Carnaval fora de época e a despedida do Barão do Rio Branco

Carnaval fora de época e a despedida do Barão do Rio Branco

Minhas caras e meus caros,

Estou aqui me revigorando da folia do carnaval – afinal aproveitei até o último dia para festejar, como um legítimo amante da boemia – e lembrei-me de um acontecimento importante e um tanto melancólico: há cento e cinco anos, nosso querido Barão do Rio Branco nos deixava, no dia 10 de fevereiro, às vésperas do carnaval. A notícia causou uma enorme comoção em todo o país e fez com que o comércio e demais atividades fossem paralisados para o acompanhamento dos ritos fúnebres do herói nacional. Como se sabe, o Barão se tornou uma figura muito popular e querida pelo povo, tendo até seu nome sugerido para a sucessão presidencial em 1909. Conforme destacado pelo professor Marco Polo Haickel, o povo se agarrava às suas vitórias diplomáticas como forma de restituir um pouco de autoestima nacional.

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Multidão de luto no Rio de Janeiro

O velório ocorreu no Palácio do Itamaraty, no Rio de Janeiro, e uma multidão compareceu ao local para prestar as últimas homenagens ao grande diplomata. Este foi um dos funerais mais prestigiados da Primeira República. Neste vídeo do Ministério das Relações Exteriores, publicado em 2016, há uma interessante compilação de imagens históricas da ocasião:

O triste acontecimento foi noticiado nos principais veículos de comunicação nacionais e estrangeiros da época, como a famosa revista Fon-Fon, que publicou um suplemento de dezesseis páginas para homenagear o Barão na edição de fevereiro de 1912. O trecho do texto publicado abaixo nos fornece uma noção do sentimento de tristeza generalizada do momento:

“Hoje que se consummou a grande catastrophe, a morte de Rio Branco, todos nós que vivemos em meio da agitação dos problemas sociaes mais antagônicos, uns a combater com o estandarte da censura desfraldado, outros com uma ironia que parece de bom humor, mas que visa mais longe e também é um factor de educação nacional, todos nós devemos, tanto quanto a dôr nos permitta, meditar um pouco sobre a vida desse homem cuja morte nós sentimos representar uma grande catastrophe.”
(REVISTA FON-FON, Rio de Janeiro, v. 7, n. 7, fev. 1912.)

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Capa do Jornal do Brasil no dia da morte do Barão

Devido à grande popularidade do Barão, na ocasião de sua morte, o então presidente Hermes da Fonseca decretou luto oficial na cidade do Rio de Janeiro (capital da República na época) e, por considerar que não seria de bom tom que o povo saísse às ruas para brincar e cantar, adiou o carnaval de 1912 – que seria na semana seguinte à fatalidade – para o dia 6 de abril. No entanto, o decreto não foi muito bem-sucedido: a população foi às ruas aproveitar a folia na data normal mesmo com o clima de consternação.

Em abril, quando os clubes promoveram o carnaval oficial, a população voltou às ruas para festejar, fazendo com que o ano de 1912 ficasse marcado na História com a comemoração de dois carnavais. Para ridicularizar a situação, o povo entoava uma marchinha improvisada ao cair na folia novamente:

“Com a morte do Barão
Tivemos dois Carnavá
Ai, que bom! Ai, que gostoso!
Se morresse o Marechá!”

O “marechá”, no caso, era o impopular presidente Hermes da Fonseca.

Nesse período, não havia muita participação do governo na festa popular e essa era financiada por organizações ligadas a cassinos e jogos de azar. Dessa forma, não havia uma forma completamente eficaz de impedir que o povo caísse na folia. O livro “O Dia em que Adiaram o Carnaval”, de Luís Claudio V. G. Santos, conta detalhadamente como ocorreu esse episódio.

Assim, em 1912, o Barão do Rio Branco, que também era um grande amante da folia, proporcionou ao povo um grande carnaval fora de época – uma verdadeira micareta!

Diversas manifestações artísticas foram feitas na época em homenagem ao grande estadista. Dentre elas, destacam-se duas músicas compostas em 1912 e 1913. Confira os áudios e as letras:

 

A morte do Barão do Rio Branco

O Brasil inteiro chora
De luto está o pavilhão
Com a morte inesperada
Do eminente barão

Dorme, meu grande Rio Branco
O sono da eternidade
Que tu foste da tua Pátria
O herói da liberdade

A morte do Rio Branco
Não foi só para os brasileiros
Foi sentida no universo,
E choram os estrangeiros

Dorme, meu grande Rio Branco…

O Barão do Rio Branco
Homem sempre imortal
Conquistou mais territórios
Para a bandeira nacional

Dorme, meu grande Rio Branco…

Todo brasileiro honrado
Os olhos enche de pranto
Quando tem recordação
Do nome do Rio Branco

Dorme, meu grande Rio Branco…

 

 

Ode a Rio Branco
Autor: Eduardo das Neves

Vestiu-se a Pátria de luto
Finou-se um grande luzeiro
O Barão de Rio Branco
Diplomata brasileiro

Chorai, minha Pátria amada,
O teu luto é de luzeiro
O sentinela avançada
Do pavilhão brasileiro

Na grandeza do saber
Teu limite não há
Demonstrou o nobre sonho
No caso do Amapá

Na luta sempre gritava
Ao nobre inimigo audaz
Por isso o mundo o chamava
O mensageiro da paz

 

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Comentário ( 1 )
  1. amanda
    9 de março de 2017 at 16:17
    Reply

    muito interessante. não sabia dessa história…

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