O Internacional em Debate #8: História e Atualidade da Migração Médio-Oriental para o Brasil

Caras e caros aprendizes,

Nos últimos anos, o fluxo migratório do Oriente Médio para o Brasil ganhou um importante destaque, sobretudo após o agravamento da Guerra Civil Síria e o consequente aumento do número de cidadãos dessa região que solicitam refúgio ao governo brasileiro. Essa situação se explica, em grande medida, pela normativa lançada em 2013 pelo Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), que facilitou a concessão de vistos especificamente para sírios. A partir disso, as embaixadas brasileiras em países próximos à Síria registram ter recebido quatro vezes mais pedidos de visto.

Não obstante essa recente onda imigratória, a entrada de migrantes médio-orientais no Brasil tem uma origem bem mais antiga. Registra-se que esse movimento começou na metade do século XIX, ainda na época do Império, quando inicialmente chegaram os comerciantes palestinos cristãos, que vinham vender produtos religiosos da Terra Santa. O maior fluxo, porém, ocorreu a partir da década de 1870, especialmente após uma viagem de D. Pedro II pelo Império Otomano, que detinha boa parte do território que hoje conhecemos como Oriente Médio, entre 1876 e 1877. Documentos mostram que o Imperador brasileiro passou uma boa imagem de seu país aos árabes da província otomana da Grande Síria, e isso teria influenciado sua decisão de emigrar para o Brasil em busca de melhores condições de vida.

A primeira grande leva imigratória, então, teve início em 1876 e perdurou até meados de 1914, sendo sua maioria composta por sírios e libaneses de religião cristã, com diversas subdivisões internas. Posteriormente, eventos impactantes para a região do Oriente Médio, como a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), os conflitos árabes-israelenses (a partir de 1948) e a Guerra Civil Libanesa (1975 e 1990), estabeleceram novas condições para a chegada dos cidadãos médio-orientais no Brasil: se antes eles vinham como migrantes, agora passariam a possuir o status de refugiados. Ademais, o perfil religioso da diáspora tornou-se mais diversificado, com destaque para um número maior de muçulmanos neste segundo fluxo de imigrações.

No século XXI, dois acontecimentos importantes também contribuíram para o movimento migratório do Oriente Médio para o Brasil. Foram eles: a Guerra do Hezbollah em 2006, e, mais recentemente, a Guerra Civil Síria, que teve início em 2011 e perdura até os dias de hoje.

Para entendermos melhor os desdobramentos de todos esses marcos históricos, bem como a atual presença de imigrantes médio-orientais em nosso país, realizamos a oitava edição de O Internacional em Debate, com a especialíssima participação da professora Monique Sochaczewski, historiadora especializada em Oriente Médio, e do refugiado sírio Adel Bakkour, que está no Brasil desde 2012 e é professor de Árabe. A seguir, vocês podem conferir a íntegra dessa conversa fantástica, repleta de aprendizados e inspirações!

 

* O livro “Do Rio de Janeiro a Istambul – contrastes e conexões entre o Brasil e o Império Otomano (1850‑1919)”, mencionado pela professora Monique no início do debate, pode ser obtido em PDF gratuitamente nesta página da Funag.

 

Participação especial neste post:

Adel Bakkour – Cursou, parcialmente, a graduação de Química na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Atualmente, é aluno do curso de Relações Internacionais nesta mesma instituição. Natural da cidade síria de Aleppo, chegou ao Brasil em 2012 na condição de refugiado e reside no Rio de Janeiro desde então. Leciona aulas de Árabe no projeto Abraço Cultural, apoiado pelo Programa de Atendimento a Refugiados e Solicitantes de Refúgio (PARES) da Cáritas-RJ.

Monique Sochaczewski – Possui doutorado e pós-doutorado em História pela Fundação Getúlio Vargas. Lecionou por anos na mesma instituição bem como no Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME), entre outras instituições cariocas de ensino superior. É autora do livro “Do Rio de Janeiro a Istambul: Contrastes e Conexões entre o Brasil e o Império Otomano (1850-1919)” (Brasília: FUNAG, 2017) e fellow do Summer Institute for Israel Studies, da Brandeis University (EUA). Tem larga experiência nas áreas de História e Relações Internacionais, com interesse em especial por questões relacionadas à História Global, à História Pública, ao Oriente Médio e ao Cáucaso do Sul.

Os 50 anos da Guerra dos Seis Dias

Minhas caras e meus caros,

Há cinquenta anos, o dia 10 de junho registrou o fim da Guerra dos Seis Dias (também conhecida como Terceira Guerra Árabe-Israelense), um conflito deflagrado entre Israel e uma frente de Estados árabes, composta pelo Egito, Jordânia e Síria e apoiada pelo Iraque, Kuwait, Arábia Saudita, Argélia e Sudão. Iniciado em 5 de junho de 1967, esse acontecimento possui duas características bem expressivas: foi a mais curta das guerras já travadas entre árabes e israelenses e, não obstante sua breve duração, o confronto resultou em mudanças geopolíticas decisivas para o futuro dos países envolvidos e do Oriente Médio como um todo.

“A Guerra dos Seis Dias é um dos capítulos mais importantes das instabilidades da região, pois foi o momento em que Israel ocupou territórios nos quais se pretende criar um Estado palestino (Cisjordânia e Faixa de Gaza), além de ter tomado um território da Síria, as Colinas de Golã, e um do Egito, a Península do Sinai. Apenas o último foi devolvido”, destaca o professor de Política Internacional Tanguy Baghdadi. “Um outro efeito é o de acirramento ainda maior das tensões entre árabes e israelenses, sobretudo pela ampla articulação promovida por países como Egito, Iraque e Síria, que foi derrotada com grande facilidade por Israel”, completa.

A partir do plano de partilha da Palestina, proposto pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1947, e o estabelecimento oficial do Estado de Israel, em 1948, as tensões entre árabes e israelenses se tornaram constantes. Durante os anos 1950 e 1960, houve uma forte ascensão do nacionalismo árabe, liderado pelo presidente do Egito, Gamal Abdel Nasser, e apoiado por outros chefes de Estado do Oriente Médio, sobretudo os da Síria e da Jordânia. Depois da chamada “guerra de independência” de 1948, a Crise de Suez (1956), decorrente do movimento nacionalista, foi o segundo confronto militar entre os dois grupos.

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(Bandeiras palestina e israelense)

O terceiro ápice da contenda árabe-israelense, ocorreu após um período de pouco mais de dez anos sem confrontos, e é possível dizer que suas causas remontam à Conferência do Cairo de 1964, onde, pela primeira vez, a Liga Árabe revelou que destruir Israel era seu principal objetivo. Nessa ocasião, também foi criada a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), que possuía como braços militares o Exército de Libertação da Palestina, sob o comando de vários países árabes, e o grupo de guerrilha independente Al Fatah. O clima de tensão na região aumentou consideravelmente quando essa organização passou a realizar operações militares contra Israel, utilizando uma base na Síria. Como represália a tais ações, as forças israelenses derrubaram seis caças sírios em Damasco em abril de 1967. Em seguida, Síria e Jordânia, que firmaram pactos de ajuda militar mútua em caso de guerra, pressionaram o Egito para agir em seu favor. Visando a manutenção de sua liderança no mundo árabe, o governo egípcio enviou tropas ao Deserto do Sinai, exigiu a retirada da Força de Emergência da ONU, que ocupava a região desde o fim da guerra de 1956, e enviou barcos armados para fechar o estreito de Tiran, no Golfo de Aqaba, à navegação israelense.

Esse foi o estopim para a deflagração da Guerra dos Seis Dias, na manhã de 5 de junho, a partir do ataque-relâmpago da Força Aérea Israelense (FAI) ao Egito, destruindo quase a totalidade de seus aviões de combate ainda em solo. No mesmo dia, após ofensivas da Síria e da Jordânia em Israel, a FAI também conseguiu devastar grande parte da força aérea desses países, chegando a um total de aproximadamente quatrocentos aviões árabes destruídos. No decorrer das batalhas, as forças israelenses cruzaram as fronteiras da Península do Sinai, conquistaram a cidade velha de Jerusalém – local sob o domínio jordaniano até então – e chegaram ao estreito de Tiran. Em seguida, as tropas de Israel alcançaram Rumani, região próxima ao canal de Suez, e, com o avanço sobre a fronteira da Jordânia, capturaram a Cisjordânia (porção jordaniana perto da divisa natural do rio Jordão). Por fim, em 9 de junho, o ministro israelense da Defesa ordenou um ataque à Síria, que resultou na ocupação das Colinas de Golã.

O Estado de Israel saiu amplamente vitorioso do conflito, tendo conquistado a Cisjordânia, Gaza, Jerusalém oriental, as colinas do Golã e a Península do Sinai. No entanto, argumenta-se que essa expansão territorial não fora planejada, bem como não possuía caráter definitivo. A respeito disso, o sociólogo Cláudio Camargo afirma que a Guerra dos Seis Dias foi um conflito que nenhuma das partes desejava e que, ao contrário do que possa parecer, careceu de planejamento político e estratégico por parte de Israel, embora muitos analistas árabes acreditassem que o conflito fora deliberadamente provocado pelos israelenses para expandir seu território. Contudo, a conquista e ocupação da Cisjordânia e das Colinas de Golã foram definidos ao longo das batalhas e não estavam nos planos iniciais dos estrategistas israelenses.

guerra-dos-seis-diasO acordo de paz proposto por Israel ao Egito e à Síria dias depois da guerra sustenta esse pensamento sobre o desenrolar do conflito. A proposta israelense incluía as seguintes ações: retirada das tropas israelenses das áreas ocupadas desde que fossem garantidas a liberdade de navegação no estreito de Tiran e no canal de Suez; desmilitarização da Península do Sinai e das Colinas do Golã; não-interferência no escoamento de água das nascentes do rio Jordão e, em relação à Cisjordânia, a opção de dar autonomia aos palestinos, mas manter o território sob controle israelense, ou devolver parte dele à Jordânia. Entretanto, numa conferência realizada em agosto de 1967, a cúpula árabe decidiu não reconhecer o Estado de Israel e não realizar negociações com esse. Tal postura contribuiu para o fortalecimento dos expansionistas defensores do “Grande Israel”, que anexaram Jerusalém Leste e as Colinas de Golã ao seu território e mantiveram as ocupações na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, realizando assentamentos judaicos. Desde então, a hostilidade histórica entre árabes e israelenses se reforçou e o Oriente Médio se tornou uma região ainda mais instável em termos geopolíticos.

A Guerra dos Seis Dias foi um acontecimento marcante nas Relações Internacionais e seus efeitos são verificados até os dias de hoje. Por isso, esse é um tema que, não raro, aparece de forma direta ou indireta nos concursos de carreiras internacionais, sobretudo naqueles cujos editais incluem Política Internacional (PI) – como o Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD) – ou Atualidades/Conhecimentos Gerais, como a seleção para Oficial de Chancelaria por exemplo.

A respeito disso, nosso grande mestre de PI Tanguy Baghdadi salienta: “a tendência do CACD nos últimos anos tem sido a cobrança de temas relacionados a contextos regionais específicos, e o Oriente Médio é sempre uma possibilidade, como tem mostrado as últimas provas. Esse evento, que completa 50 anos, é basilar na composição do Oriente Médio atual e compreendê-lo é necessário para bem interpretar a atual configuração da região. A partir da compreensão da Guerra dos Seis Dias, podemos avaliar eventos como a assinatura de um acordo de paz entre Egito e Israel – e a consequente perda de liderança por parte deste país árabe – a instalação de assentamentos israelenses em territórios palestinos e a radicalização de parte da resistência palestina, para mencionar alguns exemplos”. Em relação as outras provas, o professor destaca que “os demais concursos de carreiras internacionais também tendem a ser sensíveis a temas de atualidades, e a Guerra dos Seis Dias é um dos fundamentos do Oriente Médio atual”.

Sendo assim, pupilos e pupilas, é importante atentar para esse assunto durante os estudos não só de História Geral, mas também para o aprendizado de Política Internacional! Para ajudá-los (as) nessa tarefa, o professor Tanguy deixa ainda uma dica preciosa: “como o estudo para concursos públicos exige foco, indico o livro do professor Márcio Scalércio, chamado “Oriente Médio: uma análise reveladora sobre dois povos condenados a conviver”. Agora, é só correr para a leitura, meus queridos! 😉

 

Fonte: CAMARGO, Cláudio. “Guerras Árabes-Israelenses”. In: MAGNOLI, Demétrio. História das Guerras. São Paulo: Contexto, 2006.

 

Participação especial neste post: