O Internacional em Debate #11: Eleições no Brasil: perspectivas domésticas e internacionais

Minhas caras e meus caros,

No último dia 28 de outubro, tivemos o segundo turno de uma das eleições presidenciais mais decisivas para o Brasil nos últimos anos. Isso porque a votação deste ano não será lembrada apenas como um simples processo eleitoral. A polarização observada no país torna o pleito de 2018 único, com uma sequência de fatos pouco usual, que passaram pela prisão do candidato – até então – líder das pesquisas eleitorais e um grave ataque a faca ao outro candidato – quando este também já era, por sua vez, líder das pesquisas eleitorais.

A mudança no quadro político brasileiro levará a uma reorganização das forças, com um novo papel para a direita e para a esquerda, e com relevantes alterações de curso em matéria de economia e de política externa. Ainda que esses temas tenham soado estéreis para as campanhas eleitorais, eles fazem uma enorme diferença para as condições de vida no país nos próximos anos, e para a posição do Brasil no cenário internacional.

Por esse motivo, realizamos a 11ª edição da série O Internacional em Debate no intuito de discutirmos acerca dos temas sobre os quais pouco se falou na disputa presidencial. Para tanto, contamos com a participação dos grandes professores Daniel Sousa, Rodrigo Armstrong e Tanguy Baghdadi, que forneceram suas análises e explicações das questões econômicas e políticas nos âmbitos interno e internacional. Assistam ao vídeo completo do evento a seguir!

Participações especiais neste post:

Daniel Sousa – Mestre em Economia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Possui Especialização em Innovation in Business Learning por Boston College e graduação em Economia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Atua como Comentarista do Estúdio i da Globo News e Coordenador do GLOBAL MBA do Ibmec Rio de Janeiro. É professor na pós-graduação de Relações Internacionais e nos cursos da área de Diplomacia e Carreiras Internacionais do Clio – Damásio. Leciona na pós-graduação do Ibmec (GLOBAL e MBA) em disciplinas de Teoria Econômica e correlatas. Áreas de atuação: Economia Brasileira, Economia Internacional, Mercado Financeiro e Investimentos.

Rodrigo Armstrong – Mestre em Economia Política Internacional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e graduado em Relações Internacionais pela Tufts University. Foi escolhido para o Director’s Leadership Council, núcleo de estudantes representantes do programa de Relações Internacionais da universidade. É professor nos cursos da área de Diplomacia e Carreiras Internacionais do Clio – Damásio. Seus interesses de pesquisa envolvem os seguintes temas: História das Relações Internacionais, Política Externa Brasileira, Economia Política Internacional e Finanças Internacionais.

Tanguy Baghdadi – Mestre em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e graduado em Relações Internacionais pela Universidade Candido Mendes (UCAM). É professor de Política Internacional nos cursos da área de Diplomacia e Carreiras Internacionais do Clio – Damásio. Atua como coordenador pedagógico de Carreiras Internacionais e da pós-graduação em Relações Internacionais do Damásio Educacional. Tem experiência na área de Política Internacional, atuando principalmente nos seguintes temas: política externa brasileira, desarmamento nuclear, integração regional, terrorismo e organizações internacionais.

O Internacional em Debate #9: Balanço da Política Externa Brasileira Contemporânea

Estimados e estimadas,

Historicamente, a política externa brasileira (PEB) é marcada por conceitos que prevalecem ao longo do tempo – como as noções de autonomia e desenvolvimento – e, ao mesmo tempo, por transformações expressivas em seus objetivos e prioridades, de acordo com a orientação e o contexto políticos de cada governo. Nos anos mais recentes, a série de acontecimentos no âmbito interno contribuiu para um maior destaque desta segunda característica. Entre os analistas e pesquisadores desse tema, uma ideia que prevalece é a de que a PEB passou (e ainda passa) por um período de inflexão, o que resultou em uma significativa perda do prestígio e do protagonismo internacionais conquistados pelo país em períodos anteriores.

Um notório contraste na política externa brasileira da atualidade pode ser observado quando comparamos, por exemplo, os avanços e os retrocessos obtidos nessa esfera durante os últimos quinze anos. Como assinalado pelo pesquisador Juliano Bravo, os governos de 2003 a 2010 foram capazes de implementar e solidificar uma inserção internacional assertiva e apropriada para as potencialidades do país. Todavia, ainda que alguns traços tenham sido mantidos, houve uma queda considerável da atuação externa durante as gestões posteriores, sobretudo a partir de 2016, com o agravamento da crise política-econômica-institucional enfrentada pelo Brasil.

No contexto das celebrações de 1 ano do blog, promovemos uma especialíssima edição de O Internacional em Debate para analisarmos todas as questões relativas a política externa brasileira na contemporaneidade. A fim de melhor compreendermos os principais aspectos da inserção do Brasil no cenário mundial neste início do século XXI, nesta ocasião, contamos com as enriquecedoras exposições dos mestres Maurício Santoro, Paulo Velasco e Sabrina Medeiros. Assistam a discussão completa a seguir, e aproveitem os ensinamentos e reflexões dos professores sobre esse tema primordial para os estudos das nossas relações internacionais!

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Participações especiais neste post:

Maurício Santoro – Doutor e mestre em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ), graduado em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Professor-adjunto do Departamento de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

Paulo Velasco – Doutor em Ciência Política pelo IESP-UERJ, possui mestrado em Relações Internacionais pelo IRI – PUC Rio e graduação em Direito pela UERJ. Professor-adjunto do Departamento de Relações Internacionais da UERJ. Leciona a disciplina de Política Internacional nos cursos preparatórios da área de Carreiras Internacionais do Damásio Educacional – Clio.

Sabrina Medeiros – Doutora em Ciência Política pelo IUPERJ, com bolsa sandwish DAAD no Wissenschaftszentrum Berlin für Sozialforschung, possui mestrado em História Social pela UFRJ, com bolsa sandwish na London School of Economics and Political Science pelo British Council, e graduação em História pela UFRJ. Professora Associada da Escola de Guerra Naval (EGN).

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Barão do Mês: Araújo Castro

Caríssimos pupilos e caríssimas pupilas,

No mês de novembro, homenageamos um dos personagens mais conhecidos da história diplomática brasileira, festejado pelo grande diplomata que foi, e pelo legado que deixou para a política exterior brasileira. Araújo Castro vivenciou e atuou publicamente em um período de mudanças e questionamentos no sistema internacional, demonstrando uma visão conciliadora e de instrumentalização da política externa como meio para a paz e para o desenvolvimento. Sem mais delongas, trago para vocês uma singela apresentação da vida e carreira dessa figura ilustre, com destaque para os principais momentos da sua trajetória na diplomacia brasileira!

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João Augusto de Araújo Castro nasceu no dia 27 de agosto de 1919, no Rio de Janeiro, ainda Distrito Federal, e era filho de Raimundo de Araújo Castro e de Carmem Viveiros de Castro.

Em 1940, ainda cursando a faculdade de Direito, na Faculdade e Direito de Niterói, ingressou na carreira diplomática, e dois anos depois já integrava a comissão brasileira junto à Missão Cooke, grupo de estudo econômico enviado pelo governo norte-americano ao Brasil. O diplomata também iniciou suas funções na seara cultural e recebeu o cineasta Orson Welles, durante a Segunda Guerra Mundial com o objetivo de fortalecer os laços de amizade dos EUA com países da América Latina, no contexto da diplomacia cultural de Washington.

Araújo Castro ocupou funções no consulado brasileiro em San Juan (Porto Rico) e, posteriormente, em Miami e Nova Iorque; em 1951, foi designado para a missão permanente do Brasil na Organização das Nações Unidas (ONU), e dois anos após transferido para Roma. Em 1958, como chefe do Departamento Político e Cultural do Itamaraty, participou da formulação da Operação Pan-Americana, programa multilateral para o desenvolvimento econômico da América Latina, proposta pelo presidente Juscelino Kubitschek ao governo norte-americano como forma de promover o progresso e conter a subversão na região.

O diplomata fez parte da comitiva do vice-presidente João Goulart a Moscou e ao Extremo Oriente, interrompida em Pequim pela renúncia do presidente Jânio Quadros. Durante o governo de Jango, Araújo Castro foi nomeado secretário geral do Ministério das Relações Exteriores em 1963 e, em seguida, Ministro das Relações Exteriores. Em novembro do mesmo ano, chefiou a delegação do Brasil à XVIII Sessão da Assembleia Geral da ONU, na qual proferiu o famoso discursos dos “Três Ds” – Desenvolvimento, Desarmamento e Descolonização.

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Em um dos discursos mais importantes para a diplomacia brasileira e a confirmação do viés da política exterior do Brasil, Araújo Castro afirmou:

“Assistimos no mundo contemporâneo e nas Nações Unidas à emergência não de blocos neutros ou não-alinhados, ou de uma terceira força política ou ideológica, mas de afinidades – afinidades talvez menos estáveis, porém mais atuantes em termos de objetivos táticos, configurados na base de reivindicações comuns. O que estamos aqui presenciando é a emergência de uma articulação parlamentar no seio das Nações Unidas, e uma articulação parlamentar de pequenas e médias potências que se unem, fora ou à margem das ideologias e das polarizações militares, numa luta continuada em torno de três temas fundamentais: Desarmamento, Desenvolvimento Econômico e Descolonização. É fácil precisar o sentido de cada um dos termos desse trinômio. A luta pelo Desarmamento é a própria luta pela Paz e pela igualdade jurídica de Estados que desejam colocar-se a salvo do medo e da intimidação. A luta pelo Desenvolvimento é a própria luta pela emancipação econômica e pela justiça social. A luta pela Descolonização, em seu conceito mais amplo, é a própria luta pela emancipação política, pela liberdade e pelos direitos humanos. É esse, Senhores Delegados, o grande movimento que aqui se delineia: movimento de médias e pequenas potências que, considerando superado o velho esquema maniqueísta de apenas há alguns anos, desejam que as Nações Unidas se adaptem ao mundo de 1963, ao mundo em que terão de viver, debaixo de grandes perigos, e no limiar de grandes perspectivas”.

O aspecto desenvolvimentista da ação diplomática de Araújo Castro pôde ser percebido em outros movimentos do chanceler, que ainda em 1963, passou a presidir o grupo de coordenação do comércio com os países da Europa Oriental (Coleste) e no ano seguinte chefiou a delegação brasilei­ra à I Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (I UNCRAD), realizada em Genebra, na Suíça.

Embora tivesse postura de militância em questões relativas a comércio e desenvolvimento, o diplomata buscava evitar participação em questões de política interna, enfatizando o caráter profissional de sua posição. Araújo Castro oi o único ministro ausente do comício em favor das reformas de base, realizado em março de 1964, pelo então presidente Goulart; no mesmo mês, por ocasião do golpe civil-militar, pediu afastamento de suas funções de chanceler, motivo pelo qual se manteve afastado temporariamente da formulação direta da política exterior brasileira.

A partir de 1968 experimentou uma nova fase de ascensão em sua carreira, sendo nomeado embaixador do Brasil na ONU, cujo Conse­lho de Segurança veio a presidir no ano se­guinte.  No âmbito da Organização, enfatizou a tese do congelamento do poder mundial, pretendido pelos EUA e pela União Soviética, consubstanciado no Tratado de Não Proliferação e Desarmamento, visto como excludente e desigual. Novamente, por intermédio de Araújo Castro, a política externa brasileira afirmou, por meio da referida tese, a necessidade de interpretar as relações entre os Estados soberanos, com base no conflito Norte-Sul, e de fortalecer os laços cooperativos entre os países em desenvolvimento.

Em 1971, assumiu o posto de em­baixador do Brasil nos EUA, país no qual visou a buscar alternativas para contornar as restrições impostas pelo Con­gresso dos EUA às importações de produtos brasileiros – sobretudo o café -, além de defender o reconhecimento do mar territo­rial de duzentas milhas.

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Araújo Castro faleceu no exercício de suas funções como embaixador em Washington, no dia 9 de dezembro de 1975. Ainda hoje é festejado como um dos maiores diplomatas de nossa história, tendo sido inspiração para a formulação de conceitos contemporâneos, como os “Novos Três Ds”, formulados pelo embaixador Celso Amorim. Para o diplomata João Costa Vargas, Araújo Castro “influenciou a política exterior de três formas. Primeiramente, pela sua própria atividade como diplomata; em segundo lugar, por meio da incorporação de suas idéias à tradição de pensamento diplomático universal-desenvolvimentista, que desempenhou importante papel na política exterior até o fim da Guerra Fria; e, por fim, ao legar a seus sucessores uma forma inovadora de conceber as relações exteriores do Brasil em termos de poder, sem cair no militarismo típico da escola realista do estudo das relações internacionais”.

Fontes:

CPDOC FGV. JOÃO AUGUSTO DE ARAUJO CASTRO. – Disponível em: http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-biografico/joao-augusto-de-araujo-castro

BLOG DO ITAMARATY. Desarmamento, desenvolvimento e descolonização: 50 anos do “Discurso dos Três Ds”. –  Disponível em: http://blog.itamaraty.gov.br/11-onu/41-o-discurso-dos-tres-ds

IPRI. Banco de Teses e Dissertações: Uma esplêndida tradição: João Augusto de Araújo Castro e a política exterior do Brasil. Disponível em: http://www.funag.gov.br/ipri/btd/index.php/12-mestres-irbr/2017-uma-esplendida-tradicao-joao-augusto-de-araujo-castro-e-a-politica-exterior-do-brasil

 

O Internacional em Debate #5: Os desafios e oportunidades na Relação Brasil-Ásia

Minhas caras e meus caros,

Nos últimos anos, pudemos observar uma movimentação expressiva no sistema internacional, semelhante àquela ocorrida no início do século XX, que transferiu o eixo de poder da Europa para a América do Norte: a região da Ásia‑Pacífico emergiu como um ponto da economia mundial com influência política ascendente, até mesmo nos órgãos de decisão multilaterais. Essa parte do mundo, que já possui uma grandiosidade física em termos de território e população – maior número de habitantes do mundo, com média de 4,436 bilhões de pessoas –, tem apresentado taxas crescentes no que se refere a Produto Interno Bruto (PIB), fluxos de comércio mundial, investimentos significativos em setores de infraestrutura e de defesa, entre outras áreas. Ademais, houve um notável fortalecimento dos mecanismos de integração regionais e interregionais do continente asiático, com destaque para concertações como a Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), o Banco Asiático de Desenvolvimento (ADB) e o mais recente projeto One Belt and One Road (OBOR) – também conhecido como “Nova Rota da Seda.

Diante desse novo cenário, as relações do Brasil com o continente asiático também cresceram expressivamente, sobretudo a partir do início do século XXI. As interações bilaterais com as nações da Ásia cresceram em densidade e complexidade, de forma que a região se tornou um dos principais parceiros comerciais do país. Além disso, houve uma ampliação do contato em outras dinâmicas, como nos programas de cooperação técnica, nas atividades culturais, no intercâmbio de turistas e no número de brasileiros residentes na Ásia. Em face disso, é muito importante que os agentes e formuladores de política externa brasileira se mantenham preparados para o relacionamento e a promoção os interesses nacionais nesse contexto.

capa_brasil_asia-500x500-jpeg-2Foi com esse pensamento que o diplomata licenciado Pedro Henrique Batista Barbosa procurou incentivar as reflexões sobre as mudanças do cenário mundial a partir da ascensão da região da Ásia‑Pacífico e organizou o livro “Os desafios e oportunidades na Relação Brasil-Ásia na perspectiva de Jovens Diplomatas”, recém-publicado pela Fundação Alexandra de Gusmão (Funag). A obra é uma iniciativa inédita composta por artigos de jovens diplomatas, que possuem experiência com os países abordados, seja trabalhando com as nações asiáticas na Secretaria de Estado, em Brasília, ou nos inúmeros postos avançados (embaixadas e consulados) alocados nos países da Ásia.

O livro, que está disponível para download gratuito na página da Fundação Alexandre de Gusmão (Funag), está dividido em catorze capítulos que abordam as relações com os principais parceiros do Brasil no continente e apresentam reflexões sobre a necessária dinamização das relações com alguns dos países da região, com grande enfoque nas questões econômicas e comerciais. Além disso, os autores falam sobre as comunidades brasileiras na Ásia, as possibilidades de cooperação e a difusão de nossa cultura, como também tratam da política internacional ampla, ressaltando o papel do Brasil em questões mais complexas e as oportunidades para o país em fóruns internacionais. Nas palavras do Embaixador Sérgio Eduardo Moreira Lima, atual presidente da Funag, “não se trata somente de um exercício acadêmico, mas de um esforço singular de reflexão de profissionais a respeito da formulação e da execução da política externa para com a região mais dinâmica do planeta, e também a mais distante geograficamente”.

Para ampliar as discussões acerca desse riquíssimo tema, na quinta edição de “O Internacional em Debate”, convidamos o organizador da obra e os professores João Daniel, Maurício Santoro e Tanguy Baghdadi para apresentarem suas reflexões a partir das análises trazidas pelo livro a respeito da grande política internacional e da política externa brasileira para a região da Ásia-Pacífico. Assistam a seguir, pupilos! 🙂

Barão do Mês: Rui Barbosa

Caríssimos pupilos e caríssimas pupilas,

Neste mês de agosto, homenageamos um dos personagens mais conhecidos da História do Brasil e que recebeu um grande prestígio como advogado, jornalista, jurista, político, diplomata, ensaísta e orador, sendo candidato à Presidência da República por duas vezes! Rui Barbosa vivenciou e atuou publicamente em um período de intensa agitação política e social tanto no Brasil como exterior. Assim sendo, trago para vocês uma singela apresentação da vida e carreira dessa figura ilustre, com destaque para os principais momentos da sua trajetória nas várias esferas profissionais, sobretudo na diplomacia brasileira!

 

rb-rbic-31Filho de João José Barbosa de Oliveira e Maria Adélia Barbosa de Oliveira, Rui Barbosa de Oliveira nasceu em Salvador, Bahia, em 5 de novembro de 1849. Seu pai, que dirigiu a Instrução Pública do Estado da Bahia durante anos, foi a principal influência em sua formação e o responsável por incutir nele o amor pelos livros e o respeito à documentação em suas pesquisas. Depois dos estudos preparatórios na Província natal, Rui iniciou os estudos em Direito na Faculdade de Recife e, em 1868, transferiu-se para a Faculdade de Direito de São Paulo. Nesta cidade, participou do grêmio literário Ateneu Paulistano, dirigido por Joaquim Nabuco, junto à Castro Alves, e começou a escrever regularmente como jornalista. Em 1870, formou-se Bacharel em Direito e retornou a Salvador para trabalhar como advogado e repórter.

A vida política de Rui Barbosa iniciou-se em 1977, quando ele foi eleito Deputado à Assembleia Legislativa Provincial da Bahia. No ano seguinte, elegeu-se como Deputado à Assembleia Geral Legislativa da Corte e foi morar no Rio de Janeiro, onde, além da atividade parlamentar, continuou exercendo a advocacia e o jornalismo. As principais causas abraçadas por ele, desde que era estudante, foram o abolicionismo, a liberdade religiosa e o sistema federativo. Junto a Joaquim Nabuco, considerava a escravidão motivo de atraso e de desonra nacional. Também defendia a separação entre Igreja e Estado e a liberdade religiosa, as eleições diretas e o federalismo.

O advogado baiano foi um grande apoiador do movimento pela implantação do regime republicano e defensor do presidencialismo, tendo sido Senador da República sucessivamente eleito de 1890 até 1921. Na Assembleia Constituinte, ele participou da redação da Constituição Republicana de 1891 e teve duas propostas suas incorporadas ao texto constitucional: a atribuição dada ao Supremo Tribunal Federal (STF) de controle dos atos do Legislativo e do Executivo, ou seja, de sua constitucionalidade, e o instrumento jurídico de defesa das garantias individuais contra a ilegalidade e o abuso de poder (habeas corpus). Atuou como Ministro da Fazenda (1889-1891) e Ministro Interino dos Negócios da Justiça (1889). Sua gestão no Ministério da Fazenda, marcada pela crise financeira conhecida como “encilhamento” e pela decisão de queimar os arquivos relacionados à propriedade de escravos, tem sido reavaliada a partir das propostas de modernização da economia que defendia.

Outra atuação expressiva de Rui Barbosa foi na oposição aos governos de Floriano Peixoto, por meio de denúncias contra as arbitrariedades no Senado e no Jornal do Brasil e de requerimentos de habeas corpus, no STF, para os presos políticos da ocasião. Esse papel em favor da legalidade e das garantias individuais foi a principal motivação do seu exílio em Buenos Aires, em 1893, porém ele manteve-se fiel à defesa dos direitos fundamentais do indivíduo, tendo sido o primeiro no mundo a pronunciar-se contra o processo Dreyfus. Os destinos posteriores foram Lisboa e Londres, onde continuou participando da vida nacional, por meio de suas “Cartas da Inglaterra”, publicadas no Jornal do Comércio. Essa experiência no exterior foi o que lhe despertou o interesse pelos problemas internacionais.

De volta ao Brasil, em 1895, Rui retomou sua função de Senador e participou dos trabalhos da redação do Código Civil, opondo-se à pressa com que a obra fora produzida e elaborando o seu Parecer, que gerou polêmica e tornou-se amplamente conhecido. Nas eleições de 1905, a Bahia indicou-lhe como candidato à Presidência da República, mas ele abriu mão da indicação para apoiar a candidatura de Afonso Pena. Em 1907, o jurista representou o Brasil na II Conferência de Haia, onde desempenhou um dos papéis que mais marcaram sua vida pública. À época, o Barão do Rio Branco, Ministro das Relações Exteriores, havia escolhido Joaquim Nabuco para chefiar a delegação brasileira, mas a imprensa e a opinião pública lançaram o nome de Rui Barbosa. Assim, após Nabuco recusar o lugar, ele assumiu uma posição diplomática que nenhum representante da América Latina havia desfrutado ainda.

imagenstexto%5c1-leonidas-o-malho-11Nessa ocasião, Rui Barbosa recebeu o codinome de “Águia de Haia” do Barão do Rio Branco, que pretendia enviar para a Holanda uma “embaixada de águias” (Rui Barbosa e Joaquim Nabuco) tal como tivéramos no Império “um ministério das águias”, assim chamado por Joaquim Nabuco em virtude da experiência dos ministros que o compuseram. Antes do embarque de Rui, a revista O Malho publicou, em sua edição de 11 de maio de 1907, uma charge dele representado por uma águia em viagem sob o título “Rumo da Holanda”.

O papel de Rui Barbosa em Haia teve uma importância singular na medida em que ele defendeu com maestria jurídica, política e diplomática, o princípio da igualdade jurídica entre nações soberanas, enfrentando preconceitos dos países conhecidos como “grandes potências”. Além do princípio do direito internacional, Rui Barbosa defendeu o direito e o interesse do Brasil em participar do sistema mundial em pé de igualdade com os demais Estados soberanos. A declaração abaixo do diplomata expressa bem essa experiência:

“Ali o corpo se me fatigou; mas o espírito me adquiriu uma saúde nova. Vi todas as nações do mundo reunidas, e aprendi a não me envergonhar da minha. Medindo de perto os grandes e os fortes, achei-os menores e mais fracos do que a justiça e o direito – compreendi que, se nos desprezavam, é porque não nos conheciam e que para nos conhecerem, bastava um governo patriótico, um agente capaz e um público interessado”.

Além de ter sido nomeado Presidente de Honra da Primeira Comissão, Rui teve seu nome colocado entre os “Sete Sábios de Haia”. Como observado pelo professor Fontes de Alencar, ao representar o Brasil na entrada do país na diplomacia multilateral, Rui Barbosa defendeu com altivez e competência a igualdade jurídica e diplomática do Brasil frente às potências mundiais, inaugurando a tradição brasileira de participação ativa nos foros multilaterais, continuada na Liga das Nações e na Organização das Nações Unidas. O conhecimento jurídico e a experiência parlamentar de Rui Barbosa, como Deputado do Império e Senador da República, o haviam talhado para a missão, desempenhada com êxito.

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Membro fundador da Academia Brasileira de Letras (ABL), Rui Barbosa foi eleito presidente dessa instituição em 1908 e exerceu a função por onze anos. Em 1910, iniciou a chamada “Campanha Civilista”, concorrendo contra a candidatura de Hermes da Fonseca, defendendo os princípios republicanos, sobretudo o voto secreto, contra o militarismo e o sistema político dominado pelas oligarquias. Três anos depois, fundou o Partido Liberal e foi indicado para a Presidência da República novamente, mas desistiu de concorrer. Eleito presidente do Instituto dos Advogados do Brasil em 1914, Rui seguiu como firme defensor da legalidade e dos direitos individuais e, em 1915, denunciou o estado de sítio decretado no país. Outra atuação sua de grande importância foi no caso de Maria José Rebello Mendes, uma das primeiras candidatas ao Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD) e que viria se tornar a primeira diplomata brasileira em 1918.

Com a deflagração da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), o diplomata se opôs à neutralidade brasileira no conflito e, em 1916, quando representou o Brasil nas comemorações do centenário da Independência da Argentina, pronunciou a conferência “Modernas concepções do Direito Internacional”, expressando sua concepção de que o princípio da neutralidade não deveria servir para justificar a omissão dos Estados neutros diante dos abusos cometidos pelos países beligerantes. Seus discursos tiveram forte influência no rompimento das relações do Brasil com a Alemanha e na entrada do Brasil na Guerra ao lado dos aliados. Ao término do conflito, foi convidado pelo Presidente Rodrigues Alves para representar o Brasil na Conferência da Paz de Versalhes, porém recusou a embaixada e justificou a negativa em famosa carta enviada ao chefe de Estado.

Em 1919, Rui Barbosa foi, pela segunda vez, candidato a presidente da República e, apesar da idade avançada, percorreu diversos Estados brasileiros em campanha eleitoral. Entretanto, não obteve êxito nas eleições. Devido a divergências resultantes desse episódio, ele recusou o convite do Presidente Epitácio Pessoa para representar o Brasil na Liga das Nações em 1920. No ano seguinte, foi eleito juiz da Corte Permanente de Justiça Internacional de Haia, como o mais votado, recebendo as mais expressivas homenagens do Brasil e de todo o mundo. Em paralelo, permaneceu ativo no Senado, defendendo a reforma da Constituição de 1891 e as garantias individuais, e, em seu último discurso naquela casa, condenou a instauração do estado de sítio contra o movimento revolucionário de 1922.

Foi convidado pelo Presidente Arthur Bernardes, em 1923, para o posto de Ministro das Relações Exteriores, mas ficou impossibilitado de assumir em razão de seu grave estado de saúde. Conforme registrado pelo professor Fontes de Alencar, dentre as motivações para esse convite estava sua participação na II Conferência de Paz da Haia, quando defendeu o princípio da igualdade jurídica entre os Estados e sua campanha, como Senador, pela entrada do Brasil na Primeira Guerra Mundial, baseada na sua revisão crítica do princípio jurídico da neutralidade no direito internacional da guerra. “Rui Barbosa contribuiu, ao longo de sua vida pública, com seus discursos e pareceres, para a colocação dos temas de política externa e política internacional na pauta da política nacional”, salienta o docente.

A notícia do seu falecimento, em 1º de março de 1923, foi comentada no mundo inteiro. O jornal londrino Times dedicou-lhe um espaço nunca antes concedido a qualquer estrangeiro.

biblioteAlém do significativo legado político e diplomático, Rui Barbosa deixou uma vasta e riquíssima produção de escritos. No entanto, os textos puramente literários não são maioria. Conforme ele mesmo destacou no discurso em resposta a Constâncio Alves, as páginas de sua obra que podem ser consideradas literárias são: O elogio do Poeta (Castro Alves), a oração do Centenário do Marquês de Pombal, o ensaio Swift, a crítica do livro de Balfour, incluída nas Cartas de Inglaterra, o discurso do Liceu de Artes e Ofícios sobre o desenho aplicado à arte industrial, o discurso do Colégio Anchieta, o discurso do Instituto dos Advogados, o Parecer e a Réplica acerca do Código Civil, as traduções de poemas de Leopardi e das Lições de coisas de Calkins, e alguns artigos esparsos de jornais.

A casa em que viveu no Rio de Janeiro, de 1895 a 1923, foi adquirida, com todo o seu acervo, pelo governo brasileiro em 1924. Desde 1930, é o Museu Casa de Rui Barbosa, que conserva os móveis e objetos da família, a biblioteca de Rui e sua extensa produção intelectual, reunida em arquivos. Cabe à Fundação homônima administrar esse patrimônio, além de promover e publicar estudos e pesquisas sobre a atuação do seu patrono. No site da instituição, é possível conhecer sua residência, seus livros e documentos; consultar pesquisas desenvolvidas sobre o patrono, artigos de sua autoria e sobre ele e encomendar publicações relacionadas a ele.

Em homenagem aos 150 anos do nascimento do saudoso jurista, o Projeto Memória – realização da Fundação Banco do Brasil e da Petrobrás iniciada em 1997 – criou em seu site a seção “Rui Barbosa, justiça e liberdade”, que conta a história de sua vida e carreira em quatro partes: A luta pela cidadania (1849-1889); A construção da República (1890-1906); O voo da águia (1907-1915) e A questão social (1916-1923).

Para aqueles que desejam se aprofundar na pesquisa sobre o importante papel desempenhado por Rui Barbosa na diplomacia brasileira, a Fundação Alexandre de Gusmão (Funag) possui quatro publicações que abordam esse aspecto de sua carreira. Dentre elas estão um livro de cordel, escrito por Crispiniano Neto, e uma palestra ministrada pelo Embaixador Celso Amorim, Ex-Ministro das Relações Exteriores, durante a “II Conferência Nacional de Política Externa e Política Internacional – O Brasil e o Mundo que vem aí” em 2007. Todas as obras podem ser baixadas gratuitamente na biblioteca digital da Fundação.

 

FONTES:
ALENCAR, Fontes de. Rui Barbosa. O Livro na Rua, n. 3. Brasília: Fundação Alexandre de Gusmão / Thesaurus Editora, 2008.
Academia Brasileira de Letras (academia.org.br/academicos/rui-barbosa/biografia)
Fundação Casa de Rui Barbosa (casaruibarbosa.gov.br)

 

Novos Olhares sobre a PEB – Veja como foi o debate!

Estimados (as) estudiosos (as) das Relações Internacionais,

A política externa brasileira (PEB) tem como uma de suas marcas a continuidade e a estabilidade mesmo em tempos de mudanças aceleradas no mundo que nos cerca. Todavia, a busca pela estabilidade diplomática não deve ser motivo para análises estanques. Nesse sentido, na última quarta-feira, tivemos o enorme prazer de acompanhar o lançamento do livro “Novos Olhares sobre a Política Externa Brasileira”, com uma riquíssima discussão a fim de rejuvenescer a análise sobre a inserção do Brasil no cenário mundial. Entre os debatedores, contamos com a presença de Gustavo Westmann (diplomata e organizador da obra), Maurício Santoro (professor de Relações Internacionais) e Ilan Cuperstein (assessor da ONG C40 Cities) – autores de três dos artigos que compõem o livro –, e a mediação do encontro ficou a cargo do nosso mestre João Daniel Almeida.

O diplomata Gustavo Westmann explicou que o projeto do livro surgiu com base na necessidade de tornar o debate sobre política externa mais democrático e transparente, dando voz a novos pensamentos e ideias. O organizador abordou questões que perpassam por toda a obra, como a ausência de um planejamento estratégico de longo prazo para a PEB, ou seja, a falta de diretrizes claras para a atuação do Brasil no exterior, e a necessidade de reformas na estrutura de governança da política externa brasileira e do Itamaraty mais especificamente.

A conversa seguiu com a contribuição de Maurício Santoro e Ilan Cuperstein, autores de dois artigos do livro que reconhecem pontos positivos da PEB nos últimos anos, relacionados a uma significativa participação da sociedade civil, e propõem melhorias nesses aspectos. O professor Maurício destacou que a atuação da sociedade em temas mais atuais, como a Tecnologia da Informação, é fundamental e apontou a necessidade do corpo diplomático possuir profissionais mais especializados para a definição de planos específicos, uma vez que o perfil generalista acaba por dificultar essa atividade em muitos casos. Ilan, por sua vez, argumentou sobre a relevância de haver um debate mais democrático e profundo sobre o que é o desenvolvimento para o Brasil, pontuando que a agenda ambiental ainda é um tema pouco explorado pelo Itamaraty. Ele também salientou a importância da política externa brasileira incorporar temas mais diversos como o meio ambiente e as mudanças climáticas, que estão extremamente ligados ao perfil socioeconômico de um país.

Ao longo da discussão, outros assuntos de grande importância para o Brasil foram levantados pelo professor João Daniel e brilhantemente discutidos pelos debatedores. Tais como: as relações bilaterais entre o Brasil e países africanos, que são abordadas em dois artigos do livro; a região Ásia-Pacífico como o grande centro das interações econômicas, sociais e estratégicas na política internacional da atualidade e a formulação de leis e políticas públicas mais sólidas e duradouras. Nesse último tema, tivemos uma participação especialíssima do professor Bruno Borges – coautor de um dos capítulos da obra junto a Maurício Santoro –, que acompanhava o evento no auditório.

Já deu para perceber como esse encontro foi enriquecedor e construtivo, não é mesmo, pupilos e pupilas? Sendo assim, deixo aqui abaixo o vídeo completo do debate para que vocês possam assistir e fazer um ótimo proveito dos conhecimentos compartilhados por esse time precioso! 😉

 

Conheçam mais sobre os participantes do evento:

Bruno Borges é graduado em Ciências Sociais e mestre em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e doutor em Ciência Política pela Duke University. Atualmente é Professor Adjunto de Política Internacional (Normas e Instituições) na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), no Departamento de Relações Internacionais e no Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais (PPGRI). Fez parte do corpo docente da Pós-Graduação em Relações Internacionais do Damásio Educacional / Clio. Tem experiência na área de Ciência Política, com ênfase em Relações Internacionais, Política Comparada e Teoria Política. Desenvolve pesquisa sobre Tecnologia e Autonomia Estatal, especialmente sobre Poder e Instituições.

Gustavo Westmann é Bacharel em Direito pela Universidade de São Paulo e em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Diplomata desde 2007, já atuou nas áreas cultural, comercial e de energia do Ministério das Relações Exteriores e, nos últimos quatro anos, foi Chefe do Setor Comercial da Embaixada do Brasil na Itália. Atualmente é Chefe do Setor Econômico e Comercial da Embaixada do Brasil na Indonésia, onde vem aprofundando seus estudos sobre o processo de formação da sociedade global. Mestre em Diplomacia pelo Instituto Rio Branco (IRBr) e em Política Internacional pela Escola de Governo da Luiss Guido Carli (Roma), Gustavo também é especialista em Direito Internacional Público pela UC Berkeley e pela The Hague Academy of International Law. Já foi professor visitante nas Universidades Tor Vergata (Roma) e Luiss (Roma). Antes da carreira diplomática, atuou como consultor jurídico na área de direito ambiental.

Ilan E. Cuperstein é formado em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e mestre em Meio Ambiente e Desenvolvimento pela London School of Economics and Political Science. Assessor da ONG C40 Cities Climate Leadership Group. Anteriormente, atuou como Conselheiro Municipal do Rio de Janeiro, onde foi responsável por auxiliar o governo da cidade no planejamento e implementação de planos de mudanças climáticas tanto na adaptação aos riscos climáticos quanto na mitigação das emissões de gases de efeito estufa. Antes de ingressar no C40, Ilan foi representante brasileiro no Centro de Mudança Climática e Inovação em Tecnologia de Energia China-Brasil, onde foi responsável pela criação do escritório em Pequim, estabelecendo relações institucionais entre parceiros da Academia, ONGs, agências governamentais e empresas sobre mudanças climáticas e problemas de energia. Como assessor internacional na COPPE/UFRJ, ele também foi responsável pela gestão de parcerias internacionais relacionadas a biocombustíveis, energia solar, política de inovação e sustentabilidade urbana.

João Daniel Almeida é graduado em História pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Foi professor do Colégio Pedro II, coordenador da graduação e da pós-graduação em Relações Internacionais da Universidade Candido Mendes e lecionou Política Externa Brasileira na graduação de Relações Internacionais da PUC-Rio. Autor do Manual do Candidato de História do Brasil editado pela Fundação Alexandre de Gusmão (Funag). Atualmente, é professor de História do Brasil e de História Mundial no curso preparatório para a carreira diplomática no Damásio Educacional / Clio. Possui experiência na área de Ciência Política, com ênfase em Política Externa do Brasil, atuando principalmente nos seguintes temas: Relações Internacionais, Educação, Política Internacional, Antropologia e Organização das Nações Unidas.

Maurício Santoro é doutor e mestre em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro, graduado em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Professor-adjunto do Departamento de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Fez parte do corpo docente da Pós-Graduação em Relações Internacionais do Damásio Educacional / Clio. Foi pesquisador-visitante nas universidades Torcuato di Tella (Buenos Aires, Argentina) e New School (Nova York, Estados Unidos), assessor da Anistia Internacional e do Secretário de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, pesquisador no Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas, repórter do jornal O Globo. Colaborou com artigos no New York Times, Estado de S. Paulo, Folha de São Paulo, Huffington Post, Le Monde Diplomatique e Valor Econômico, entre outros. Lecionou na Academia Militar das Agulhas Negras e realizou palestras na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército e no Ministério das Relações Exteriores. Tem experiência com cooperação internacional na América Latina e na África e recebeu prêmios acadêmicos ou bolsas de estudo do Ministério das Relações Exteriores, CAPES, União Latina, Latin American Studies Association, Fundação Robert Bosch. Integra o Conselho Consultivo do Nexus Fund (Estados Unidos) e o juri do prêmio The Bobs – the best of online activism da Deutsche Welle. Foi membro do Conselho Nacional de Juventude, do Comitê Brasileiro de Direitos Humanos e Política Externa e do Fórum Nacional de Participação Popular.

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Da esquerda para a direita: Bruno Borges, Maurício Santoro, Tanguy Baghdadi, Gustavo Westmann, João Daniel Almeida e Ilan Cuperstein

 

POR DENTRO DA OBRA

Meus pupilos e minhas pupilas, o livro “Novos Olhares sobre a Política Externa Brasileira” tem como principal objetivo aprofundar a discussão sobre a inserção do Brasil na ordem global e os principais obstáculos que deverão ser enfrentados nos próximos anos, com análises modernas e pragmáticas, baseadas em experiências concretas, propositivas e desvinculadas de ideias preestabelecidas pela literatura tradicional sobre o tema. A obra consiste em uma série de artigos desenvolvidos de maneira crítica e construtiva por uma nova geração de diplomatas, jornalistas, professores e representantes do setor privado que, em certa medida, estão envolvidos nos estudos e debates sobre os rumos da agenda internacional do país.

Para que vocês possam ter maior conhecimento do conteúdo abordado neste magnífico trabalho, esse bigodudo que vos fala trouxe uma listagem dos textos que o compõem, com breves explicações retiradas diretamente da parte introdutória do livro e informações sobre os autores e as autoras. Confiram a seguir, meus caros! 🙂

 

PARTE I – Reflexões mais amplas e gerais sobre a diplomacia e a política externa brasileira:

 

  1. Política externa e desenvolvimento: que horas o desenvolvimento chega? Uma nova política externa para uma nova estratégia de desenvolvimento

De modo a facilitar a leitura dos textos, o livro tem início com excelente análise de Felipe Antunes sobre os diferentes modelos de desenvolvimento adotados pelo Brasil nas últimas décadas e como eles têm influenciado os rumos da política externa. Segundo o autor, embora a busca pelo desenvolvimento seja uma constante em nossa agenda internacional, os caminhos para atingi-lo continuam objeto de disputa entre elites burocráticas, econômicas e políticas que não necessariamente refletem as aspirações da maioria da população brasileira, do que decorre a premência de democratizar os debates sobre nosso papel no mundo contemporâneo e de repensar os modelos de inserção a seguir.

Felipe Antunes de Oliveira – Bacharel em História (UFRJ), mestre em Diplomacia (IRBr) e doutorando em Relações Internacionais (Sussex University). Pesquisador do Centre For Global Political Economy. Diplomata desde 2010.

 

  1. Inserção internacional em um cenário de crise: A crise brasileira numa ordem global em transformação

O texto do professor Guilherme Casarões, diferentemente, avalia o processo de deterioração da política externa brasileira a partir de inflexões sobre recentes mudanças nas dinâmicas regionais de poder, no equilíbrio entre grandes potências e na configuração estratégica das parcerias brasileiras. Além de propor soluções alternativas para a crise atual, Casarões também apresenta comentários sobre o período de instabilidade pelo qual o Brasil está passando, e alerta para mudanças de rumo que vêm sendo verificadas, com impactos negativos ainda pouco compreendidos.

Guilherme Casarões Doutor e mestre pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) (Programa San Tiago Dantas). Leciona Relações Internacionais na Escola Superior de Propaganda e Marketing de São Paulo (ESPM-SP) e na FGV-SP.

 

  1. Os novos desafios da diplomacia brasileira: Reflexões sobre a diplomacia brasileira em tempos de globalização

Na mesma linha crítica e construtiva, o diplomata Gustavo Westmann introduz um debate atual sobre as recentes transformações da ordem global e suas consequências para a atividade diplomática tradicional. Ao indicar as dificuldades enfrentadas pelo Brasil para atender às demandas emergentes, o autor divide com o leitor suas opiniões sobre os avanços e retrocessos da política externa brasileira e sobre a crise do Itamaraty, sugerindo novos caminhos para a atuação do país no cenário internacional.

Gustavo Westmann – Diplomata desde 2007, bacharel em Direito (USP) e em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Mestre em Diplomacia (IRBr) e em Política Internacional (Luiss). Especialista em Direito Internacional Público pela UC Berkeley e pela The Hague Academy of International Law. Atualmente é chefe do setor econômico e comercial da embaixada do Brasil na Indonésia.

 

  1. Elitismo e política externa: Notas sobre os fundamentos aristocráticos (e oligárquicos) da política externa brasileira

Neste artigo, o professor Dawisson Belém Lopes baseia-se em vasto conhecimento acadêmico para desmascarar o elitismo político na diplomacia brasileira, indicando que nossa política externa continua sendo pensada e implementada por fração diminuta da sociedade e orientada por referenciais normativos ultrapassados, que dificultam a democratização do debate.

Dawisson Belém Lopes – Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

 

  1. A formação do conhecimento diplomático: Pensando devagar em diplomacia

Esse texto de Tiago Santos, afasta-se da literatura tradicional para abordar de maneira inovadora o processo de construção do conhecimento diplomático. Efetivamente, o autor questiona se esse conhecimento seria essencialmente pautado pela experiência ou por teorização e conclui que, apesar da primeira continuar sendo fundamental para as atividades de nossos diplomatas, nos dias de hoje é imprescindível associá-la a estratégias modernas de pesquisa e análise de bases teóricas e evidências empíricas.

Tiago Ribeiro dos Santos – Ingressou na carreira diplomática em 2007. É formado em Direito pela PUC-RJ e mestre em Políticas Públicas pela Harris School da Universidade de Chicago. Já esteve lotado nas Divisões de Nações Unidas e de Política Financeira do Ministério das Relações Exteriores e atualmente trabalha na embaixada do Brasil em Washington.

 

  1. O exercício do soft power brasileiro: A diplomacia do futuro e a alcunha do passado: o mito do soft power brasileiro

Hayle Gadelha, por sua vez, apresenta breve reflexão sobre as noções de soft power e diplomacia pública, analisando seus alcances e os benefícios que o Brasil poderá inferir de sua utilização planejada. De acordo com Gadelha, ao contrário de países como o Reino Unido, o governo brasileiro ainda não se vale de estratégias definidas para incrementar o potencial das reservas de soft power de que goza ou para converter esse poder em influência internacional. Defende, nesse sentido, uma diplomacia moderna, flexível e integrada à sociedade de rede, que seja capaz de implementar, em conjunto com a sociedade, abrangente plano de ação para o exercício do poder brando do país.

Hayle Gadelha – Adido cultural da embaixada do Brasil em Londres e doutorando pelo King’s College London. Trabalhou na embaixada do Brasil em Pequim e no Departamento de América do Sul-II do Itamaraty.

 

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PARTE II – Análises específicas sobre a atuação do Brasil em torno de temas que vêm ganhando crescente importância no cenário internacional do século XXI:

 

  1. Brasil e África: O recuo do Brasil na África: o desmantelamento da ofensiva de soft power do governo Lula

O segundo eixo do livro tem início com a pragmática leitura da jornalista Patrícia Campos Mello, autora que dispensa apresentações, sobre a política externa do Brasil para a África, indicando as perdas que o país vem sofrendo desde o desmantelamento da estratégia de Lula para o continente. O texto intitulado “O recuo do Brasil na África: o desmantelamento da ofensiva de soft power do governo Lula” argumenta a favor de uma política externa mais sólida e consistente para o continente, recordando não haver soft power sem recursos, planejamento e vontade política.

Patrícia Campos Mello – Repórter especial e colunista da Folha de S. Paulo. Formada em Jornalismo pela USP e mestre em Business and Economic Reporting pela Universidade de Nova York. Foi correspondente em Washington do jornal O Estado de S. Paulo e repórter do Valor Econômico e da Gazeta Mercantil, pelo qual foi correspondente na Alemanha. Foi vencedora do Prêmio Folha e Prêmio Estado. Venceu o Troféu Mulher Imprensa 2016, categoria melhor repórter de jornal.

 

  1. A fronteira asiática: Brasil, país Pacífico

Outro continente que vem assumindo importância central no sistema internacional e que, por isso mesmo, não poderia ficar de fora deste livro é a Ásia. E ninguém melhor do que um jovem diplomata residente no continente para discutir o tema. Em “Brasil, país Pacífico”, Flávio Campestrin Bettarello analisa a atuação do Brasil na vertente do Pacífico, evidenciando as limitações da agenda brasileira para a região e sugerindo que, não obstante a distância geográfica e as barreiras linguísticas e culturais, a Ásia deverá necessariamente receber maior atenção de nossos formuladores de política externa.

Flávio Campestrin Bettarello – Diplomata de carreira. Desde 2014, é o vice-observador permanente do Brasil com a Comissão Econômica e Social das Nações Unidas para a Ásia e Pacífico (UN-ESCAP) e conselheiro na embaixada do Brasil em Bangkok. Serviu na embaixada brasileira em Washington e foi professor titular de Economia Aplicada no Instituto Rio Branco. Concluiu programas de pós-graduação nas Universidades Johns Hopkins, LSE e UC Berkeley. Doutor em Ciências do Comportamento e mestre em Diplomacia.

 

  1. Cooperação para o desenvolvimento: O Brasil precisa de uma agência para o desenvolvimento internacional?

Felipe Krause dá continuidade ao livro por meio da apresentação de sólidos argumentos a favor da reforma e expansão das atividades do governo brasileiro nos campos da cooperação técnica e desenvolvimento internacional. Sustenta, por conseguinte, a criação de uma grande agência para o desenvolvimento internacional, com legislação e orçamento próprios, que permitam a elaboração de efetivo planejamento de longo prazo para a cooperação brasileira, ao contrário do que se observa atualmente.

Felipe Krause – Diplomata, atualmente cursando Ph.D. em Ciência Política e Relações Internacionais na Universidade de Cambridge, Reino Unido.

 

  1. A agenda de segurança alimentar e nutricional: Para uma nova geopolítica da fome: a segurança alimentar e nutricional na política externa brasileira

Em sintonia com as análises anteriores, Candice Sakamoto Vianna divide sua experiência profissional com o leitor para discutir mais amplamente a segurança alimentar e nutricional na diplomacia brasileira, apontando para importantes avanços do Brasil nesta agenda, apesar de ainda sujeitos a revezes. Ao criticar construtivamente a fragmentação do sistema de cooperação brasileiro e seus impactos na área de segurança alimentar, a autora reforça a necessidade de promover debates internos mais consistentes, que permitam avaliar os ganhos e perdas que uma política externa ativa na área poderá trazer para nossa sociedade.

Candice Sakamoto Vianna – Diplomata, mestre em Diplomacia pelo Instituto Rio Branco e bacharel em Administração pela Fundação Getulio Vargas. Trabalhou quatro anos na Representação Permanente do Brasil com as Agências das Nações Unidas em Roma, onde atuou como presidente do Grupo de Trabalho para o Marco Estratégico Global para Segurança Alimentar e Nutrição do Comitê de Segurança Alimentar Mundial. Atualmente é conselheira comissionada na embaixada do Brasil em Jacarta.

 

  1. Em defesa do desenvolvimento sustentável: Por um novo paradigma: a diplomacia brasileira para o desenvolvimento sustentável

Roberta Lima introduz, em seguida, importante transição temá- tica para abordar uma das pautas centrais do discurso internacional do Brasil nas últimas décadas: a promoção do desenvolvimento sustentável. Em “Por um novo paradigma: a diplomacia brasileira para o desenvolvimento sustentável”, a autora comenta os bastidores de grandes negociações internacionais sobre o tema e avalia a participa- ção brasileira na evolução da Agenda 2030 e nos Acordos de Paris. Destaca, contudo, que, apesar dos significativos avanços alcançados na construção mais democrática das posições brasileiras, ainda há muito espaço para ampliar e institucionalizar os canais de diálogo com outros órgãos da administração pública e da sociedade civil.

Roberta LimaDiplomata brasileira, graduada em Jornalismo pela UFRJ e mestre em História Política/Relações Internacionais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UERJ). No Itamaraty, tem-se dedicado principalmente a temas de meio ambiente, agricultura, desenvolvimento sustentável e cooperação internacional. Integrou a equipe negociadora da Conferência Rio+20.

 

  1. O futuro do regime climático: Legitimidade por natureza: a política externa brasileira e o regime climático

Diretamente relacionado à agenda de desenvolvimento, mas sem com ela se confundir, o regime de mudança do clima é tratado por Ilan E. Cuperstein com singular clareza e objetividade. “Legitimidade por natureza: a política externa brasileira e o regime climático” vai além do debate usual sobre o protagonismo brasileiro na área ambiental para alertar que a evolução do tema vem exigindo a revisão das posições adotadas pelo país no passado, com impactos significativos em nossas políticas para o setor. Cuperstein aproveita a oportunidade para discorrer sobre as principais convenções que regulam o regime climático e refletir sobre os novos desafios e oportunidades que se apresentam à nossa política externa.

Ilan E. CupersteinAssessor da C40 Cities Climate Leadership Group para a cidade do Rio de Janeiro. Antes da presente função, foi representante da Coppe/UFRJ no Centro Brasil China de Mudanças Climáticas e Tecnologias Inovadoras para Energia em Pequim por três anos. É formado em Relações Internacionais pela PUC/RJ e tem mestrado em Meio Ambiente e Desenvolvimento pela London School of Economics and Political Science.

 

  1. A diplomacia orçamentária nas Nações Unidas: Dívidas e dividendos: o Brasil e a área administrativa e orçamentária das Nações Unidas

Os últimos dois capítulos têm como elemento comum suas referências às Nações Unidas, desvendando temas não tradicionais em sua agenda, embora cada vez mais determinantes da conformação de poder global. Em tempos de críticas aos atrasos no cumprimento de nossas obrigações financeiras internacionais e de rediscussão sobre a participação do Brasil em diversos fóruns multilaterais, Fernando Zelner revela os mecanismos de agenda setting nas Nações Unidas com o conhecimento de quem lida diariamente com o tema e aprofunda a discussão sobre a relevância da participação financeira do Brasil em organismos internacionais.

Fernando ZelnerBacharel em Ciência Política pela Universidade de Brasília (UnB) e diplomata de carreira desde 2007. Atualmente, está locado na Missão Permanente do Brasil com as Nações Unidas.

 

  1. Governança da internet: Do marco civil às resoluções da ONU sobre privacidade digital: a política externa brasileira para a governança da internet como um jogo de dois níveis

Para encerrar o livro com um assunto que nos últimos anos vem atraindo grande atenção da mídia brasileira, dois jovens especialistas, Bruno de Moura Borges e Maurício Santoro, foram convidados a discorrer sobre a liderança do Brasil no processo de definição das regras globais de governança da internet. “Do marco civil às resoluções da ONU sobre privacidade digital: a política externa brasileira para a governança da internet como um jogo de dois níveis” permite compreender não apenas a relevância desta nova agenda, mas também os avanços logrados desde a criação do Marco Civil da internet, evidenciando que nossas posições ainda não estão consolidadas, sujeitas às incertezas da política nacional.

Bruno de Moura Borges e Maurício SantoroBruno é Ph.D. em Ciência Política (Duke University), doutor em Ciência Política (Iuperj) e professor-adjunto do Departamento de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Maurício é doutor em Ciência Política (Iuperj) e professor-adjunto do Departamento de Relações Internacionais da UERJ.