O Mundo em 3 Minutos #13: Cúpula do BRICS 2017

Baronesas e Barões,

No início deste mês (dias 3, 4 e 5), aconteceu a IX Cúpula do BRICS na cidade de Xiamen, província de Fujian, sob a presidência da China. Com o tema “BRICS: Stronger partnership for a brigther future”, o evento inaugurou oficialmente a segunda década da cooperação entre Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Dentre as prioridades definidas previamente para as discussões da ocasião estavam assuntos como: a coordenação de uma segurança sustentável, comum, compreensiva e cooperativa; o fortalecimento de uma política macroeconômica coordenada, reformas estruturais e a fomentação de uma economia mundial aberta; trabalhar em direção a aumentar os laços entre os países BRICS; alavancar a reforma da governança econômica global; e outras.

A coordenação diplomática entre os países iniciou-se de maneira informal e regular, em 2006, com reuniões anuais de Chanceleres à margem da Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU). Essa interação exitosa levou à decisão de que o diálogo deveria ser continuado no nível de Chefes de Estado e de Governo, por meio de reuniões anuais. A partir da I Cúpula, realizada na cidade russa de Ecaterimburgo, em 2009, o diálogo entre os Membros do BRICs – que se transformou em BRICS com o ingresso da África do Sul, em 2011 – foi ganhando profundidade e abrangência. Mais do que uma sigla que identificava países ascendentes na ordem econômica internacional, o BRICS se tornou uma nova e promissora entidade político-diplomática, bastante distinta do conceito original formulado para o mercado financeiro.

Nos dez anos desde a sua criação, o BRICS continuou a consolidar suas bases e expandir para mais áreas. É agora um processo de vários níveis liderado pela Cúpula, apoiado por reuniões dos assessores nacionais de segurança, ministros dos Negócios Estrangeiros e outras reuniões ministeriais, e enriquecido com uma cooperação pragmática em dezenas de áreas como economia, comércio, finanças, negócios, agricultura, educação, saúde, ciência e tecnologia, cultura, think tanks e cidades de amizade. Mecanismos de cooperação como o Novo Banco de Desenvolvimento, Arranjo de Reserva Contingente, Conselho Empresarial e Conselho de Think Tank foram estabelecidos. A cooperação pragmática passou a ter maior profundidade para produzir resultados mais frutíferos e exerceu influência importante em todo o mundo.

Até o momento, as Cúpulas do BRICS, que contaram com a presença integral dos líderes, foram as seguintes:

  • I Cúpula: Ecaterimburgo, 16 de junho de 2009
  • II Cúpula: Brasília, 15 de abril de 2010
  • III Cúpula: Sanya, 14 de abril de 2011
  • IV Cúpula: Nova Delhi, 28-29 de março de 2012
  • V Cúpula: Durban, 27 de março de 2013
  • VI Cúpula: Fortaleza/Brasília, 15-16 de julho de 2014
  • VII Cúpula: Ufá, 8-9 de julho de 2015
  • VIII Cúpula: Goa, 15-16 de outubro de 2016

Assim como em todos os encontros oficiais do grupo, a Cúpula deste ano resultou em um comunicado conjunto, a Declaração de Xiamen, no qual os líderes dos cinco países estabeleceram suas atuais diretrizes de cooperação e ratificaram seus compromissos intra e extra bloco. O documento versa sobre quatro grandes temáticas pertinentes à conjuntura atual do arranjo de países: Cooperação econômica prática do BRICS; Governança Econômica Global; Paz e Segurança Internacionais e Intercâmbios interpessoais.

A seguir, temos uma edição novinha em folha de “O Mundo em 3 Minutos”, onde o prezado mestre de Política Internacional, Paulo Velasco, faz um excelente panorama sobre os principais assuntos tratados durante a nona reunião dos chefes de Estado do BRICS, bem como explica a importância desse evento para o cenário mundial como um todo. Assistam e fiquem a par desse conteúdo importante, meus caros!

 

Fontes:

itamaraty.gov.br

brics2017.org

 

Participação especial neste post:

Novos Olhares sobre a PEB – Veja como foi o debate!

Estimados (as) estudiosos (as) das Relações Internacionais,

A política externa brasileira (PEB) tem como uma de suas marcas a continuidade e a estabilidade mesmo em tempos de mudanças aceleradas no mundo que nos cerca. Todavia, a busca pela estabilidade diplomática não deve ser motivo para análises estanques. Nesse sentido, na última quarta-feira, tivemos o enorme prazer de acompanhar o lançamento do livro “Novos Olhares sobre a Política Externa Brasileira”, com uma riquíssima discussão a fim de rejuvenescer a análise sobre a inserção do Brasil no cenário mundial. Entre os debatedores, contamos com a presença de Gustavo Westmann (diplomata e organizador da obra), Maurício Santoro (professor de Relações Internacionais) e Ilan Cuperstein (assessor da ONG C40 Cities) – autores de três dos artigos que compõem o livro –, e a mediação do encontro ficou a cargo do nosso mestre João Daniel Almeida.

O diplomata Gustavo Westmann explicou que o projeto do livro surgiu com base na necessidade de tornar o debate sobre política externa mais democrático e transparente, dando voz a novos pensamentos e ideias. O organizador abordou questões que perpassam por toda a obra, como a ausência de um planejamento estratégico de longo prazo para a PEB, ou seja, a falta de diretrizes claras para a atuação do Brasil no exterior, e a necessidade de reformas na estrutura de governança da política externa brasileira e do Itamaraty mais especificamente.

A conversa seguiu com a contribuição de Maurício Santoro e Ilan Cuperstein, autores de dois artigos do livro que reconhecem pontos positivos da PEB nos últimos anos, relacionados a uma significativa participação da sociedade civil, e propõem melhorias nesses aspectos. O professor Maurício destacou que a atuação da sociedade em temas mais atuais, como a Tecnologia da Informação, é fundamental e apontou a necessidade do corpo diplomático possuir profissionais mais especializados para a definição de planos específicos, uma vez que o perfil generalista acaba por dificultar essa atividade em muitos casos. Ilan, por sua vez, argumentou sobre a relevância de haver um debate mais democrático e profundo sobre o que é o desenvolvimento para o Brasil, pontuando que a agenda ambiental ainda é um tema pouco explorado pelo Itamaraty. Ele também salientou a importância da política externa brasileira incorporar temas mais diversos como o meio ambiente e as mudanças climáticas, que estão extremamente ligados ao perfil socioeconômico de um país.

Ao longo da discussão, outros assuntos de grande importância para o Brasil foram levantados pelo professor João Daniel e brilhantemente discutidos pelos debatedores. Tais como: as relações bilaterais entre o Brasil e países africanos, que são abordadas em dois artigos do livro; a região Ásia-Pacífico como o grande centro das interações econômicas, sociais e estratégicas na política internacional da atualidade e a formulação de leis e políticas públicas mais sólidas e duradouras. Nesse último tema, tivemos uma participação especialíssima do professor Bruno Borges – coautor de um dos capítulos da obra junto a Maurício Santoro –, que acompanhava o evento no auditório.

Já deu para perceber como esse encontro foi enriquecedor e construtivo, não é mesmo, pupilos e pupilas? Sendo assim, deixo aqui abaixo o vídeo completo do debate para que vocês possam assistir e fazer um ótimo proveito dos conhecimentos compartilhados por esse time precioso! 😉

 

Conheçam mais sobre os participantes do evento:

Bruno Borges é graduado em Ciências Sociais e mestre em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e doutor em Ciência Política pela Duke University. Atualmente é Professor Adjunto de Política Internacional (Normas e Instituições) na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), no Departamento de Relações Internacionais e no Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais (PPGRI). Fez parte do corpo docente da Pós-Graduação em Relações Internacionais do Damásio Educacional / Clio. Tem experiência na área de Ciência Política, com ênfase em Relações Internacionais, Política Comparada e Teoria Política. Desenvolve pesquisa sobre Tecnologia e Autonomia Estatal, especialmente sobre Poder e Instituições.

Gustavo Westmann é Bacharel em Direito pela Universidade de São Paulo e em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Diplomata desde 2007, já atuou nas áreas cultural, comercial e de energia do Ministério das Relações Exteriores e, nos últimos quatro anos, foi Chefe do Setor Comercial da Embaixada do Brasil na Itália. Atualmente é Chefe do Setor Econômico e Comercial da Embaixada do Brasil na Indonésia, onde vem aprofundando seus estudos sobre o processo de formação da sociedade global. Mestre em Diplomacia pelo Instituto Rio Branco (IRBr) e em Política Internacional pela Escola de Governo da Luiss Guido Carli (Roma), Gustavo também é especialista em Direito Internacional Público pela UC Berkeley e pela The Hague Academy of International Law. Já foi professor visitante nas Universidades Tor Vergata (Roma) e Luiss (Roma). Antes da carreira diplomática, atuou como consultor jurídico na área de direito ambiental.

Ilan E. Cuperstein é formado em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e mestre em Meio Ambiente e Desenvolvimento pela London School of Economics and Political Science. Assessor da ONG C40 Cities Climate Leadership Group. Anteriormente, atuou como Conselheiro Municipal do Rio de Janeiro, onde foi responsável por auxiliar o governo da cidade no planejamento e implementação de planos de mudanças climáticas tanto na adaptação aos riscos climáticos quanto na mitigação das emissões de gases de efeito estufa. Antes de ingressar no C40, Ilan foi representante brasileiro no Centro de Mudança Climática e Inovação em Tecnologia de Energia China-Brasil, onde foi responsável pela criação do escritório em Pequim, estabelecendo relações institucionais entre parceiros da Academia, ONGs, agências governamentais e empresas sobre mudanças climáticas e problemas de energia. Como assessor internacional na COPPE/UFRJ, ele também foi responsável pela gestão de parcerias internacionais relacionadas a biocombustíveis, energia solar, política de inovação e sustentabilidade urbana.

João Daniel Almeida é graduado em História pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Foi professor do Colégio Pedro II, coordenador da graduação e da pós-graduação em Relações Internacionais da Universidade Candido Mendes e lecionou Política Externa Brasileira na graduação de Relações Internacionais da PUC-Rio. Autor do Manual do Candidato de História do Brasil editado pela Fundação Alexandre de Gusmão (Funag). Atualmente, é professor de História do Brasil e de História Mundial no curso preparatório para a carreira diplomática no Damásio Educacional / Clio. Possui experiência na área de Ciência Política, com ênfase em Política Externa do Brasil, atuando principalmente nos seguintes temas: Relações Internacionais, Educação, Política Internacional, Antropologia e Organização das Nações Unidas.

Maurício Santoro é doutor e mestre em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro, graduado em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Professor-adjunto do Departamento de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Fez parte do corpo docente da Pós-Graduação em Relações Internacionais do Damásio Educacional / Clio. Foi pesquisador-visitante nas universidades Torcuato di Tella (Buenos Aires, Argentina) e New School (Nova York, Estados Unidos), assessor da Anistia Internacional e do Secretário de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, pesquisador no Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas, repórter do jornal O Globo. Colaborou com artigos no New York Times, Estado de S. Paulo, Folha de São Paulo, Huffington Post, Le Monde Diplomatique e Valor Econômico, entre outros. Lecionou na Academia Militar das Agulhas Negras e realizou palestras na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército e no Ministério das Relações Exteriores. Tem experiência com cooperação internacional na América Latina e na África e recebeu prêmios acadêmicos ou bolsas de estudo do Ministério das Relações Exteriores, CAPES, União Latina, Latin American Studies Association, Fundação Robert Bosch. Integra o Conselho Consultivo do Nexus Fund (Estados Unidos) e o juri do prêmio The Bobs – the best of online activism da Deutsche Welle. Foi membro do Conselho Nacional de Juventude, do Comitê Brasileiro de Direitos Humanos e Política Externa e do Fórum Nacional de Participação Popular.

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Da esquerda para a direita: Bruno Borges, Maurício Santoro, Tanguy Baghdadi, Gustavo Westmann, João Daniel Almeida e Ilan Cuperstein

 

POR DENTRO DA OBRA

Meus pupilos e minhas pupilas, o livro “Novos Olhares sobre a Política Externa Brasileira” tem como principal objetivo aprofundar a discussão sobre a inserção do Brasil na ordem global e os principais obstáculos que deverão ser enfrentados nos próximos anos, com análises modernas e pragmáticas, baseadas em experiências concretas, propositivas e desvinculadas de ideias preestabelecidas pela literatura tradicional sobre o tema. A obra consiste em uma série de artigos desenvolvidos de maneira crítica e construtiva por uma nova geração de diplomatas, jornalistas, professores e representantes do setor privado que, em certa medida, estão envolvidos nos estudos e debates sobre os rumos da agenda internacional do país.

Para que vocês possam ter maior conhecimento do conteúdo abordado neste magnífico trabalho, esse bigodudo que vos fala trouxe uma listagem dos textos que o compõem, com breves explicações retiradas diretamente da parte introdutória do livro e informações sobre os autores e as autoras. Confiram a seguir, meus caros! 🙂

 

PARTE I – Reflexões mais amplas e gerais sobre a diplomacia e a política externa brasileira:

 

  1. Política externa e desenvolvimento: que horas o desenvolvimento chega? Uma nova política externa para uma nova estratégia de desenvolvimento

De modo a facilitar a leitura dos textos, o livro tem início com excelente análise de Felipe Antunes sobre os diferentes modelos de desenvolvimento adotados pelo Brasil nas últimas décadas e como eles têm influenciado os rumos da política externa. Segundo o autor, embora a busca pelo desenvolvimento seja uma constante em nossa agenda internacional, os caminhos para atingi-lo continuam objeto de disputa entre elites burocráticas, econômicas e políticas que não necessariamente refletem as aspirações da maioria da população brasileira, do que decorre a premência de democratizar os debates sobre nosso papel no mundo contemporâneo e de repensar os modelos de inserção a seguir.

Felipe Antunes de Oliveira – Bacharel em História (UFRJ), mestre em Diplomacia (IRBr) e doutorando em Relações Internacionais (Sussex University). Pesquisador do Centre For Global Political Economy. Diplomata desde 2010.

 

  1. Inserção internacional em um cenário de crise: A crise brasileira numa ordem global em transformação

O texto do professor Guilherme Casarões, diferentemente, avalia o processo de deterioração da política externa brasileira a partir de inflexões sobre recentes mudanças nas dinâmicas regionais de poder, no equilíbrio entre grandes potências e na configuração estratégica das parcerias brasileiras. Além de propor soluções alternativas para a crise atual, Casarões também apresenta comentários sobre o período de instabilidade pelo qual o Brasil está passando, e alerta para mudanças de rumo que vêm sendo verificadas, com impactos negativos ainda pouco compreendidos.

Guilherme Casarões Doutor e mestre pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) (Programa San Tiago Dantas). Leciona Relações Internacionais na Escola Superior de Propaganda e Marketing de São Paulo (ESPM-SP) e na FGV-SP.

 

  1. Os novos desafios da diplomacia brasileira: Reflexões sobre a diplomacia brasileira em tempos de globalização

Na mesma linha crítica e construtiva, o diplomata Gustavo Westmann introduz um debate atual sobre as recentes transformações da ordem global e suas consequências para a atividade diplomática tradicional. Ao indicar as dificuldades enfrentadas pelo Brasil para atender às demandas emergentes, o autor divide com o leitor suas opiniões sobre os avanços e retrocessos da política externa brasileira e sobre a crise do Itamaraty, sugerindo novos caminhos para a atuação do país no cenário internacional.

Gustavo Westmann – Diplomata desde 2007, bacharel em Direito (USP) e em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Mestre em Diplomacia (IRBr) e em Política Internacional (Luiss). Especialista em Direito Internacional Público pela UC Berkeley e pela The Hague Academy of International Law. Atualmente é chefe do setor econômico e comercial da embaixada do Brasil na Indonésia.

 

  1. Elitismo e política externa: Notas sobre os fundamentos aristocráticos (e oligárquicos) da política externa brasileira

Neste artigo, o professor Dawisson Belém Lopes baseia-se em vasto conhecimento acadêmico para desmascarar o elitismo político na diplomacia brasileira, indicando que nossa política externa continua sendo pensada e implementada por fração diminuta da sociedade e orientada por referenciais normativos ultrapassados, que dificultam a democratização do debate.

Dawisson Belém Lopes – Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

 

  1. A formação do conhecimento diplomático: Pensando devagar em diplomacia

Esse texto de Tiago Santos, afasta-se da literatura tradicional para abordar de maneira inovadora o processo de construção do conhecimento diplomático. Efetivamente, o autor questiona se esse conhecimento seria essencialmente pautado pela experiência ou por teorização e conclui que, apesar da primeira continuar sendo fundamental para as atividades de nossos diplomatas, nos dias de hoje é imprescindível associá-la a estratégias modernas de pesquisa e análise de bases teóricas e evidências empíricas.

Tiago Ribeiro dos Santos – Ingressou na carreira diplomática em 2007. É formado em Direito pela PUC-RJ e mestre em Políticas Públicas pela Harris School da Universidade de Chicago. Já esteve lotado nas Divisões de Nações Unidas e de Política Financeira do Ministério das Relações Exteriores e atualmente trabalha na embaixada do Brasil em Washington.

 

  1. O exercício do soft power brasileiro: A diplomacia do futuro e a alcunha do passado: o mito do soft power brasileiro

Hayle Gadelha, por sua vez, apresenta breve reflexão sobre as noções de soft power e diplomacia pública, analisando seus alcances e os benefícios que o Brasil poderá inferir de sua utilização planejada. De acordo com Gadelha, ao contrário de países como o Reino Unido, o governo brasileiro ainda não se vale de estratégias definidas para incrementar o potencial das reservas de soft power de que goza ou para converter esse poder em influência internacional. Defende, nesse sentido, uma diplomacia moderna, flexível e integrada à sociedade de rede, que seja capaz de implementar, em conjunto com a sociedade, abrangente plano de ação para o exercício do poder brando do país.

Hayle Gadelha – Adido cultural da embaixada do Brasil em Londres e doutorando pelo King’s College London. Trabalhou na embaixada do Brasil em Pequim e no Departamento de América do Sul-II do Itamaraty.

 

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PARTE II – Análises específicas sobre a atuação do Brasil em torno de temas que vêm ganhando crescente importância no cenário internacional do século XXI:

 

  1. Brasil e África: O recuo do Brasil na África: o desmantelamento da ofensiva de soft power do governo Lula

O segundo eixo do livro tem início com a pragmática leitura da jornalista Patrícia Campos Mello, autora que dispensa apresentações, sobre a política externa do Brasil para a África, indicando as perdas que o país vem sofrendo desde o desmantelamento da estratégia de Lula para o continente. O texto intitulado “O recuo do Brasil na África: o desmantelamento da ofensiva de soft power do governo Lula” argumenta a favor de uma política externa mais sólida e consistente para o continente, recordando não haver soft power sem recursos, planejamento e vontade política.

Patrícia Campos Mello – Repórter especial e colunista da Folha de S. Paulo. Formada em Jornalismo pela USP e mestre em Business and Economic Reporting pela Universidade de Nova York. Foi correspondente em Washington do jornal O Estado de S. Paulo e repórter do Valor Econômico e da Gazeta Mercantil, pelo qual foi correspondente na Alemanha. Foi vencedora do Prêmio Folha e Prêmio Estado. Venceu o Troféu Mulher Imprensa 2016, categoria melhor repórter de jornal.

 

  1. A fronteira asiática: Brasil, país Pacífico

Outro continente que vem assumindo importância central no sistema internacional e que, por isso mesmo, não poderia ficar de fora deste livro é a Ásia. E ninguém melhor do que um jovem diplomata residente no continente para discutir o tema. Em “Brasil, país Pacífico”, Flávio Campestrin Bettarello analisa a atuação do Brasil na vertente do Pacífico, evidenciando as limitações da agenda brasileira para a região e sugerindo que, não obstante a distância geográfica e as barreiras linguísticas e culturais, a Ásia deverá necessariamente receber maior atenção de nossos formuladores de política externa.

Flávio Campestrin Bettarello – Diplomata de carreira. Desde 2014, é o vice-observador permanente do Brasil com a Comissão Econômica e Social das Nações Unidas para a Ásia e Pacífico (UN-ESCAP) e conselheiro na embaixada do Brasil em Bangkok. Serviu na embaixada brasileira em Washington e foi professor titular de Economia Aplicada no Instituto Rio Branco. Concluiu programas de pós-graduação nas Universidades Johns Hopkins, LSE e UC Berkeley. Doutor em Ciências do Comportamento e mestre em Diplomacia.

 

  1. Cooperação para o desenvolvimento: O Brasil precisa de uma agência para o desenvolvimento internacional?

Felipe Krause dá continuidade ao livro por meio da apresentação de sólidos argumentos a favor da reforma e expansão das atividades do governo brasileiro nos campos da cooperação técnica e desenvolvimento internacional. Sustenta, por conseguinte, a criação de uma grande agência para o desenvolvimento internacional, com legislação e orçamento próprios, que permitam a elaboração de efetivo planejamento de longo prazo para a cooperação brasileira, ao contrário do que se observa atualmente.

Felipe Krause – Diplomata, atualmente cursando Ph.D. em Ciência Política e Relações Internacionais na Universidade de Cambridge, Reino Unido.

 

  1. A agenda de segurança alimentar e nutricional: Para uma nova geopolítica da fome: a segurança alimentar e nutricional na política externa brasileira

Em sintonia com as análises anteriores, Candice Sakamoto Vianna divide sua experiência profissional com o leitor para discutir mais amplamente a segurança alimentar e nutricional na diplomacia brasileira, apontando para importantes avanços do Brasil nesta agenda, apesar de ainda sujeitos a revezes. Ao criticar construtivamente a fragmentação do sistema de cooperação brasileiro e seus impactos na área de segurança alimentar, a autora reforça a necessidade de promover debates internos mais consistentes, que permitam avaliar os ganhos e perdas que uma política externa ativa na área poderá trazer para nossa sociedade.

Candice Sakamoto Vianna – Diplomata, mestre em Diplomacia pelo Instituto Rio Branco e bacharel em Administração pela Fundação Getulio Vargas. Trabalhou quatro anos na Representação Permanente do Brasil com as Agências das Nações Unidas em Roma, onde atuou como presidente do Grupo de Trabalho para o Marco Estratégico Global para Segurança Alimentar e Nutrição do Comitê de Segurança Alimentar Mundial. Atualmente é conselheira comissionada na embaixada do Brasil em Jacarta.

 

  1. Em defesa do desenvolvimento sustentável: Por um novo paradigma: a diplomacia brasileira para o desenvolvimento sustentável

Roberta Lima introduz, em seguida, importante transição temá- tica para abordar uma das pautas centrais do discurso internacional do Brasil nas últimas décadas: a promoção do desenvolvimento sustentável. Em “Por um novo paradigma: a diplomacia brasileira para o desenvolvimento sustentável”, a autora comenta os bastidores de grandes negociações internacionais sobre o tema e avalia a participa- ção brasileira na evolução da Agenda 2030 e nos Acordos de Paris. Destaca, contudo, que, apesar dos significativos avanços alcançados na construção mais democrática das posições brasileiras, ainda há muito espaço para ampliar e institucionalizar os canais de diálogo com outros órgãos da administração pública e da sociedade civil.

Roberta LimaDiplomata brasileira, graduada em Jornalismo pela UFRJ e mestre em História Política/Relações Internacionais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UERJ). No Itamaraty, tem-se dedicado principalmente a temas de meio ambiente, agricultura, desenvolvimento sustentável e cooperação internacional. Integrou a equipe negociadora da Conferência Rio+20.

 

  1. O futuro do regime climático: Legitimidade por natureza: a política externa brasileira e o regime climático

Diretamente relacionado à agenda de desenvolvimento, mas sem com ela se confundir, o regime de mudança do clima é tratado por Ilan E. Cuperstein com singular clareza e objetividade. “Legitimidade por natureza: a política externa brasileira e o regime climático” vai além do debate usual sobre o protagonismo brasileiro na área ambiental para alertar que a evolução do tema vem exigindo a revisão das posições adotadas pelo país no passado, com impactos significativos em nossas políticas para o setor. Cuperstein aproveita a oportunidade para discorrer sobre as principais convenções que regulam o regime climático e refletir sobre os novos desafios e oportunidades que se apresentam à nossa política externa.

Ilan E. CupersteinAssessor da C40 Cities Climate Leadership Group para a cidade do Rio de Janeiro. Antes da presente função, foi representante da Coppe/UFRJ no Centro Brasil China de Mudanças Climáticas e Tecnologias Inovadoras para Energia em Pequim por três anos. É formado em Relações Internacionais pela PUC/RJ e tem mestrado em Meio Ambiente e Desenvolvimento pela London School of Economics and Political Science.

 

  1. A diplomacia orçamentária nas Nações Unidas: Dívidas e dividendos: o Brasil e a área administrativa e orçamentária das Nações Unidas

Os últimos dois capítulos têm como elemento comum suas referências às Nações Unidas, desvendando temas não tradicionais em sua agenda, embora cada vez mais determinantes da conformação de poder global. Em tempos de críticas aos atrasos no cumprimento de nossas obrigações financeiras internacionais e de rediscussão sobre a participação do Brasil em diversos fóruns multilaterais, Fernando Zelner revela os mecanismos de agenda setting nas Nações Unidas com o conhecimento de quem lida diariamente com o tema e aprofunda a discussão sobre a relevância da participação financeira do Brasil em organismos internacionais.

Fernando ZelnerBacharel em Ciência Política pela Universidade de Brasília (UnB) e diplomata de carreira desde 2007. Atualmente, está locado na Missão Permanente do Brasil com as Nações Unidas.

 

  1. Governança da internet: Do marco civil às resoluções da ONU sobre privacidade digital: a política externa brasileira para a governança da internet como um jogo de dois níveis

Para encerrar o livro com um assunto que nos últimos anos vem atraindo grande atenção da mídia brasileira, dois jovens especialistas, Bruno de Moura Borges e Maurício Santoro, foram convidados a discorrer sobre a liderança do Brasil no processo de definição das regras globais de governança da internet. “Do marco civil às resoluções da ONU sobre privacidade digital: a política externa brasileira para a governança da internet como um jogo de dois níveis” permite compreender não apenas a relevância desta nova agenda, mas também os avanços logrados desde a criação do Marco Civil da internet, evidenciando que nossas posições ainda não estão consolidadas, sujeitas às incertezas da política nacional.

Bruno de Moura Borges e Maurício SantoroBruno é Ph.D. em Ciência Política (Duke University), doutor em Ciência Política (Iuperj) e professor-adjunto do Departamento de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Maurício é doutor em Ciência Política (Iuperj) e professor-adjunto do Departamento de Relações Internacionais da UERJ.

Baronesa do Mês: Maria José Rebello Mendes

Minhas caras e meus caros,

Os concursos para a carreira diplomática sofreram diversas mudanças a partir da década de 1940. A autorização para candidatas mulheres participarem, por exemplo, foi uma questão que passou por avanços e retrocessos ao longo dos anos. Esse tema já havia entrado em discussão antes mesmo das seleções começarem a ser alteradas oficialmente. De acordo com o registro da embaixadora Thereza Quintella (2002), no início do século XX, havia três categorias funcionais distintas no Ministério das Relações Exteriores (MRE): oficial da Secretaria de Estado, membro do Corpo Consular e membro do Corpo Diplomático, cada uma contando com um concurso próprio. Em 1918, a primeira colocação do concurso da Secretaria de Estado foi ocupada pela nordestina Maria José de Castro Rebello Mendes, a primeira diplomata brasileira.

Diante desse pioneirismo importantíssimo, Maria José é a nossa grande homenageada do mês! Conheçam mais sobre a bela história de sua vida e sua carreira a seguir.

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Filha de Josefina de Castro Rebelo Mendes e do advogado Raimundo Martins Mendes, Maria José nasceu em 20 de setembro de 1891 na cidade de Salvador, Bahia. Quando criança, ela teve a formação elementar em casa pela educadora alemã Matilthe Schröeder e, depois, ingressou no Colégio Alemão, onde se formou com fluência nas línguas alemã, inglesa, francesa e italiana. Em meados dos anos 1910, após o repentino falecimento de seu pai, a situação financeira da família ficou difícil e Maria foi morar com parentes no Rio de Janeiro, onde continuou a estudar e começou a dar aulas particulares.

Ao tomar conhecimento do concurso para o Itamaraty por meio de um primo, Maria decidiu inscrever-se para concorrer à vaga de terceira escriturária. Como já possuía conhecimento aprofundado nas línguas estrangeiras, ela se empenhou nos estudos das matérias que não tinha tanta familiaridade. Passou a frequentar a Escola de Comércio para se aperfeiçoar em Datilografia, Contabilidade e Economia e estudou por conta própria as matérias de Direito. No entanto, apesar de todo esse esforço, seu pedido de inscrição no processo seletivo não foi aceito pelo Ministério das Relações Exteriores (MRE).

A futura diplomata, porém, não se deixou desanimar. Para ajudá-la, seus familiares pediram auxílio ao jurista Rui Barbosa para examinar a recusa atenciosamente, à luz da legislação da época, e o caso ganhou repercussão em todo o Brasil. Sensibilizado com a história de sua jovem conterrânea, Rui elaborou um parecer argumentando a inconstitucionalidade da negativa do Ministério, salientando que a expressão “todos os brasileiros” do artigo 73 da Constituição de 1891 não era excludente das mulheres, mas abrangia todos os sexos. A partir disso, o então Ministro das Relações Exteriores Nilo Peçanha voltou atrás e deferiu a inscrição da candidata, embora ainda continuasse tratando o caso dela com discurso discriminatório: “Não sei se as mulheres desempenhariam com proveito a diplomacia, vide tantos atributos de discrição e competência que são exigidos(…), o que não posso é restringir ou negar o seu direito… Melhor seria, certamente, para o seu prestígio que continuassem a direção do lar, tais são os desenganos da vida pública, mas não há como recusar sua aspiração, desde que fiquem provadas suas aptidões”.

Maria José teve um desempenho brilhante no concurso, sobretudo em Alemão e Direito Internacional, matérias nas quais obteve um destaque extraordinário. Ela realizou a prova oral, que fazia parte da seleção na época, em sessão aberta ao público e lotada, discorrendo com firmeza sobre todos os assuntos propostos pela banca. Com efeito, em setembro de 1918, a jovem conseguiu se classificar em primeiro lugar para o cargo que disputava e passou a compor o corpo diplomático do MRE.

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O caso foi amplamente comentado pela imprensa daquele tempo e Maria José foi tanto apoiada e elogiada como também criticada. Os jornais se dividiram sobre o assunto: enquanto uns defendiam o direito dela e das mulheres em geral de ocupar cargos públicos, outros criticavam severamente o precedente aberto por Nilo Peçanha. Na edição de 26 de setembro de 1918 do Jornal do Brasil, o jornalista Carlos de Laet fez comentários a favor do desfecho do caso e noticiou as manifestações públicas de apoio a Maria José organizadas pela feminista Leolinda de Figueredo Daltro, fundadora do Partido Republicano Feminino, e suas colaboradoras. A Revista Feminina também se pronunciou em defesa da nova diplomata:

“Um bravo a D. Marietta Mendes [apelido de Maria José]… um bravo a todas as mulheres que, concisas de seu papel que deverão representar neste século, sabem desprezar a ironia sempre tola e muitas vezes idiota dos que procuram fazer espírito com o que de mais alto e mais sagrado há no seio de cada povo: o coração da mulher, o relicário de todos os heroísmos e de todas as abnegações.”

Já o vespertino carioca A Rua manifestou preocupação com o que chamou ”feminismo no Brasil” e “marcha do feminismo no Itamarati” e publicou uma carta do militar Turíbio Rabioli criticando ferozmente Carlos de Laet e indagando aos outros leitores o que sucederia em termos de autoridade no lar se uma funcionária pública viesse a se casar com outro funcionário, inferior na hierarquia. Dizia ainda que os defensores da jovem baiana nada mais desejavam do que “masculinizar o belo sexo”.

Alheia a toda essa polêmica, Maria assumiu as funções do serviço diplomático no Itamaraty e trabalhou normalmente, sem chamar mais atenção por ser mulher. Em 1922, casou-se com outro diplomata: Henrique Pinheiro de Vasconcelos, que fez parte da banca para qual ela teve que se apresentar para passar no concurso. Logo após o casamento, seu marido foi indicado para a representação brasileira na Alemanha e Maria José solicitou licença no MRE para acompanhá-lo. Após um ano, o casal retornou ao Brasil, onde viveram por mais dez anos e tiveram cinco filhos – um deles, Guy, também seguiu a carreira diplomática.

Em 1934, Maria José solicitou sua aposentadoria, pois Henrique havia sido nomeado para o cargo de conselheiro da embaixada brasileira na Bélgica. Na época, por determinações administrativas, era proibido que uma mulher diplomata assumisse um cargo na mesma representação que seu marido. Dois anos depois, em 29 de outubro, Maria José veio a falecer com apenas 45 anos, no Rio de Janeiro.

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A trajetória de Maria José foi fundamental para o avanço dos direitos das mulheres na carreira de diplomata. Entre 1919 e 1938, mais dezenove mulheres ingressaram no serviço diplomático brasileiro. No entanto, em 1938, com a reforma do chanceler Osvaldo Aranha, que unificou as carreiras consular e diplomática, tivemos um grande retrocesso: foi declarada como proibida a entrada de mulheres para cargos no Ministério das Relações Exteriores e definiu-se que o concurso passaria a ser privativo para homens, sob justificativas como, por exemplo, a dificuldade de se trabalhar em postos de alto risco.

O quadro mudou apenas em 1953, quando Maria Sandra Cordeiro de Melo teve que entrar com uma liminar na justiça para conseguir prestar o concurso para o Instituto Rio Branco (IRBr) – instituição que forma os (as) diplomatas brasileiros (as). Esta medida fez com que finalmente, em 1954, o Congresso Nacional aprovasse uma lei que garante a liberdade de acesso das mulheres às carreiras na diplomacia brasileira. Outros obstáculos jurídicos que prejudicavam a presença feminina no Itamaraty foram removidos ao longo do século XX, entre eles a proibição de casamento entre diplomatas e servidores públicos e a obrigatoriedade da chamada “agregação” para acompanhar cônjuge em missões no exterior, que, na prática, obrigava mulheres diplomatas a licenciar-se para acompanhar maridos também diplomatas.

Atualmente, existe o Comitê Gestor de Gênero e Raça (CGGR) no Ministério das Relações Exteriores. Criado em 2014, o órgão possui caráter permanente e consultivo e tem a função de coordenar programas e políticas voltadas à promoção da efetiva igualdade de oportunidades entre homens e mulheres de todas as etnias no âmbito do ministério.

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Como homenagem e reconhecimento da importância de Maria José Mendes para a diplomacia brasileira, a turma 2004-2006 do Curso de Formação do Instituto Rio Branco a escolheu como patronesse na ocasião de sua formatura, em 2007. Durante o Discurso da Oradora, a formanda Daniella de Araújo justificou a escolha com uma importante reflexão: “A luta das mulheres no Brasil, e em todo o mundo, é um dos melhores exemplos da busca por valores que nos levem ao encontro de uma sociedade mais justa e mais igualitária”.

 

FONTES:
SCHUMAHER, Schuma; BRAZIL, Érico Vital. Dicionário Mulheres do Brasil. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2000.
www.itamaraty.gov.br/pt-BR/sem-categoria/14063-as-mulheres-na-diplomacia-brasileira
funag.gov.br/loja/download/861-Diplomata._Substantivo_comum_de_dois_generos.pdf
casaruibarbosa.gov.br/dados/DOC/artigos/k-n/FCRB_RejaneMagalhaes_Presenca_Feminina_no_Itamarati.pdf
asminanahistoria.wordpress.com/2015/12/01/a-primeira-diplomata-do-brasil-maria-jose-rebelo-mendes/

Barão do Mês #2: Barão do Rio Branco

Olá, pupilas e pupilos!

Como não poderia deixar de ser, hoje, vamos celebrar o Dia do Diplomata com um ilustríssimo homenageado na coluna Barão do Mês! Com vocês, a admirável história do patrono da diplomacia brasileira, meu velho e saudoso amigo Barão do Rio Branco – ou Juca Paranhos para os mais próximos!

 

o-jovem-barao-do-rio-brancoJosé Maria da Silva Paranhos Junior, o Barão do Rio Branco, foi um grande diplomata e é considerado o patrono da Diplomacia Brasileira. Nascido em 1845, o Barão foi também advogado, jornalista, professor e político, e 20 de abril, a data de seu nascimento, passou a ser utilizada para comemorar o Dia do Diplomata. Ele também foi homenageado na criação do Instituto Rio Branco (IRBr) – instituição responsável pela formação dos (as) diplomatas brasileiros (as) – em 1945.

O Barão iniciou seus estudos no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, onde posteriormente foi professor de Geografia e História do Brasil. Ingressou na Faculdade de Direito aos dezessete anos em São Paulo e completou o curso no Recife, em 1866. Nessa cidade, também iniciou suas atividades como jornalista, contribuindo para jornais locais e nacionais e revistas estrangeiras. Os artigos para a imprensa eram escritos em seu nome e também sob pseudônimos variados, dos quais são conhecidos: Nemo, Kent, Ferdinand Hex (F.H.), Bernardo de Faria, J. Penn, Brasilicus, J. Reporter. Em 1898, foi eleito o segundo ocupante da cadeira 34 da Academia Brasileira de Letras.

A vida político-diplomática de Rio Branco foi iniciada ainda na adolescência, acompanhando o pai, José Maria da Silva Paranhos – o Visconde do Rio Branco – nas viagens e missões pelo Brasil para resolução de questões fronteiriças, que eram comuns à época. O Visconde foi uma figura importante do Segundo Império, tendo ocupado cargos notáveis como Deputado, Plenipotenciário brasileiro no Uruguai, Ministro da Marinha e dos Negócios Estrangeiros, Senador e Primeiro Ministro. Ele também negociou o fim da Guerra do Paraguai em 1869 e foi nomeado Presidente do Conselho de Ministros dois anos depois, além de ter promulgado a Lei do Ventre Livre – a garantia de liberdade aos filhos de escravos. Segundo Haickel (2007), o Barão do Rio Branco teve no pai sua maior inspiração.

Juca Paranhos – apelido familiar do Rio Branco – foi Secretário particular do pai por alguns meses em missão diplomática relativa ao término da Guerra do Paraguai. Por influência paterna, candidatou-se a Deputado Geral pelo Mato Grosso, sendo eleito em 1869, e exerceu o mandato até 1876. Como Deputado, acompanhou o Visconde na importante missão que resultou na assinatura do tratado de paz definitivo entre Paraguai, Uruguai, Brasil e Argentina em 1870.

barao-do-rio-brancoEm 1876, Rio Branco ocupou o cargo de cônsul-geral do Brasil em Liverpool e, após a morte de seu pai em 1883, foi responsável por representar o Brasil na Exposição Internacional de São Petersburgo, na Rússia. Ao fim da missão, recebeu o título de Conselheiro e, em 1888, o de Barão. Depois de proclamada a República, foi nomeado em 1891, em substituição ao Conselheiro Antônio Prado, superintendente-geral na Europa da emigração para o Brasil, cargo que exerceu até 1893.
O título de patrono da nossa diplomacia se deve, em grande medida, ao papel fundamental desempenhado pelo Barão na resolução de importantes conflitos territoriais entre o Brasil e países vizinhos de forma pacífica, sem disparar um só tiro (HAICKEL, 2007). Foi de responsabilidade do Barão a negociação de diversas fronteiras brasileiras, tais como a de Santa Catarina e do Paraná, em litígio com a Argentina, no que ficou conhecido como a Questão de Palmas em 1895, e do Amapá em disputa com a França em 1900. Entretanto, a obra pela qual ele ficou mais conhecido foi o “Tratado de Petrópolis” firmado com a Bolívia, que culminou com a incorporação do Acre ao território brasileiro em 1903.

Em 1902, Rio Branco foi convidado pelo Presidente Rodrigues Alves para assumir o cargo de Ministro das Relações Exteriores, no qual permaneceu até a morte, em 1912. Nesse ínterim, realizou diversas negociações com outros países limítrofes, cujas fronteiras com o Brasil suscitavam questões litigiosas. Erigiu como bandeira das reivindicações o princípio do uti possidetis solis, e, assim, resolveu velhas disputas do Brasil com quase todos os países da América do Sul por meio de uma série de tratados importantes: com o Equador em 1904; com a Colômbia em 1907; com o Peru em 1904 e 1909; com o Uruguai, pelo tratado do condomínio da Lagoa-Mirim, em 1909; com a Argentina em 1910. Ficaram definidos, de um modo geral, os contornos do território brasileiro, que, com pequenas alterações, existem até hoje. Dessa forma, podemos dizer que grande parte do mapa brasileiro foi desenhado pela caneta do diplomata.

O Barão do Rio Branco foi o estadista que por mais tempo permaneceu na liderança do Ministério das Relações Exteriores, servindo a quatro governos da República seguidos. Como registrou Haickel (2007), além da solução dos problemas de fronteiras, Rio Branco lançou as bases de uma nova política internacional, adaptada às necessidades do Brasil moderno. Nesse sentido, foi um devotado pan-americanista, preparando o terreno para uma aproximação mais estreita com as repúblicas hispano-americanas e acentuando a tradição de amizade e cooperação com os Estados Unidos.

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O Barão em seu escritório, onde passava boa parte de seu tempo preparando as defesas dos tratados diplomáticos do Brasil

Ademais, ele foi o principal responsável por colocar o Ministério das Relações Exteriores – posteriormente nomeado como Itamaraty – em lugar de destaque na burocracia republicana no início do século XX. Houve um aumento significativo do número de representações do país no exterior durante os dez anos em que o diplomata esteve à frente do Ministério. Um exemplo concreto disso foi a criação de 25 novos consulados entre 1905 e 1911. Seu prestígio era tanto que, em 1909, seu nome foi até sugerido para a sucessão presidencial do ano seguinte.

O Barão nos deixou nas vésperas do carnaval de 1912 e isso fez com que o feriado fosse adiado na cidade do Rio de Janeiro. Na prática, tivemos dois carnavais e grandes homenagens ao Barão, que era amante da festa, naquele ano. O triste acontecimento causou comoção em todo o país e foi notícia nos principais jornais nacionais e até no exterior. Seu funeral ocorreu no Palácio Itamaraty (RJ) e mobilizou uma grande multidão que foi prestar as últimas homenagens ao grande estadista, cujos nome e serviços ficarão eternamente vivos na memória brasileira!

 

Fontes utilizadas:

HAICKEL, M. P. Barão do Rio Branco. O Livro na Rua, n. 2. Brasília: Fundação Alexandre de Gusmão / Thesaurus Editora, 2007.

http://www.academia.org.br/academicos/barao-do-rio-branco-jose-maria-da-silva-paranhos/biografia

O Internacional em Debate #2: Saúde pública e economia brasileira pós-Operação Carne Fraca

Minhas caras e meus caros,

No segundo vídeo da nossa série de debates, abordamos a influência da Operação Carne Fraca na política doméstica, no comércio exterior e na reputação internacional do Brasil, com potenciais repercussões para a saúde global. Deflagrada pela Polícia Federal na última sexta-feira, dia 17 de março, a Operação Carne Fraca expôs um esquema de corrupção envolvendo empresas do setor alimentício, incluindo gigantes exportadoras de carne e de proteína animal que ajudaram a posicionar o Brasil como um dos grandes produtores do planeta.

Para além da discussão nacional sobre mais um episódio de corrupção, a Operação desencadeou um crescente escândalo, inspirando reportagens nos principais veículos de mídia e justificando o banimento temporário de importações de proteína animal brasileira na China, no Chile e na Coreia do Sul. Na União Europeia, a divulgação das descobertas sobre as más condições sanitárias da carne brasileira já tem inspirado pressões do setor pecuário irlandês (nosso principal competidor naquele continente) por mais um banimento significativo. As consequências para a economia brasileira já se sentem, com ações de grandes empresas despencando, e prometem se acirrar.

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Enquanto isso, especialistas em saúde pública e em segurança alimentar observam alarmados e exigem maiores informações sobre os desdobramentos dos procedimentos de adulteração de produtos impróprios para uso para o bem-estar de humanos e animais que os vêm consumindo. Descontando possíveis narrativas de pânico, a confirmação desses riscos cria oportunidades para um debate mais profundo sobre sustentabilidade na cadeira produtiva brasileira.

Neste episódio de O Internacional em Debate, os mestres Daniel Sousa e Manoela Assayag explicam as consequências da Operação da Polícia Federal no que diz respeito à economia brasileira e à saúde pública internacional. Confira, abaixo, essa discussão importante e que nos ajuda entender em que medida um procedimento interno de um país pode afetar diretamente as suas relações exteriores.

 

Participações especiais neste post:

avatar_sousaDaniel Sousa – Professor de Economia de Carreiras Internacionais do Clio/Damásio. Possui mestrado em Economia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e Especialização em Innovation in Business Learning por Boston College. Seus principais objetos de estudo são análise de investimentos, regulamentação e avaliação econômica.

 

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Manoela Assayag – Professora de Língua Inglesa de Carreiras Internacionais do Clio/Damásio. Doutora em Relações Internacionais e Ciência Política e Mestre em Estudos Internacionais e Ciência Política pelo Institut de Hautes Études Internationales et du Développement (IHEID), Genebra, Suíça. Seus principais objetos de estudo são governança global, desenvolvimento sustentável, saúde global e meio ambiente.

O Mundo em 3 Minutos #1: Operação Carne Fraca e seus impactos econômicos

Queridas pupilas e queridos pupilos,

Diversos temas sobre política, economia, comércio, diplomacia, entre outros são noticiados e debatidos diariamente ao redor do globo e acompanhar todas as discussões correntes, por vezes, se torna uma tarefa um tanto quanto difícil. Como estou aqui com a honrosa missão de ajudar-lhes nos desafios que surgem no decorrer dos estudos e da preparação, convidei professores e profissionais especializados para comentar e explicar as temáticas internacionais em alta no momento e apresentar a vocês O Mundo em 3 Minutos, a mais nova série em vídeos do blog!

Como o nome já dá a entender, em cada vídeo, o (a) convidado (a) da vez irá abordar e esclarecer as principais dúvidas sobre um tópico mundial, para que vocês possam se informar e se atualizar sobre o assunto de maneira tranquila e satisfatória. 😉

Na semana passada, um assunto em particular ganhou destaque nos noticiários nacionais e estrangeiros. A execução da Operação “Carne Fraca” pela Polícia Federal, em seis estados e no Distrito Federal brasileiros, identificou um esquema de funcionários do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento suspeitos de receber propina para liberar carnes para venda sem serem devidamente inspecionadas. Não por menos, tal fato gerou uma grande preocupação nos consumidores internos e externos do produto. Em âmbito internacional, os principais importadores de carne do Brasil pediram a suspensão das encomendas oriundas das unidades de produção envolvidas na investigação. Diante da grande repercussão, União Europeia, China, Coreia do Sul e Chile anunciaram restrições temporárias à entrada de carne brasileira na última segunda-feira (20/03).

O ministro brasileiro da Agricultura, Blairo Maggi, afirmou que o posicionamento desses países é natural após o amplo noticiário sobre a operação e salientou que é possível que a decisão seja revertida à medida que as informações forem esclarecidas. No entanto, há o receio de que esse impasse possa resultar em uma queda significativa das exportações brasileiras em 2017, conforme destacou o presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto Castro. Tendo em vista que levará um certo tempo para que os países obtenham as explicações necessárias do Governo brasileiro e executem seus próprios controles, a perda comercial pode chegar a números expressivos.

Para esclarecer as principais questões e impactos decorrentes da Operação “Carne Fraca” na economia brasileira, no primeiro episódio d’O Mundo em 3 Minutos, contamos com o vasto conhecimento do nosso querido mestre de Economia, Daniel Sousa. Confira, abaixo, as valiosas explicações do professor e deixe sua impressão ou considerações sobre o tema nos comentários!

 

Participação especial neste post:

O reinado histórico de Elizabeth II e as relações do Reino Unido com o mundo

Olá, queridos pupilos e pupilas!

No último dia 6 de fevereiro, o mundo assistiu a um acontecimento inédito: Elizabeth Alexandra Mary, a rainha Elizabeth II do Reino Unido, tornou-se a primeira monarca britânica a comemorar o Jubileu de Safira, completando sessenta e cinco anos de reinado. Isso significa que Elizabeth II é a figura real que mais tempo permaneceu no trono britânico, superando o recorde da rainha Vitória, cujo reinado durou sessenta e três anos. Em todo esse tempo, a rainha Elizabeth II se consolidou como uma chefe de Estado bastante ativa e participativa nos assuntos públicos, tornando-se uma personalidade conhecida e respeitada mundialmente. Seu vasto histórico de participações em eventos internacionais, seja realizando visitas em diversos países ou recebendo outros representantes de Estado no Palácio de Buckingham, é a prova de que seu reinado é diferenciado no que se refere às relações do Reino Unido com o mundo.

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Rainha Elizabeth II em viagem oficial à Alemanha em 2015

A vida agitada e cheia de compromissos oficiais, porém, não estava inicialmente nos planos de Elizabeth II e sua família. Na ocasião de seu nascimento, em 21 de abril de 1926, ela ocupou o terceiro lugar na linha de sucessão ao trono, depois de seu tio Edward, Príncipe de Gales, e seu pai George, o Duque de York. Esperava-se, então, que a jovem Alteza levasse uma vida comum e privilegiada apenas como parte da família real. Entretanto, em dezembro de 1936, as mudanças começaram a ocorrer quando o então rei Edward VIII abdicou e George tornou-se o rei George VI, deixando Elizabeth como sua sucessora ao trono britânico. Esse contexto da crise da abdicação é bem retratado pelo filme O Discurso do Rei.

No início de 1952, o rei George VI foi acometido por um grave problema de saúde e ficou impedido de realizar uma viagem relacionada à Commonwealth – associação voluntária dos países que formavam o antigo Império Britânico (exceto Moçambique e Ruanda) e, após a independência, decidiram manter os laços culturais e econômicos com o Reino Unido formalmente. Diante disso, a então princesa Elizabeth realizou a viagem em seu lugar e, no dia 6 de fevereiro, recebeu a notícia da morte do pai e de sua própria ascensão ao trono enquanto estava no Quênia. A coroação oficial foi realizada no dia 2 de junho de 1953, na Abadia de Westminster, sendo essa a primeira cerimônia transmitida pela televisão. Esse fato fez com que milhares de pessoas ao redor da Commonwealth pudessem observar o esplendor e o significado da coroação de uma forma nunca possível anteriormente.

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Cerimônia de coroação da Rainha Elizabeth II em 1953

Ao tornar-se a rainha do Reino Unido, Elizabeth assumiu todas as responsabilidades e funções que antes eram exercidas por seu pai, tanto no âmbito interno quanto externo. No campo exterior, uma de suas primeiras e mais importantes ações foi ter acolhido o título de chefe da Commonwealth e, consequentemente, ter se tornado rainha também de quinze países que compõem essa comunidade. Este é um importante papel simbólico e unificador, que reforça pessoalmente os laços pelos quais a comunidade une pessoas de todo o mundo. Uma das maneiras de fortalecer essas conexões foi por meio de visitas regulares da Commonwealth. Em meados de 1953, a Rainha realizou uma turnê de sete meses pelo mundo, visitando treze países, e se tornou a primeira monarca reinante a visitar a Austrália e a Nova Zelândia. Posteriormente, as visitas aos países membros tornaram-se periódicas e prioritárias na agenda de compromissos oficiais da Alteza. Ela também sempre manteve contato regular com o Secretário Geral e o Secretariado da organização, com sede em Londres, para se informar sobre o desenvolvimento das atividades e projetos. Garantir a unidade da comunidade sempre esteve entre as prioridades mais importantes de Elizabeth.

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Rainha Elizabeth II e líderes de outros países na Conferência da Commonwealth em 1960

Desde o início, o reinado de Elizabeth adquiriu um caráter internacional singular e sua atuação no decorrer do tempo reforçou ainda mais esse fato. Em seu país e no exterior, a Rainha precisava sempre manter a neutralidade política, porém conseguiu desenvolver um sentido próprio para o papel de um monarca. Como chefe de Estado, ela realizou uma série de ações e visitas históricas, como a primeira viagem de uma realeza britânica a Berlim desde antes da Primeira Guerra Mundial.

queen1-popupEm 1957, a Rainha fez uma visita aos Estados Unidos, onde discursou na Assembleia Geral das Nações Unidas, representando o Reino Unido e a Commonwealth. Na mesma turnê, ela abriu o 23º Parlamento Canadense, tornando-se a primeira monarca do Canadá a abrir uma sessão parlamentar. Quatro anos mais tarde, Elizabeth realizou uma extensa viagem que percorreu o Chipre, a Índia, o Paquistão, o Nepal e o Irã e, em 1968, foi a vez do Brasil receber a Alteza, na primeira visita oficial de um monarca britânico ao país. Além de realizar cerimônias tradicionais, a Rainha também instituiu novas práticas, como a “Caminhada Real”, que tinha o objetivo de promover o encontro da realeza com pessoas locais durante passeios nos países visitados. Posteriormente, esse hábito se tornou uma tradição em suas viagens.

Plenary meeting: General Assembly 105th plenary meeting -Address by Her Majesty Queen Elizabeth IICada participação inédita de Elizabeth em eventos e viagens oficiais possuiu um grande simbolismo e foi fundamental para o fortalecimento das relações do Reino Unido com os demais países. Um exemplo disso foi o discurso realizado em uma reunião do Congresso dos Estados Unidos, em 1991, após a vitória da Coalização internacional na Guerra do Golfo. Na ocasião, ela se tornou a primeira monarca britânica a discursar em uma cerimônia deste tipo. Em 2010, a Rainha retornou ao país norte-americano para participar da Assembleia Geral da ONU pela segunda vez, como representante da Commonwealth, e inaugurar oficialmente um jardim memorial para as vítimas britânicas dos ataques do 11 de Setembro.

No final de 2011, devido à idade avançada, a Rainha encerrou a realização de viagens ao exterior com uma visita à Austrália, que ficou conhecida na imprensa como “turnê de despedida”. Ao finalizar esse ciclo, Elizabeth se estabeleceu como a realeza britânica que mais realizou visitas oficiais em outros países e viajou para lugares inéditos, nunca antes visitados por monarcas britânicos, como países da América do Sul e do Golfo Pérsico. O diplomata Alan Charlton registrou que “a Rainha é conhecida por sua dedicação, responsabilidade e trabalho árduo — uma continuação da obra dos dois monarcas anteriores, seu avô e seu pai. Ela é uma parte importante da identidade britânica.”

Charlton também afirma que, para os embaixadores britânicos ao redor do mundo, a Rainha e a Família Real são recursos excelentes para apoiar a diplomacia exercida por eles. Ao longo de sessenta e cinco anos de reinado, Elizabeth desempenhou essa função com maestria e prestou o apoio necessário a treze primeiros-ministros, de Winston Churchill a Theresa May, quando eles promoveram a política externa do Reino Unido, baseada em três eixos principais: Estados Unidos, Europa e Commonwealth.

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Rainha Elizabeth II em um banquete de Estado em Berlim, Alemanha, em 2015

Uma forma interessante de aprender mais sobre a história e o reinado de Elizabeth II é por meio da série The Crown, que conta de forma didática a vida da Rainha como realeza e chefe de Estado, bem como acontecimentos históricos da segunda metade do século XX. O seriado também busca mostrar como era a relação da Rainha com outros líderes políticos, como Winston Churchill, o experiente Primeiro-ministro britânico na época de sua ascensão ao trono. A ideia do criador da série é abordar sessenta anos do reinado da monarca, sendo cada década desse período retratada por uma temporada. Essa é uma ótima oportunidade de conhecer melhor a trajetória de uma rainha que exerceu – e ainda exerce – seu papel brilhantemente e conseguiu conquistar o respeito e a admiração de todo o mundo.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
MARR, A. A real Elizabeth: uma visão inteligente e intimista de uma monarca em pleno século 21. São Paulo: Editora Europa, 2012.
https://www.royal.uk/her-majesty-the-queen
http://www.itamaraty.gov.br/pt-BR/ficha-pais/5662-reino-unido-da-gra-bretanha-e-irlanda-do-norte

Carnaval fora de época e a despedida do Barão do Rio Branco

Minhas caras e meus caros,

Estou aqui me revigorando da folia do carnaval – afinal aproveitei até o último dia para festejar, como um legítimo amante da boemia – e lembrei-me de um acontecimento importante e um tanto melancólico: há cento e cinco anos, nosso querido Barão do Rio Branco nos deixava, no dia 10 de fevereiro, às vésperas do carnaval. A notícia causou uma enorme comoção em todo o país e fez com que o comércio e demais atividades fossem paralisados para o acompanhamento dos ritos fúnebres do herói nacional. Como se sabe, o Barão se tornou uma figura muito popular e querida pelo povo, tendo até seu nome sugerido para a sucessão presidencial em 1909. Conforme destacado pelo professor Marco Polo Haickel, o povo se agarrava às suas vitórias diplomáticas como forma de restituir um pouco de autoestima nacional.

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Multidão de luto no Rio de Janeiro

O velório ocorreu no Palácio do Itamaraty, no Rio de Janeiro, e uma multidão compareceu ao local para prestar as últimas homenagens ao grande diplomata. Este foi um dos funerais mais prestigiados da Primeira República. Neste vídeo do Ministério das Relações Exteriores, publicado em 2016, há uma interessante compilação de imagens históricas da ocasião:

O triste acontecimento foi noticiado nos principais veículos de comunicação nacionais e estrangeiros da época, como a famosa revista Fon-Fon, que publicou um suplemento de dezesseis páginas para homenagear o Barão na edição de fevereiro de 1912. O trecho do texto publicado abaixo nos fornece uma noção do sentimento de tristeza generalizada do momento:

“Hoje que se consummou a grande catastrophe, a morte de Rio Branco, todos nós que vivemos em meio da agitação dos problemas sociaes mais antagônicos, uns a combater com o estandarte da censura desfraldado, outros com uma ironia que parece de bom humor, mas que visa mais longe e também é um factor de educação nacional, todos nós devemos, tanto quanto a dôr nos permitta, meditar um pouco sobre a vida desse homem cuja morte nós sentimos representar uma grande catastrophe.”
(REVISTA FON-FON, Rio de Janeiro, v. 7, n. 7, fev. 1912.)

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Capa do Jornal do Brasil no dia da morte do Barão

Devido à grande popularidade do Barão, na ocasião de sua morte, o então presidente Hermes da Fonseca decretou luto oficial na cidade do Rio de Janeiro (capital da República na época) e, por considerar que não seria de bom tom que o povo saísse às ruas para brincar e cantar, adiou o carnaval de 1912 – que seria na semana seguinte à fatalidade – para o dia 6 de abril. No entanto, o decreto não foi muito bem-sucedido: a população foi às ruas aproveitar a folia na data normal mesmo com o clima de consternação.

Em abril, quando os clubes promoveram o carnaval oficial, a população voltou às ruas para festejar, fazendo com que o ano de 1912 ficasse marcado na História com a comemoração de dois carnavais. Para ridicularizar a situação, o povo entoava uma marchinha improvisada ao cair na folia novamente:

“Com a morte do Barão
Tivemos dois Carnavá
Ai, que bom! Ai, que gostoso!
Se morresse o Marechá!”

O “marechá”, no caso, era o impopular presidente Hermes da Fonseca.

Nesse período, não havia muita participação do governo na festa popular e essa era financiada por organizações ligadas a cassinos e jogos de azar. Dessa forma, não havia uma forma completamente eficaz de impedir que o povo caísse na folia. O livro “O Dia em que Adiaram o Carnaval”, de Luís Claudio V. G. Santos, conta detalhadamente como ocorreu esse episódio.

Assim, em 1912, o Barão do Rio Branco, que também era um grande amante da folia, proporcionou ao povo um grande carnaval fora de época – uma verdadeira micareta!

Diversas manifestações artísticas foram feitas na época em homenagem ao grande estadista. Dentre elas, destacam-se duas músicas compostas em 1912 e 1913. Confira os áudios e as letras:

A morte do Barão do Rio Branco

O Brasil inteiro chora
De luto está o pavilhão
Com a morte inesperada
Do eminente barão

Dorme, meu grande Rio Branco
O sono da eternidade
Que tu foste da tua Pátria
O herói da liberdade

A morte do Rio Branco
Não foi só para os brasileiros
Foi sentida no universo,
E choram os estrangeiros

Dorme, meu grande Rio Branco…

O Barão do Rio Branco
Homem sempre imortal
Conquistou mais territórios
Para a bandeira nacional

Dorme, meu grande Rio Branco…

Todo brasileiro honrado
Os olhos enche de pranto
Quando tem recordação
Do nome do Rio Branco

Dorme, meu grande Rio Branco…

Ode a Rio Branco
Autor: Eduardo das Neves

Vestiu-se a Pátria de luto
Finou-se um grande luzeiro
O Barão de Rio Branco
Diplomata brasileiro

Chorai, minha Pátria amada,
O teu luto é de luzeiro
O sentinela avançada
Do pavilhão brasileiro

Na grandeza do saber
Teu limite não há
Demonstrou o nobre sonho
No caso do Amapá

Na luta sempre gritava
Ao nobre inimigo audaz
Por isso o mundo o chamava
O mensageiro da paz