Baronesa do Mês: Bertha Lutz

Caras pupilas e caros pupilos,

Atualmente, a Organização das Nações Unidas (ONU) possui uma agenda bem definida e desenvolvida no que diz respeito às questões de igualdade de gênero ao redor do mundo. Esse é, inclusive, um dos elementos que compõem a Agenda 2030 e os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, adotados na ocasião da Cúpula das Nações Unidas em 2015. O que nem todos sabem, porém, é como e quando esse assunto começou a ser discutido no âmbito da instituição.

E se eu dissesse a vocês que uma das principais responsáveis pela inclusão das temáticas de gênero na ONU foi uma brasileira? Isso mesmo, meus caros! A cientista e diplomata Bertha Lutz representou o Brasil na Conferência de São Francisco – reunião que originou as Nações Unidas –, em 1945, e, com a ajuda de outras delegadas latino-americanas, reivindicou e garantiu a inclusão da defesa dos direitos das mulheres na Carta da ONU e a criação de um órgão intergovernamental para a promoção da igualdade de gênero.

Por esse motivo ilustre e importantíssimo, Bertha é a nossa grande homenageada do mês! Conheçam mais sobre suas admiráveis história e carreira a seguir.

 

bertha_jovemFilha da enfermeira inglesa Amy Fowler Lutz e do cientista e médico Adolfo Lutz, Berta Maria Júlia Lutz nasceu em São Paulo em 2 de agosto de 1894 e foi educada formalmente na Europa, graduando-se em Ciências Naturais na Faculdade de Ciências da Universidade de Paris (Sorbonne). Durante o tempo que passou em terras europeias, ela pôde conhecer de perto o movimento feminista e a campanha sufragista que ganhava espaço na Inglaterra. Essa experiência foi determinante para que, mais tarde, ela começasse sua militância em defesa da liberdade das mulheres e da igualdade de gênero.

Em 1918, Bertha retornou ao Brasil e começou a trabalhar como auxiliar de seu pai e tradutora do Instituto Oswaldo Cruz. Prestou concurso para o cargo de secretária do Museu Nacional, passou em primeiro lugar e foi nomeada por decreto, tornando-se a segunda mulher a ocupar um cargo público no país, em 1919. Posteriormente, a cientista foi designada pelo diretor do Museu Nacional para auxiliar os trabalhos da Seção de Botânica. Após a morte de seu pai, em 1940, ela deu continuidade às pesquisas por ele desenvolvidas, e qualificou-se como zoóloga especialista em hylas neotropicais. Bertha também se preocupou com os assuntos ambientais e com o patrimônio natural e cultural brasileiro, participando como conselheira do Conselho Federal Florestal e do Conselho Federal de Expedições Artísticas e Científicas.

Ao mesmo tempo em que desempenhava excelente trabalho nas ciências biológicas, Bertha travou uma luta admirável pelos direitos políticos e sociais das mulheres no Brasil e no mundo. Sua militância tinha diversos objetivos, sendo o direito do voto e a emancipação da mulher os principais deles. Em 1919, criou a Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher e, três anos depois, organizou o I Congresso Internacional Feminista no Rio de Janeiro, consolidando a criação da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (FBPF), na qual foi presidente e presidente de honra vitalícia posteriormente. A atuação política dessa instituição foi fundamental para a conquista do direito de voto feminino no país, por meio do decreto-lei do presidente Getúlio Vargas, em 1932.

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I Congresso Internacional Feminista no Rio de Janeiro, 1922. Fonte: Arquivo Nacional.

A cientista também teve participação na fundação da União Universitária Feminina, em 1929, e da Liga Eleitoral Independente em 1932. No ano seguinte, criou a União Profissional Feminina e a União das Funcionárias Públicas. Ainda em 1933, Bertha candidatou-se a uma vaga na Assembleia Nacional Constituinte de 1934, pelo Partido Autonomista do Distrito Federal, mas não conseguiu se eleger. Obteve, porém, a primeira suplência no pleito seguinte e acabou assumindo o mandato de Deputada Federal em julho de 1936, devido à morte do titular, Cândido Pessoa. Como parlamentar, priorizou as propostas de reformulação das leis referentes ao trabalho da mulher e do menor, objetivando a igualdade salarial, a licença de três meses para a gestante e a redução da jornada de trabalho de 13 horas diárias. Sua atuação legislativa perdurou somente até novembro de 1937 devido à decretação do Estado Novo. Todavia, ela se manteve fiel à luta das mulheres pela cidadania nas décadas seguintes.

Buscando se aprofundar nas questões legais dos direitos da mulher, formou-se em Direito pela Faculdade de Direito do Rio de Janeiro (1933). Em seguida, escreveu a obra “A Nacionalidade da Mulher Casada”, onde analisou juridicamente o assunto e apresentou ideias para a solução do problema das mulheres de outros países – as brasileiras não eram submetidas a essa regra – que se viam obrigadas a adotar a nacionalidade do marido se ele fosse estrangeiro.

Como bem registrou o pesquisador Guilherme Gantois, Bertha Lutz tinha grande interesse nos movimentos feministas que estavam ocorrendo nos diversos lugares do planeta e, além do continente americano, mantinha contato com movimentos e organizações da Europa e da Ásia, o que lhe dava amplo conhecimento da situação das mulheres em vários lugares do mundo. Ademais, ela representou o Brasil em reuniões e assembleias internacionais pela causa da emancipação política e social feminina, defendendo especialmente o direito de igualdade no trabalho para homens e mulheres.

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IX Congresso da Aliança Internacional pelo Sufrágio Feminino, 1923. Fonte: Arquivo Nacional.

A ativista participou de diversos eventos e atividades internacionais de grande importância, dentre os quais: o Conselho Feminino Internacional (1919), órgão da Organização Internacional do Trabalho (OIT) – onde foram aprovados os princípios de salário igual para ambos os sexos e a inclusão da mulher no serviço de proteção aos trabalhadores; a Assembleia-Geral da Liga das Mulheres Eleitoras nos Estados Unidos (1922), na qual foi eleita vice-presidente da Sociedade Pan-Americana; o IX Congresso da Aliança Internacional pelo Sufrágio Feminino em Roma (1923); a Conferência Internacional da Mulher em Berlim (1929); a Conferência Internacional do Trabalho nos EUA (1944), como membro da Comissão de Assuntos Femininos; a Conferência de São Francisco (1945), na função de delegada plenipotenciária; a Comissão de Estatutos da Mulher das Nações Unidas (1952), criada por sua iniciativa, e a Comissão Interamericana de Mulheres (1953), órgão da Organização dos Estados Americanos (OEA), nos postos de delegada e vice-presidente até 1959.

Além disso, Bertha foi membro de inúmeras entidades internacionais. Tais como: a Aliança Internacional pelo Sufrágio Feminino e Igualdade Política dos Sexos (Londres), a Sociedade Internacional de Mulheres Geógrafas (Washington), a Comissão Feminina Consultiva do Trabalho da Mulher, do Bureau Internacional do Trabalho, da Sociedade das Nações (Genebra), o Bureau Internacional de Proteção à Natureza (Bruxelas) e o Museu Americano de História Natural (Nova York).

 

O papel decisivo de Bertha Lutz na Conferência de São Francisco

No final de 2016, a ONU divulgou uma pesquisa reveladora sobre a atuação da diplomata brasileira na Conferência de São Francisco, na qual foi redigida a Carta das Nações Unidas, o documento que originou a Organização mundial em 1945. Bertha Lutz foi a única mulher a integrar a delegação do Brasil ao evento e, na ocasião, procurou impulsionar a igualdade entre homens e mulheres não apenas na agenda da instituição, mas também princípio universal. Graças à insistência das representantes latino-americanas presentes na Conferência, lideradas por Bertha, a Carta foi um dos primeiros tratados internacionais a mencionar em seu texto a necessidade de igualdade de direitos entre os gêneros.

O estudo também revelou que as latino-americanas enfrentaram forte oposição de diplomatas norte-americanas e britânicas. Durante os debates, a estadunidense Virginia Gildersleeve afirmou que as mulheres já estavam “bem estabelecidas” e a igualdade de oportunidades entre homens e mulheres já era realidade nos EUA. Lutz, por sua vez, respondeu que “em nenhum lugar do mundo, havia igualdade completa de direitos com os homens”, e que havia sido encarregada pelo governo Getúlio Vargas de defender justamente esse ponto na Carta da ONU.

Apenas três por cento dos 160 participantes da Conferência eram mulheres, e quatro delas assinaram a Carta da ONU: Bertha Lutz (Brasil), Wu Yi-fang (China), Minerva Bernardino (República Dominicana) e Virginia Gildersleeve (EUA). Todavia, somente Lutz e Bernardino defenderam abertamente os direitos das mulheres. “As delegadas latino-americanas eram as mais progressistas, suas posições foram determinantes para estabelecer o primeiro acordo internacional a declarar os direitos das mulheres como parte dos direitos humanos fundamentais”, observaram as pesquisadoras responsáveis pelo estudo.

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Bertha Lutz representando o Brasil na Conferência de São Francisco, 1945. Fonte: Nações Unidas.

As principais contribuições de Bertha e outras diplomatas latino-americanas para o documento estão contidas nos seguintes pontos:

  • o preâmbulo da Carta, que cita a igualdade de direito de homens e mulheres – Lutz fez questão de incluir a palavra “mulher” no texto, mesmo com colegas defendendo, na ocasião, que o trecho “direitos humanos para os homens” seria suficientemente inclusivo;
  • o Artigo 1, que prevê como função da ONU “promover e estimular o respeito aos direitos humanos e às liberdades fundamentais para todos, sem distinção de raça, sexo, língua ou religião” – esse último princípio é reiterado quatro vezes em diferentes trechos da Carta;
  • o Artigo 8, segundo o qual “as Nações Unidas não farão restrições quanto à elegibilidade de homens e mulheres destinados a participar em qualquer caráter e em condições de igualdade em seus órgãos principais e subsidiários”.

Ao término da Conferência, a diplomata brasileira elaborou um relatório oficial sobre a participação feminina no evento, registrando as observações que fizera durante as reuniões e as conclusões a respeito das posições dos delegados e das expectativas brasileiras sobre os próximos passos para a efetivação da igualdade entre homens e mulheres no âmbito geral da ONU.

Em novembro de 2016, a ONU Brasil publicou um vídeo sintetizando a fundamental participação de Bertha na Conferência de São Francisco:

 

Após sua destacada atuação na conferência originária da ONU, Lutz ganhou ainda mais reconhecimento nacional e mundial. Em 1946, recebeu um prêmio de viagem aos Estados Unidos e lá colaborou com o Clube Soroptimista, sendo considerada a Mulher do Ano. Foi também premiada com o título de Mulher das Américas em 1951 e, no ano seguinte, representou o Brasil na Comissão de Estatutos da Mulher das Nações Unidas, criada por sua iniciativa. Em 1953, foi eleita delegada do Brasil junto à Comissão Interamericana de Mulheres da União Panamericana de Repúblicas (atual Organização dos Estados Americanos). Seu último ato em prol da melhoria da condição feminina foi em 1975, quando a ONU estabeleceu esse ano como o Ano Internacional da Mulher – resultado das pressões do movimento feminista internacional. Mesmo doente, ela aceitou o convite do governo brasileiro para integrar a delegação do país no primeiro Congresso Internacional da Mulher, realizado na capital do México.

Bertha também foi reconhecida internacionalmente por sua contribuição na pesquisa zoológica, especificamente de espécies anfíbias brasileiras. Dentre os seus escritos estão os Estudos sobre a biologia floral da Mangífera Índica L., Wildlife in Brazil, A nacionalidade da mulher casada, Homenagem das senhoras brasileiras à ilustre presidente da União Interamericana de Mulheres e Estatuto da Mulher. Foi aposentada compulsoriamente em 1964, após 46 anos de trabalho como docente e pesquisadora do Museu Nacional, e conquistou o título de professora emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro em 1965.

Em 16 setembro de 1976, a cientista e diplomata brasileira faleceu no Rio de Janeiro, aos 82 anos.

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Seu arquivo pessoal, atualmente, está custodiado pela Seção de Memória e Arquivo do Museu Nacional e encontra-se em processo de organização e descrição, pelo Museu e a Casa de Oswaldo Cruz / Fundação Oswaldo Cruz. Existe também o Museu Virtual Bertha Lutz, desenvolvido pela Universidade de Brasília com o apoio do CNPq. O site reúne alguns documentos pessoais de Bertha, imagens do jornal Correio da Manhã e do CPDOC da Fundação Getúlio Vargas, boletins da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, entre outros arquivos.

Em homenagem e reconhecimento ao trabalho diplomático fundamental de Bertha Lutz, a turma 2015-2017 do Curso de Formação do Instituto Rio Branco a escolheu como patronesse na ocasião de sua formatura, em abril deste ano. Durante o discurso de orador, o Terceiro Secretário João Soares Viana Neto proferiu belas palavras em memória da grande ativista brasileira:

“Bertha Lutz soube ocupar espaços e trazer o novo. Filha do século XIX, ajudou a modelar o século XX. Bióloga, fez-se jurista. Quando a mulher casada era relativamente incapaz para os atos da vida civil, foi deputada. Quando os vencedores da Segunda Guerra reuniram-se em São Francisco para desenhar o futuro, fez-se diplomata, representou o Brasil numa conferência na qual 97% dos delegados eram homens e foi a responsável pela inclusão da igualdade de direitos entre homens e mulheres no preâmbulo da Carta da ONU.”

 

FONTES:

SCHUMAHER, Schuma; BRAZIL, Érico Vital. Dicionário Mulheres do Brasil. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2000.

MIRANDA, Guilherme Gantois de. Berta Lutz: cientista e feminista em luta pela emancipação da mulher. Seminário Internacional Fazendo Gênero. Florianópolis, 2006.

www.itamaraty.gov.br/pt-BR/plano-nacional-de-acao-sobre-mulheres-paz-e-seguranca/14884-bertha-lutz

www12.senado.leg.br/noticias/entenda-o-assunto/bertha-lutz

cpdoc.fgv.br/producao/dossies/AEraVargas1/biografias/berta_lutz

Baronesa do Mês: Michelle Gyles-McDonnough

Baronesas e Barões,

Na data de ontem, 25 de julho, foi celebrado o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha. Esse marco foi estabelecido durante o I Encontro de Mulheres Afro-Latino-Americanas e Afro-caribenhas, realizado em Santo Domingo (República Dominicana), em 1992, e reconhecido pela Organização das Nações Unidas (ONU) ainda nesse ano. Na ocasião, também foi instituída a Rede de Mulheres Afro-latino-americanas e Afro-caribenhas. Tais acontecimentos surgiram da necessidade verificada pelas mulheres negras das Américas do Sul e Central de se organizarem à parte e provocarem reflexões críticas no âmbito dos movimentos negro e feminista, visto que ambos se reconheciam como compostos por identidades homogêneas até meados dos anos 1970 e, por isso, não contemplavam suas demandas específicas.

A celebração do Dia da Mulher Afro-Latino-Americana e Afro-Caribenha é extremamente relevante por valorizar suas contribuições políticas, intelectuais, econômicas e socioculturais no processo histórico de seus países e do continente. Também foi graças à articulação das mulheres afro-latinas e caribenhas que os governos da região passaram a constituir acordos e políticas internas e internacionais que vêm permitindo avanços na participação das mulheres negras em espaços como a universidade pública, o mercado formal de trabalho, os veículos mídia e a política partidária.

No Brasil, o dia 25 de julho é duplamente importante: além da data internacional, também é celebrado por aqui o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra. Essa data foi instituída por meio da Lei nº 12.987/2014, sancionada pela Presidenta Dilma Rousseff, e contribuiu para dar maior visibilidade a esse movimento de mulheres. Tereza de Benguela foi uma líder quilombola e viveu durante o século XVIII no Mato Grosso. Com a morte de seu companheiro, ela se tornou a rainha do quilombo Quariterê, e, sob sua liderança, a comunidade negra e indígena resistiu à escravidão por duas décadas, sobrevivendo até 1770, quando o quilombo foi destruído e a população – cerca de 79 negros e 30 indígenas –, morta ou aprisionada.

Como forma de celebrar e reforçar a profunda importância nacional e internacional desta data, nossa homenagem do mês de julho vai para uma baronesa das Relações Internacionais que representa muito bem as mulheres negras da América Latina e do Caribe em nível mundial. Conheçam mais sobre a trajetória de Michelle Gyles-McDonnough, a jamaicana que está fazendo história na ONU!

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Michelle Gyles-McDonnough nasceu e cresceu na cidade de Kingston, capital da Jamaica. Durante sua juventude, havia a visão de que a advocacia era uma profissão de sucesso entre os jamaicanos, tanto na região do Caribe como na esfera internacional, e, em certa medida, essa ideia influenciou sua formação acadêmica e sua carreira. Formou-se Bacharel em Economia, com ênfase em Francês, pela Bryn Mawr College (EUA), em 1989, e concluiu o Doutorado em Direito, com honras em Direito Internacional e Estrangeiro, na Columbia Law School em 1992. Em seguida, ela começou a trabalhar como assistente jurídica no Harare Legal Projects Center, no Zimbábue.

No período de 1996 a 1999, Michelle trabalhou como Conselheira do secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA) em Washington DC. Ela foi consultora jurídica e representante suplente da Embaixada da Jamaica e Missão Permanente da Jamaica junto à OEA e atuou como advogada especializada em comércio internacional no escritório de advocacia Winthrop Stimson Putnam & Roberts em Nova York. Posteriormente, exerceu o cargo de chefe da Unidade de Recursos Sub-regionais do Caribe do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD-SURF), em Trinidad e Tobago, até 2004. Nesse mesmo ano, a jamaicana obteve a titulação de Mestre em Administração Pública pela Harvard University (EUA) e foi assistente de ensino nessa instituição, auxiliando no desenvolvimento de cursos de mestrado em governança global e gerenciamento de desenvolvimento em um mundo em transformação.

De volta ao âmbito do PNUD, Gyles-McDonnough atuou como coordenadora do Programa de Recuperação de Granada (2004-2005) – após os furacões que devastaram o país caribenho em 2004 –, conselheira regional na Jamaica por seis meses, em 2005, e assessora de programas do Grupo de Apoio de Operações no Escritório Executivo (2006-2008).

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Michelle no Fórum de Direitos Humanos realizado na Malásia em 2014

Logo depois, Michelle assumiu o posto de Coordenadora Residente da ONU e Representante Residente do PNUD para Barbados e Organização dos Estados do Caribe Oriental (OECS), funções exercidas até 2013. Durante seu mandato, ela aumentou significativamente a visibilidade dos desafios de desenvolvimento enfrentados pelos pequenos Estados insulares em desenvolvimento e mobilizou outros parceiros de desenvolvimento a trabalhar com a ONU para apoiar os estados membros de Barbados e da OECS, abordando diversos problemas. Esses incluíram impactos das mudanças climáticas; transição para um futuro com energias sustentáveis; fortalecimento das capacidades para avaliar e gerenciar riscos e impactos de desastres e melhoria da segurança dos cidadãos, bem-estar e oportunidades de vida.

Em julho de 2013, a advogada caribenha passou a ocupar três novas relevantes posições nas Nações Unidas: Coordenadora Residente para a Malásia, Representante Residente do PNUD para a Malásia, Cingapura e Brunei Darussalam e Representante do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) para a Malásia. Atualmente, ela também atua como vice-diretora adjunta e diretora regional adjunta para a Ásia e o Pacífico.

Na abertura do evento Lean In Summit Malaysia 2015, Michelle compartilhou suas ideias sobre o fosso de desigualdade de gênero e o trabalho que as Nações Unidas estão fazendo para promover os direitos das mulheres. Confiram o vídeo a seguir:

 

Para completar essa admirável trajetória internacional, em outubro de 2016, Michelle Gyles-McDonnough foi nomeada pelo atual Secretário-Geral da ONU, António Guterres, para a função de conselheira principal na equipe de transição que lhe prestou auxílio para assumir a liderança da organização neste ano. A partir disso, ela se tornou a jamaicana com o cargo mais elevado no sistema das Nações Unidas. Que essa seja a primeira de muitas conquistas pioneiras dessa baronesa brilhante e que sua história possa inspirar outras mulheres e meninas caribenhas e latino-americanas a trilharem seus caminhos de sucesso em seus países e também fora deles! 😀

 

Fontes:
www.cultura.gov.br/o-dia-a-dia-da-cultura/-/asset_publisher/waaE236Oves2/content/dia-internacional-da-mulher-negra-latino-americana-e-caribenha/10883
www.uefs.br/modules/noticias/article.php?storyid=1160
www.jamaicaobserver.com/news/Michelle-Gyles-McDonnough-becomes-highest-serving-Jamaican-in-UN-system

O papel da ONU Mulheres e a liderança de Michelle Bachelet

Minhas caras e meus caros,

Aproveitando a série de artigos sobre o Dia Internacional da Mulher, hoje vamos falar de um assunto muito sério e importante em todo o globo. Diversas mulheres em todos os cantos do mundo sofrem diariamente com discriminação e violência nas diferentes esferas de suas vidas e, geralmente, são sub-representadas nos processos decisórios de questões sociais, políticas e econômicas. Em sociedades com culturas mais tradicionais e conservadoras, meninas são impedidas de terem acesso à educação básica e ao atendimento de saúde necessário. Na maioria dos países, as mulheres ainda possuem dificuldades para se alocar no mercado de trabalho e enfrentam grandes disparidades salariais em relação aos homens que desempenham os mesmos cargos que os seus. Todos esses pontos nos ajudam a enxergar o quanto as desigualdades entre homens e mulheres permanecem profundamente enraizadas nas mais diversas sociedades e como é necessária e urgente a luta pela igualdade de gênero.

No âmbito internacional, a Organização das Nações Unidades (ONU) buscou realizar, durante décadas, algumas ações e medidas para a diminuição das desigualdades de gênero no mundo, dentre as quais se destacam a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres (CEDAW) de 1979 e a Declaração e Plataforma de Ação de Pequim, fruto da Quarta Conferência Mundial sobre as Mulheres em 1995. No entanto, a organização sempre enfrentava sérias dificuldades, como financiamento insuficiente e ausência de uma unidade de representação para organizar as atividades desse tema, para dar prosseguimento aos projetos voltados para a promoção da igualdade entre homens e mulheres.

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Com o intuito de superar esses desafios, em julho de 2010, a Assembleia Geral da ONU fundou a Entidade das Nações Unidas para a Igualdade de Gênero e o Empoderamento das Mulheres, também conhecida como ONU Mulheres. Baseada no princípio de igualdade consagrado na Carta da Nações Unidas, a instituição trabalha fundamentalmente para eliminar a discriminação contra as mulheres e meninas, empoderar as mulheres e promover a igualdade entre mulheres e homens como parceiros e beneficiários do desenvolvimento, direitos humanos, ação humanitária e paz e segurança. A iniciativa é oriunda da agenda de reforma das Nações Unidas e reúne as atividades da Divisão para o Avanço das Mulheres (DAW), do Instituto Internacional de Pesquisas e Capacitação para o Progresso da Mulher (INSTRAW), do Escritório de Assessoria Especial para Questões de Gênero e Promoção da Mulher (OSAGI) e do Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (UNIFEM) – núcleos distintos do Sistema ONU responsáveis pelos trabalhos sobre igualdade de gênero e empoderamento das mulheres anteriormente.

A ONU Mulheres se propõe a atuar para proporcionar voz a mulheres e meninas em nível global, regional e local. Dentre suas principais funções estão o apoio aos organismos intergovernamentais, como a Comissão sobre o Status da Mulher, na formulação de políticas, padrões e normas globais; o auxílio aos Estados-membros a implementar estas normas, com apoio técnico e financeiro adequado para os países que o solicitem e formação de parcerias eficazes com a sociedade civil; e a ajuda ao Sistema ONU na responsabilidade pelos seus próprios compromissos sobre igualdade de gênero, incluindo o acompanhamento regular do progresso do Sistema.

Na ocasião de sua fundação, a instituição contou com a chefia da estadista chilena Michelle Bachelet Jeria, que ocupou o cargo de primeira Sub-Secretária-Geral e Diretora-Executiva da ONU Mulheres.

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Formada em Medicina pela Universidade do Chile, Bachelet começou a participar de atividades políticas ainda jovem, tornando-se membro da Juventude Socialista logo no primeiro ano da faculdade e, posteriormente, foi apoiadora ativa da Unidade Popular – aliança política chilena, que apoiou a candidatura de Salvador Allende para a eleição presidencial de 1970. No período de 1975 a 1979, ela viveu em exílio na Austrália e na Alemanha em decorrência do golpe de Estado e início da ditadura Pinochet no Chile (1973-1990).

Ao retornar ao seu país, Bachelet recebeu uma bolsa da Associação Chilena de Medicina para se especializar em Pediatria e Saúde Pública no Hospital Roberto del Río e, durante a década de 1980, ocupou diversos cargos sociais em instituições como a ONG Pidee, que se dedica a prestar ajuda profissional às crianças detidas e vitimadas pelo regime militar de Santiago e Chillán. A partir de 1990, paralelamente ao retorno da democracia no Chile, ela trabalhou no Western Metropolitan Area Health Service, sendo também incorporada à Comissão Nacional Contra a Aids (Conasida). Posteriormente, tornou-se consultora da Organização Pan-Americana da Saúde (OPS) e trabalhou no Ministério da Saúde chileno em temas relacionados à melhoria da atenção primária e à gestão dos serviços. Em 1996, interessada na reaproximação das esferas civil e militar, ela se especializou em temas relacionados à Defesa Nacional, realizando cursos sobre estratégia militar e defesa continental. Mais tarde, tornou-se conselheira do Ministério da Defesa.

Em março de 2000, Michelle Bachelet tornou-se Ministra da Saúde do governo de Ricardo Lagos Escobar, onde liderou um importante processo de redução do tempo de espera dos atendimentos primários e lançou as bases para iniciar uma reforma do sistema de saúde chileno. Em um processo amplo e participativo que incluiu fóruns de cidadãos e mesas redondas, usuários, empresários, especialistas, acadêmicos, associações profissionais e sindicatos de saúde concordaram e apresentaram a primeira proposta legal para a Reforma dos Direitos e Responsabilidades dos Trabalhadores de Saúde.

110306_balcones_3Dois anos depois, Bachelet ocupou o cargo de Ministra da Defesa, sendo a primeira mulher a ocupar esta posição no Chile e na América Latina. Sob a sua direção, foram introduzidas importantes alterações no Serviço Militar Obrigatório, reforçou-se o papel do Ministério e do Estado-Maior, melhoraram-se as condições das forças policiais e mais forças de peacekeeping chilenas foram alocadas pelo mundo. Uma das ações de maior destaque foi também a introdução de políticas de gênero destinadas a melhorar a situação das mulheres nas forças armadas e policiais chilenas.

Após conquistar um amplo apoio nas eleições chilenas de 2005, a estadista tornou-se a primeira mulher Presidente da República no Chile, marcando o início de um período em que o governo se concentrou em alcançar mais igualdade e inclusão social. Defensora dos direitos das mulheres há muitos anos, Bachelet sempre advogou a igualdade de gênero e o empoderamento das mulheres ao longo de sua carreira. Um dos maiores sucessos de seu primeiro mandato como presidente (2006 a 2010) foi a decisão de economizar bilhões de dólares em receitas para investir em questões como reforma das pensões, programas de proteção social para as mulheres e crianças e pesquisa e desenvolvimento, apesar da crise financeira vigente no período. Outras iniciativas incluíram triplicar o número de novas creches públicas para famílias de baixa renda e concluir cerca de três mil e quinhentas creches em todo o país.

Em setembro de 2010, o então Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon, nomeou Michelle Bachelet como a primeira diretora da recém-criada ONU Mulheres. Nesta função, ela dedicou integralmente o seu trabalho à promoção do aumento da participação política e do empoderamento econômico das mulheres e à luta para pôr fim à violência contra as mulheres em nível mundial. Na atuação internacional, Michelle também assumiu o cargo de Presidente do Grupo Consultivo do Piso de Proteção Social, iniciativa conjunta da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e da Organização Mundial da Saúde (OMS) que promove políticas sociais que estimulam o crescimento econômico e a coesão social. Sob sua liderança, o Conselho publicou um relatório intitulado “Piso de Proteção Social para uma Globalização Justa e Inclusiva”, que atualmente serve de guia para as Nações Unidas nesta matéria, em 2011.

Chile's former President and UN Women Executive Director Michelle Bachelet attends "The Future Women Want" conference during the Rio+20 United Nations sustainable development summit in Rio de Janeiro June 21, 2012. REUTERS/Paulo Whitaker

No início de 2013, Bachelet optou por retirar-se da direção da ONU Mulheres para retornar ao Chile e disputar, novamente, as eleições presidenciais. Na ocasião, o Secretário-Geral Ban Ki-moon expressou sua “enorme gratidão por seu excelente serviço” como Diretora Executiva da instituição. “Michelle Bachelet foi a pessoa certa no lugar certo na hora certa”, disse Ban em um comunicado. “Sua liderança visionária deu à ONU Mulheres o início dinâmico que precisava. Seu destemor na defesa dos direitos das mulheres levantou o perfil global desta questão fundamental. Sua unidade e compaixão lhe permitiu mobilizar e fazer a diferença para milhões de pessoas em todo o mundo”, completou o Secretário-Geral.

Nas últimas eleições chilenas, Bachelet foi reeleita presidente e tornou-se a primeira pessoa a ocupar o cargo do Executivo em seu país duas vezes, em eleições diretas, desde 1932. A vigência de seu segundo mandato possui previsão de conclusão no final de 2018.

 

Fontes:
ONU Mulheres (unwomen.org)
Governo do Chile (web.archive.org/web/20160609080035/http://www.gob.cl/presidenta-2/)