretudo no tocante a temas como centralização versus controle nacional.

Os vinte e sete Estados-membros da União Europeia e o Reino Unido estão, agora, num longo processo de negociação para decidir como se dará a saída do país do bloco e de que forma as relações existentes serão reestruturadas. O Artigo 50 prevê o prazo de dois anos para que o processo seja concluído, porém muitos acreditam que pode levar mais tempo. Qualquer acordo deve ser aprovado por uma “maioria qualificada” dos países-membros da UE e pode ser vetado pelo Parlamento Europeu. A parte mais difícil será a definição de um novo relacionamento comercial, na qual as partes deverão estabelecer quais tarifas e outras barreiras à entrada serão permitidas e acordar novas regras para a questão da livre circulação de bens, serviços, capitais e pessoas. Enquanto líderes empresariais desejam os acordos mais simples possíveis para evitar danos econômicos, líderes políticos sustentam que as condições serão rigorosas para desencorajar outros Estados a seguir o exemplo do Reino Unido.

Outro grande desafio que surgiu para os britânicos foi no âmbito interno. No dia 31 de março, a Primeira-Ministra escocesa, Nicola Sturgeon, enviou uma carta à Theresa May, reivindicando formalmente autorização para realizar um novo referendo sobre a independência da Escócia do Reino Unido. A solicitação tem como justificativa o fato de a população escocesa não ter votado favorável à saída do Reino Unido da União Europeia no plebiscito de junho de 2016. Segundo Sturgeon, ao deixar a UE, o país também deixará o mercado comum e esse desfecho terá consequências significativas para a Escócia no que diz respeito a sua economia, sociedade e seu lugar no mundo. Como resposta, a Primeira-Ministra britânica informou que, em sua avaliação, este “não é o momento” para se realizar uma outra consulta sobre a independência à população.

Além dessas questões, muitas outras dificuldades serão enfrentadas pelo Reino Unido e pela Europa Ocidental como um todo até a conclusão do Brexit. Nosso querido mestre de Política Internacional, Tanguy Baghdadi, comenta sobre algumas delas e explica mais sobre o ponto no qual esse processo se encontra atualmente no episódio de hoje de “O Mundo em 3 Minutos”.

Assistam!

 

Participação especial neste post:

O reinado histórico de Elizabeth II e as relações do Reino Unido com o mundo

Olá, queridos pupilos e pupilas!

No último dia 6 de fevereiro, o mundo assistiu a um acontecimento inédito: Elizabeth Alexandra Mary, a rainha Elizabeth II do Reino Unido, tornou-se a primeira monarca britânica a comemorar o Jubileu de Safira, completando sessenta e cinco anos de reinado. Isso significa que Elizabeth II é a figura real que mais tempo permaneceu no trono britânico, superando o recorde da rainha Vitória, cujo reinado durou sessenta e três anos. Em todo esse tempo, a rainha Elizabeth II se consolidou como uma chefe de Estado bastante ativa e participativa nos assuntos públicos, tornando-se uma personalidade conhecida e respeitada mundialmente. Seu vasto histórico de participações em eventos internacionais, seja realizando visitas em diversos países ou recebendo outros representantes de Estado no Palácio de Buckingham, é a prova de que seu reinado é diferenciado no que se refere às relações do Reino Unido com o mundo.

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Rainha Elizabeth II em viagem oficial à Alemanha em 2015

A vida agitada e cheia de compromissos oficiais, porém, não estava inicialmente nos planos de Elizabeth II e sua família. Na ocasião de seu nascimento, em 21 de abril de 1926, ela ocupou o terceiro lugar na linha de sucessão ao trono, depois de seu tio Edward, Príncipe de Gales, e seu pai George, o Duque de York. Esperava-se, então, que a jovem Alteza levasse uma vida comum e privilegiada apenas como parte da família real. Entretanto, em dezembro de 1936, as mudanças começaram a ocorrer quando o então rei Edward VIII abdicou e George tornou-se o rei George VI, deixando Elizabeth como sua sucessora ao trono britânico. Esse contexto da crise da abdicação é bem retratado pelo filme O Discurso do Rei.

No início de 1952, o rei George VI foi acometido por um grave problema de saúde e ficou impedido de realizar uma viagem relacionada à Commonwealth – associação voluntária dos países que formavam o antigo Império Britânico (exceto Moçambique e Ruanda) e, após a independência, decidiram manter os laços culturais e econômicos com o Reino Unido formalmente. Diante disso, a então princesa Elizabeth realizou a viagem em seu lugar e, no dia 6 de fevereiro, recebeu a notícia da morte do pai e de sua própria ascensão ao trono enquanto estava no Quênia. A coroação oficial foi realizada no dia 2 de junho de 1953, na Abadia de Westminster, sendo essa a primeira cerimônia transmitida pela televisão. Esse fato fez com que milhares de pessoas ao redor da Commonwealth pudessem observar o esplendor e o significado da coroação de uma forma nunca possível anteriormente.

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Cerimônia de coroação da Rainha Elizabeth II em 1953

Ao tornar-se a rainha do Reino Unido, Elizabeth assumiu todas as responsabilidades e funções que antes eram exercidas por seu pai, tanto no âmbito interno quanto externo. No campo exterior, uma de suas primeiras e mais importantes ações foi ter acolhido o título de chefe da Commonwealth e, consequentemente, ter se tornado rainha também de quinze países que compõem essa comunidade. Este é um importante papel simbólico e unificador, que reforça pessoalmente os laços pelos quais a comunidade une pessoas de todo o mundo. Uma das maneiras de fortalecer essas conexões foi por meio de visitas regulares da Commonwealth. Em meados de 1953, a Rainha realizou uma turnê de sete meses pelo mundo, visitando treze países, e se tornou a primeira monarca reinante a visitar a Austrália e a Nova Zelândia. Posteriormente, as visitas aos países membros tornaram-se periódicas e prioritárias na agenda de compromissos oficiais da Alteza. Ela também sempre manteve contato regular com o Secretário Geral e o Secretariado da organização, com sede em Londres, para se informar sobre o desenvolvimento das atividades e projetos. Garantir a unidade da comunidade sempre esteve entre as prioridades mais importantes de Elizabeth.

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Rainha Elizabeth II e líderes de outros países na Conferência da Commonwealth em 1960

Desde o início, o reinado de Elizabeth adquiriu um caráter internacional singular e sua atuação no decorrer do tempo reforçou ainda mais esse fato. Em seu país e no exterior, a Rainha precisava sempre manter a neutralidade política, porém conseguiu desenvolver um sentido próprio para o papel de um monarca. Como chefe de Estado, ela realizou uma série de ações e visitas históricas, como a primeira viagem de uma realeza britânica a Berlim desde antes da Primeira Guerra Mundial.

queen1-popupEm 1957, a Rainha fez uma visita aos Estados Unidos, onde discursou na Assembleia Geral das Nações Unidas, representando o Reino Unido e a Commonwealth. Na mesma turnê, ela abriu o 23º Parlamento Canadense, tornando-se a primeira monarca do Canadá a abrir uma sessão parlamentar. Quatro anos mais tarde, Elizabeth realizou uma extensa viagem que percorreu o Chipre, a Índia, o Paquistão, o Nepal e o Irã e, em 1968, foi a vez do Brasil receber a Alteza, na primeira visita oficial de um monarca britânico ao país. Além de realizar cerimônias tradicionais, a Rainha também instituiu novas práticas, como a “Caminhada Real”, que tinha o objetivo de promover o encontro da realeza com pessoas locais durante passeios nos países visitados. Posteriormente, esse hábito se tornou uma tradição em suas viagens.

Plenary meeting: General Assembly 105th plenary meeting -Address by Her Majesty Queen Elizabeth IICada participação inédita de Elizabeth em eventos e viagens oficiais possuiu um grande simbolismo e foi fundamental para o fortalecimento das relações do Reino Unido com os demais países. Um exemplo disso foi o discurso realizado em uma reunião do Congresso dos Estados Unidos, em 1991, após a vitória da Coalização internacional na Guerra do Golfo. Na ocasião, ela se tornou a primeira monarca britânica a discursar em uma cerimônia deste tipo. Em 2010, a Rainha retornou ao país norte-americano para participar da Assembleia Geral da ONU pela segunda vez, como representante da Commonwealth, e inaugurar oficialmente um jardim memorial para as vítimas britânicas dos ataques do 11 de Setembro.

No final de 2011, devido à idade avançada, a Rainha encerrou a realização de viagens ao exterior com uma visita à Austrália, que ficou conhecida na imprensa como “turnê de despedida”. Ao finalizar esse ciclo, Elizabeth se estabeleceu como a realeza britânica que mais realizou visitas oficiais em outros países e viajou para lugares inéditos, nunca antes visitados por monarcas britânicos, como países da América do Sul e do Golfo Pérsico. O diplomata Alan Charlton registrou que “a Rainha é conhecida por sua dedicação, responsabilidade e trabalho árduo — uma continuação da obra dos dois monarcas anteriores, seu avô e seu pai. Ela é uma parte importante da identidade britânica.”

Charlton também afirma que, para os embaixadores britânicos ao redor do mundo, a Rainha e a Família Real são recursos excelentes para apoiar a diplomacia exercida por eles. Ao longo de sessenta e cinco anos de reinado, Elizabeth desempenhou essa função com maestria e prestou o apoio necessário a treze primeiros-ministros, de Winston Churchill a Theresa May, quando eles promoveram a política externa do Reino Unido, baseada em três eixos principais: Estados Unidos, Europa e Commonwealth.

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Rainha Elizabeth II em um banquete de Estado em Berlim, Alemanha, em 2015

Uma forma interessante de aprender mais sobre a história e o reinado de Elizabeth II é por meio da série The Crown, que conta de forma didática a vida da Rainha como realeza e chefe de Estado, bem como acontecimentos históricos da segunda metade do século XX. O seriado também busca mostrar como era a relação da Rainha com outros líderes políticos, como Winston Churchill, o experiente Primeiro-ministro britânico na época de sua ascensão ao trono. A ideia do criador da série é abordar sessenta anos do reinado da monarca, sendo cada década desse período retratada por uma temporada. Essa é uma ótima oportunidade de conhecer melhor a trajetória de uma rainha que exerceu – e ainda exerce – seu papel brilhantemente e conseguiu conquistar o respeito e a admiração de todo o mundo.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
MARR, A. A real Elizabeth: uma visão inteligente e intimista de uma monarca em pleno século 21. São Paulo: Editora Europa, 2012.
https://www.royal.uk/her-majesty-the-queen
http://www.itamaraty.gov.br/pt-BR/ficha-pais/5662-reino-unido-da-gra-bretanha-e-irlanda-do-norte