Sabatina do Barão | Língua Portuguesa – Gabarito comentado #1

Mancebos e moçoilas,

Aqui está o gabarito comentado da nossa primeira sabatina de Língua Portuguesa!

No vídeo abaixo, vocês podem conferir as explicações e comentários da caríssima professora Isabel Vega sobre a questão de interpretação referente ao texto “Cabeludinho”, de Manoel de Barros. Assistam e tomem nota!

 

QUESTÃO:

Texto: Cabeludinho

 

Quando a Vó me recebeu nas férias, ela me apresentou aos amigos: Este é meu neto. Ele foi estudar no Rio e voltou de ateu. Ela disse que eu voltei de ateu. Aquela preposição deslocada me fantasiava de ateu. Como quem dissesse no Carnaval: aquele menino está fantasiado de palhaço. Minha avó entendia de regências verbais. Ela falava de sério. Mas todo-mundo riu. Porque aquela preposição deslocada podia fazer de uma informação um chiste. E fez. E mais: eu acho que buscar a beleza nas palavras é uma solenidade de amor. E pode ser instrumento de rir. De outra feita, no meio da pelada um menino gritou: Disilimina esse, Cabeludinho. Eu não disiliminei ninguém. Mas aquele verbo novo trouxe um perfume de poesia à nossa quadra. Aprendi nessas férias a brincar de palavras mais do que trabalhar com elas. Comecei a não gostar de palavra engavetada. Aquela que não pode mudar de lugar. Aprendi a gostar mais das palavras pelo que elas entoam do que pelo que elas informam. Por depois ouvi um vaqueiro a cantar com saudade: Ai morena, não me escreve / que eu não sei a ler. Aquele a preposto ao verbo ler, ao meu ouvir, ampliava a solidão do vaqueiro.

 

Manoel de Barros. Memórias inventadas: a infância. São Paulo: Planeta, 2003.

 

Considerando o sentido do texto e sua estrutura, julgue (certo ou errado) os itens a seguir.

 

I. Pode-se afirmar que as palavras “Vó” e “Cabeludinho” foram escritas com letras maiúsculas porque exercem, no texto, função de vocativo.

II. A narrativa de memórias foi o gênero textual escolhido pelo autor para abordar o conteúdo gramatical referente ao emprego e ao sentido das preposições.

III. Ao empregar a preposição “de” na frase “Ele foi estudar no Rio e voltou de ateu.”, a avó deixa evidente aos amigos que desautoriza a opção do neto pelo ateísmo.

IV. O autor constrói dois grupos de sentido opostos relativos ao modo como lida com as palavras: um da subjetividade, composto pelo termo “perfume de poesia” e pelos verbos brincar e entoar; outro da objetividade, composto pelo termo “palavra engavetada” e pelos verbos trabalhar e informar.

 

Comentários da professora Isabel:

 

 

GABARITO: ECCC

 

Continuem treinando com orientações da professora, no modelo da prova objetiva de Língua Portuguesa no CACD! 

 

Colaboração especial neste post:

Por onde começar? – Língua Portuguesa no CACD

Queridos pupilos e queridas pupilas,

Acredito que a primeira dúvida que ocorra àqueles (as) que optam por uma carreira pública e se lançam à preparação para o respectivo processo seletivo seja: por onde começar (ou recomeçar) os estudos? Digo isso porque ao dar uma olhadela nos editais dos concursos já podemos perceber a extensão e a certa complexidade dos conteúdos programáticos requeridos. Geralmente, cada matéria é composta por diversos temas, subtemas, dados, estatísticas… isso sem falar dos livros, artigos, textos que precisam ser lidos e fichados para que o (a) candidato (a) obtenha a base teórica necessária sobre os assuntos cobrados nas provas.

Pensando nessa dificuldade comum aos concursandos, convoquei novamente os excelentes professores que nos acompanham para reeditarmos a série “Por onde começar?”, destinada não apenas aos pupilos e pupilas que estão dando os primeiros passos na preparação, mas também aos que já estão há algum tempo na caminhada rumo a carreira internacional dos sonhos! Afinal, orientações e dicas de quem entende do assunto nunca é demais, não é mesmo? 😉

Em cada vídeo, teremos um (a) professor (a) explicando o caminho das pedras e a melhor forma de organizar os estudos para o Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD). Para estrearmos com o pé direito, nesta primeira edição, nossa queridíssima mestra Isabel Vega veio falar sobre o melhor caminho a se tomar nos estudos de Língua Portuguesa.

O conteúdo programático de Português é um dos mais sucintos do edital do concurso e, talvez por isso, um tanto quanto amplo e genérico em relação aos tópicos de estudo. Os temas se dividem em apenas duas partes, com alguns assuntos especificados em cada uma delas: 1) Língua Portuguesa (modalidade culta usada contemporaneamente no Brasil) e 2) leitura e produção de textos. Vocês podem baixar o programa esquematizado da disciplina neste link: Língua Portuguesa PDF

Tradicionalmente, a Língua Portuguesa apresenta um peso considerável no certame como um todo. Em termos estruturais, o exame objetivo da Primeira Fase é composto por dez questões de interpretação de textos, combinando gramática e literatura. Já a prova discursiva da Segunda Fase consiste em uma redação de 65 a 70 linhas e duas questões de interpretação de 15 a 20 linhas (cada). Assim sendo, é necessário que os candidatos estabeleçam um plano de estudos que seja capaz de atender às necessidades específicas de ambos momentos do processo seletivo.

Assistam ao vídeo abaixo, e aproveitem ao máximo todas as coordenadas, meus caros!

 

Participação especial neste post:

5 clássicos da Literatura Brasileira abordados no CACD

Estimadas e estimados ceacedistas,

Além de marcar o Dia dos Trabalhadores, o 1º de maio é a data em que comemoramos o Dia da Literatura Brasileira! As explicações sobre a escolha da data remetem ao nascimento de José de Alencar (1829-1877), considerado “o patriarca da literatura brasileira”, como registra a Academia Brasileira de Letras (ABL). A celebração, portanto, é uma homenagem aos escritores do país e as suas riquíssimas obras, que contribuíram para a demarcação de cada período social e intelectual da história do Brasil, seja na forma de ficção ou de registro da realidade.

Devido a sua grande importância cultural e histórica, a Literatura Brasileira é um dos principais conteúdos de Língua Portuguesa requeridos no Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD). As questões das provas objetiva (Primeira Fase) e discursiva (Segunda Fase), geralmente, são baseadas em trechos de grandes obras literárias ficcionais ou não-ficcionais. Sendo assim, estar familiarizado com esses escritos é meio caminho andado para um bom desempenho nos exames.

Convidamos, então, a caríssima professora de Português Isabel Vega, que conhece a fundo os exames do CACD, para explicar quais são os grandes clássicos da Literatura Brasileira abordados com frequência no concurso. A mestre explica que o certame costuma trabalhar mais com autores do que com livros. Contudo, pensando em Literatura de modo amplo e não apenas artístico, há alguns livros, em especial, que possuem maior relevância nas provas. São eles:

  • Raízes do Brasil, do Sérgio Buarque de Holanda;
  • Casa-grande e senzala, do Gilberto Freire;
  • O Povo brasileiro, do Darcy Ribeiro;
  • Vidas Secas e São Bernardo, do Graciliano Ramos.

Vejam, a seguir, os comentários e orientações da professora sobre cada uma dessas obras fundamentais, meus caros!

 

Participação especial neste post:

Redação Português: como estudar em 50 dias? | CACD 2018

Como estudar em menos de dois meses para a prova de redação em Português?

Nós, professores do CACD, temos uma missão ao mesmo tempo estimulante e inglória: equilibrar-nos entre a gigante quantidade de conteúdos cobrados nesse concurso e a necessidade de síntese que caracteriza qualquer preparação para provas, pragmática por natureza. Estimulante porque dificílima; inglória porque, como amantes das nossas respectivas disciplinas, a tentação constante é sempre a de sermos detalhistas ao invés de sintéticos e pragmáticos.

Começo este texto assim porque sempre considerei que meu trabalho principal é ser um economizador de tempo para você, candidata ou candidato. Preciso ser o cara que se nutre das fontes primárias para que você não tenha que fazer isso; que seleciona, sintetiza e didatiza os conteúdos e as técnicas; e, principalmente, que foge da tentação de gastar o tempo dos alunos com temas e abordagens que, por mais interessantes que sejam, não trarão benefícios claros, pragmáticos e concretos.

A palavra-chave, aqui, é “tempo”. Com menos de dois meses de tempo e mais de dez disciplinas diferentes para estudar – cada qual com suas complexidades, especificidades e requerimentos –, o seu tempo é uma commodity escassa.

Nesse sentido, urge procurar o equilíbrio entre o pragmatismo e o aprofundamento. Eu, professor, preciso apresentar não a preparação perfeita da minha disciplina, mas a preparação perfeita que crie reservas de tempo para estudar para as demais disciplinas. A oração restritiva, aqui, é o fulcro do problema: de nada adianta gastar tempo excessivo em uma disciplina quando isso significa deixar de preparar-se para as outras.

O que isso significa para o concurso deste ano? Em 2018, o tempo entre a primeira fase e as demais está exíguo como nunca: menos de um mês entre primeira e segunda fases, e menos de uma semana entre segunda e terceira. Isso cria novos desafios para você, na medida em que é dificílimo, se não impossível, realizar uma preparação intensiva eficiente para as oito provas escritas do concurso no prazo que lhe foi dado pelo edital.

Por conta disso, volto ao argumento que criei no começo do texto. Sendo um economizador de tempo, sempre recomendei aos meus alunos que, após o lançamento do edital, deixassem de lado a preparação escrita de português e a retomassem apenas depois da primeira fase, exceção feita àqueles candidatos com problemas sérios de escrita. Não porque a prática escrita fosse inútil de um ponto de vista absoluto – afinal, a prática nunca é absolutamente inútil –, mas porque o tempo gasto nas minhas aulas certamente poderia ser melhor utilizado de outra maneira, de um ponto de vista relativo. Afinal, dado que a primeira fase é o grande funil do concurso, depois do lançamento do edital é melhor gastar o máximo de tempo possível estudando para ela e depois se preocupar com as demais provas.

Essa lógica infelizmente não se aplica ao CACD 2018.

Pensemos juntos: a primeira fase é em 26 de agosto, e o gabarito sairá dois dias depois, dia 28. É seguro presumir que quase nenhuma alma sã conseguirá estudar eficientemente nessa semana, com a tensão criada pelo gabarito, pelas conjecturas de recursos e pelas análises de possíveis notas de corte. Talvez realizar um simulado de segunda fase no final dessa semana seja factível, mas não dá para contar com muito mais do que isso.

Já estamos, portanto, na semana de 3 a 7 de setembro, a 20 dias da prova escrita de Português. Soma-se a isso o fato de que o CACD 2018 é também um exercício físico, de escrever dezenas de páginas em período curtíssimo de tempo; portanto, não dá para demandar dos candidatos uma produção pesada de textos na semana antes da prova. De quê adianta fazer um ou dois simulados completos poucos dias antes da segunda fase, se você chegar estafado no dia da primeira prova dessa maratona?

Percebam que nossa quantidade de tempo está cada vez menor. Quem não estiver começado a preparação intensiva para a segunda fase desde antes da primeira terá em mãos um problema sério e de difícil solução: ou se prepara de maneira superficial, fazendo poucos simulados e aulas, de modo a deixar tempo disponível para a preparação das demais provas; ou faz muitas aulas de redação em um período curto de tempo, limitando os estudos para as outras disciplinas.

Para evitar esse problema, recomendo o seguinte:

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Comece a preparação intensiva para a segunda fase – e também para a terceira – o quanto antes. Em anos anteriores, era possível recomendar uma preparação intensiva segmentada – focar apenas na primeira fase e, apenas depois dela, estudar para a segunda e a terceira. Em 2018, isso não é possível.

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De nada adianta uma preparação perfeita para a primeira fase se as demais forem negligenciadas. A primeira fase é o grande funil, mas a nota final é dada pela soma de segunda e terceira fases.

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Trabalhe com contenção de danos. Lembre-se de que a nota de corte de aprovação no concurso gira em torno de 65% a 70% do total de pontos disponíveis, e que, com uma nota de cerca de 75%, você estaria entre os cinco primeiros colocados. Dê-se o direito de errar durante os preparatórios, mas não se esqueça de que você pode perder quase 3 de cada 10 pontos e, ainda assim, lograr a aprovação.

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Confie na sua preparação pregressa. Em um concurso complexo como o CACD, vai ser constante a sensação de que os conteúdos são infinitos e de que a preparação foi insuficiente. Deixe essa sensação de lado o máximo que puder: agora é hora de consolidar o conhecimento adquirido, aprender a utilizá-lo de forma eficiente e fechar apenas uma ou outra lacuna pontual.

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Espero ter ajudado. Como sempre, qualquer dúvida, angústia ou desespero, procurem-me.

Um abraço, bons estudos e força nessa maratona!


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Vejam também a série de vídeos com orientações especiais para a realização da prova! 👇

1. Cinco dicas de ouro:

https://www.youtube.com/watch?v=XlAe_npUvg4

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2. Erros comuns dos candidatos:

https://www.youtube.com/watch?v=yAr6BWfvN68

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3. A cultura de interesse da banca:

https://www.youtube.com/watch?v=W6Ha0bsOZCA


 

Texto do professor:

O Mundo em 3 Minutos #15: A grafia de gêneros na Língua Portuguesa

Meus caros e minhas caras,

Como bem sabemos, somos regidos todos os dias por convenções sociais – questões que foram resolvidas, seja tacitamente ou seja por decreto, para organizar e regular as relações entre os indivíduos e, de certa forma, harmonizar as práticas em uma sociedade. Por meio dessas regras, convencionaram-se, por exemplo, as cores do sinal de trânsito; os elementos contidos nos documentos de viagem; as regras para postagem de correspondências, dentre outros.

Como não poderia deixar de ser, a linguagem enquadra-se no contexto das convenções sociais – certamente nas vertentes tácita e legal, como nos demonstram as variações da Língua Portuguesa nas modalidades escrita e oral, e na existência de Acordos Ortográficos.  A minha própria variação linguística, o baronês, – vejam só, caríssimos – um dia já foi identificada como o Português corrente, e nele há palavras que, embora ainda componham o idioma, não mais são consideradas comuns. Esse é um dos elementos nos leva a corroborar que a Língua é viva, e está em constante transformação!

Há questões um pouco mais específicas no contexto da Língua. Como exemplo, podemos considerar que, conhecemos tradicionalmente o “a” e o “o” como desinências de gênero, por meio das quais há a marcação de feminino ou masculino. Para muitos, essa é a estrutura natural da língua, contudo, não se passa de mais uma convenção. E quando as discussões relativas a desinências de gênero esbarram em temas mais complexos, como aqueles relativos a identidades?

No contexto dessas ideias, convidamos a caríssima mestre, ou melhor!, mestra, Isabel Vega, para discutir conosco um dos elementos mais hodiernos no que se refere à Língua Portuguesa: a grafia de gênero!

https://youtu.be/X2LdvX0l-dk

 

Participação especial neste post:

O que esperar do concurso ABIN? – Língua Portuguesa

Barões e Baronesas,

No certame para o cargo de Oficial de Inteligência da ABIN, a disciplina de Língua Portuguesa é a única que aparece nos dois tipos de provas aplicadas na Primeira Fase – objetiva e discursiva (redação). Portanto, meus caros, este bigodudo que vos fala recomenda fortemente uma atenção especial nesta matéria durante a preparação para o próximo concurso! Vejamos, a seguir, como isso pode ser feito.

O formato e a configuração das questões são os primeiros aspectos com os quais os candidatos precisaram estar familiarizados. No último processo seletivo, realizado em 2008, a matéria integrou a parte de “Conhecimentos Gerais” da prova objetiva e possuiu vinte e cinco itens para julgamento como “certo” ou “errado”. Já em termos de conteúdo, o edital requereu conhecimento sobre os seguintes tópicos:

1 Compreensão e interpretação de textos.

2 Tipologia textual.

3 Ortografia oficial.

4 Acentuação gráfica.

5 Emprego das classes de palavras.

6 Emprego do sinal indicativo de crase.

7 Sintaxe da oração e do período.

8 Pontuação.

9 Concordância nominal e verbal.

10 Regência nominal e verbal.

11 Significação das palavras.

O exame discursivo, por sua vez, consistiu de uma redação argumentativa-dissertativa, com extensão máxima de trinta linhas e valor de dez pontos. Essa prova teve o objetivo de avaliar os postulantes no que se refere ao conhecimento do tema, à capacidade de expressão na modalidade escrita e ao uso das normas do registro formal culto da Língua Portuguesa.

Para deixá-los ainda mais afinados com as demandas desse concurso, dois excelentes mestres da Língua Portuguesa trouxeram orientações e dicas de estudos valiosas para cada prova da disciplina. Vejam, abaixo, o vídeo da querida professora Isabel Vega falando sobre as características gerais das questões e os temas que costumam ser mais cobrados pelos examinadores no exame objetivo. Em seguida, confiram o bate-papo supimpa que tive com o professor Ádamo Escobar a respeito da prova de Redação e as principais dúvidas que os candidatos possuem sobre ela!

 

Dicas para a prova objetiva – Prof. Isabel Vega:

https://www.youtube.com/watch?v=dozNIHTm77M&feature=youtu.be

 

Entrevista sobre a prova de Redação (ABIN) – Prof. Ádamo Escobar:

 

O Barão – A prova de redação da ABIN é diferente das redações de outros concursos? Quais seriam as principais particularidades do exame?

Ádamo Escobar – Inicialmente, precisamos considerar cumprindo-se nossa expectativa, o CESPE/CEBRASPE será a banca organizadora, e o status de prova diferenciada será mantido. Além do óbvio domínio da nossa língua, é preciso dar atenção especial à Dissertação e suas especificidades: mais do que bom conhecimento gramatical, o candidato deve redigir um texto claro, objetivo, coerente e diferenciado, valorizando o assunto proposto e demonstrando desenvoltura no uso das atualidades que envolvem o tema.

Um olhar superficial talvez não demonstre nada tão desafiador – pois outras provas também cobram os mesmos conteúdos. Contudo, se lembrarmos que no último concurso para a ABIN (2008) mais de 30% dos candidatos foram eliminados por não alcançarem a nota mínima em redação – 60% da nota -, perceberemos que um olhar mais profundo se faz necessário para atingirmos o objetivo: excelência em redação.

 

O Barão – De que forma o conteúdo de Língua Portuguesa é cobrado na redação? O que a banca espera do candidato nesta prova?

A. E. – O pleno domínio da língua fica claro já no edital: grafia/acentuação, morfossintaxe e propriedade vocabular aparecem com destaque. É preciso ter em mente, no entanto, que a redação não é um desfile de competências gramaticais isoladas. Os conhecimentos linguísticos precisam estar a serviço da redação, da coerência, do bom texto. Assim, a banca espera que o domínio pleno não resulte em texto difícil, jurídico, complicado, mas sim um texto claro, de leitura fácil.

 

O Barão – Quais assuntos você considera mais passíveis de serem escolhidos como tema da próxima prova? Por quê?

A. E. – Questões que consigam cobrar conteúdos atuais e temas de interesse da ABIN têm a nossa aposta: terrorismo, refugiados, energia, espionagem em tempos de alta tecnologia, espionagem econômica e industrial, segurança e defesa do Estado e meio ambiente. É bom levar em conta o último tema cobrado (Segredo de Estado e Cidadania) e os aspectos obrigatórios que toda prova CESPE vem cobrando. Eles demonstram que a banca tem um conceito bem amplo de “atualidades”.

 

O Barão – Qual é a melhor maneira de estudar e se preparar para uma prova de redação como essa?

A. E. – Assistir a todas as aulas do curso e fazer as atividades é o básico. Cada atividade corrigida deve ser revista, numa espécie de PDCA, a fim de se evitar a repetição de erros. O bom aluno de redação comete novos erros, ousa mais a cada texto, tentando aplicar as novas técnicas aprendidas ao longo do curso. Outra ação obrigatória é a leitura e estudo do edital. Friso a palavra “estudo”. Não basta ler apenas, para “cumprir tabela”. Leia, interprete, tenha total consciência de como a prova é estruturada, o que são os aspectos obrigatórios, como eles devem aparecer dentro do texto, etc. Ademais, leitura intensiva sobre atualidades é importante para que nenhum tema seja surpresa para o candidato, além de contribuir para uma argumentação realmente diferenciada.

 

O Barão – Com base na sua experiência como professor dessa disciplina, quais são os erros mais comuns cometidos pelos candidatos na redação? O que eles podem fazer para evitá-los?

A. E. – Certamente, o mais temido dos erros é a “fuga ao tema”. Seja a fuga total ou o tangenciamento, o candidato não pode se permitir cometer tal falha. Todo o esforço despendido posteriormente será em vão se seu texto não cumpre o tema proposto.

Outras falhas – menores, mas também prejudiciais – são a ausência de pontos de vista claro e, consequentemente, a expositividade em textos argumentativos. A melhor dica para evitar a maior parte desses erros é: faça o planejamento textual completo.

Outras dicas úteis são: ler e reler o edital para identificar previamente o tipo textual que será cobrado, interpretar o tema com calma, fazer bom uso das atualidades e dos exemplos, cuidar da apresentação do texto e de sua legibilidade e, por último e bem importante, cuidar da coesão. Períodos longos prejudicam muito a correção.

 

O Barão – Por fim, qual é o segredo para uma redação nota dez na ABIN?

A. E. – Aprender a fazer uma redação diferenciada aos olhos do corretor. Aprender como é feita a correção da redação. Resumindo, aprender a pensar como o corretor. Que tipo de texto ele gosta? Se ele deseja uma leitura fluida, rápida e objetiva, que erros devo evitar para que não surjam barreiras? Nosso curso ensina a reconhecer essas armadilhas e, principalmente, ensina a como ser diferente.

 

Participações especiais neste post:

Isabel Vega – Mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Leciona a disciplina de Língua Portuguesa no Colégio Pedro II e nos cursos preparatórios de Carreiras Públicas e Internacionais do Damásio Educacional / Clio.

Ádamo Escobar – Possui graduação em Letras – Português/Literatura pelo Centro Universitário da Cidade (2004). Leciona a disciplina de Língua Portuguesa no Colégio e Vestibular de _A_Z e nos cursos preparatórios de Carreiras Internacionais do Damásio Educacional / Clio.

 

 

VEJA TAMBÉM:

O que esperar do concurso ABIN? – Atualidades

O que esperar do concurso ABIN? – Geografia Contemporânea

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#PassandoDeFase no CACD – Língua Portuguesa

Mancebos e moçoilas,

Finalizaremos a série #PassandoDeFase no CACD falando sobre a prova discursiva de Língua Portuguesa na Segunda Fase do concurso, que acontecerá daqui a três dias! Esse é um exame que não costuma sofrer alterações significativas de uma edição para outra. Nos últimos dez anos, o modelo e o conteúdo das questões se mantiveram exatamente os mesmos, com apenas algumas pequenas mudanças em sua formatação, como o tamanho dos exercícios e a extensão da redação por exemplo. No edital 2017, essa regra se manteve e nenhuma novidade se apresentou para essa disciplina.

A recorrência do mesmo modelo de prova por vários anos é um fator que pode ajudar (e muito!) os candidatos no planejamento da preparação e na definição do plano de estudos. Oras, com um formato de exame padronizado fica muito mais fácil prever o que pode aparecer na avaliação vindoura e realizar os necessários treinamentos e revisões do conteúdo requerido pela banca examinadora.

A seguir, confiram as principais informações sobre a estrutura e o conteúdo da prova escrita de Língua Portuguesa.

 

Data e horário da prova:

  • 30 de setembro (sábado)
  • Início: 14h00
  • Término: 19h00

 

Composição da prova:

  • uma redação sobre tema geral, com extensão de 600 a 650 palavras – valor: 60 pontos
  • dois exercícios de interpretação, de análise ou de comentário de textos, com extensão de 120 a 150 palavras – valor: 20 pontos (cada)
  • pontuação total: 100 pontos

 

Conteúdo programático requerido:

ITENS

SUBITENS

1 Língua portuguesa: modalidade culta usada contemporaneamente no Brasil 1.1 Sistema gráfico: ortografia, acentuação e pontuação; legibilidade.  —–
1.2 Morfossintaxe.  —–
1.3 Semântica.  —–
1.4 Vocabulário.  —–
2 Leitura e produção de textos 2.1 Compreensão, interpretação e análise crítica de textos escritos em língua portuguesa.  —–
2.2 Conhecimentos de linguística, literatura e estilística: funções da linguagem; níveis de linguagem; variação linguística; gêneros e estilos textuais; textos literários e não literários; denotação e conotação; figuras de linguagem; estrutura textual.  —–
2.3 Redação de textos dissertativos dotados de fundamentação conceitual e factual, consistência argumentativa, progressão temática e referencial, coerência, objetividade, precisão, clareza, concisão, coesão textual e correção gramatical. 2.3.1 Defeitos de conteúdo: descontextualização, generalização, simplismo, obviedade, paráfrase, cópia, tautologia, contradição.
2.3.2 Vícios de linguagem e estilo: ruptura de registro linguístico, coloquialismo, barbarismo, anacronismo, rebuscamento, redundância e linguagem estereotipada.

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Baixe aqui as tabelas em PDF

 

Mais do que em qualquer outra disciplina, a prática continuada de redações e questões discursivas de interpretação de texto é um elemento imprescindível para os estudos neste momento. Portanto, caríssimos, a realização das provas anteriores e a leitura das melhores respostas compiladas nos Guias de Estudos do Instituto Rio Branco são atividades praticamente obrigatórias para aqueles que desejam ficar 100% afinados com as exigências da Segunda Fase.

A cereja para esse bolo de aprendizado, fica por conta do prezado mestre Fernando Entratice, especializado em Língua Portuguesa para o CACD. No vídeo abaixo, o professor traz orientações e dicas excepcionais para desmistificar o exame de Redação em Português e, assim, ajudá-los a cumprir com louvor mais essa tarefa desafiadora da caminhada rumo ao Itamaraty! 🙂

 

Participação especial neste post:

avatar_entraticeFernando Entratice – Bacharel em Relações Internacionais pela Universidade de São Paulo (USP). Leciona a disciplina de Técnicas de Redação em Português, com ampla experiência na análise de correções da banca Cespe/UnB, nos cursos preparatórios de Carreiras Internacionais do Damásio Educacional / Clio.

 

 

 

VEJA A SÉRIE COMPLETA:

#PassandoDeFase no CACD – História do Brasil

#PassandoDeFase no CACD – Direito Internacional Público

#PassandoDeFase no CACD – Direito Interno

#PassandoDeFase no CACD – Língua Espanhola e Língua Francesa

#PassandoDeFase no CACD – Língua Inglesa

#PassandoDeFase no CACD – Política Internacional

#PassandoDeFase no CACD – Noções de Economia

#PassandoDeFase no CACD – Geografia

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João Guimarães Rosa: meio século de saudade

Minhas caras e meus caros,

Em novembro deste ano, completam-se cinquenta anos da partida de um querido amigo da nossa literatura e diplomacia. João Guimarães Rosa foi uma das personalidades mais influentes do meio intelectual brasileiro no século XX e, consequentemente, um autor cujos textos aparecem com frequência nas provas de diversos processos seletivos, sobretudo no CACD. A fim de prestar-lhe uma singela homenagem e ressaltar a importância do seu trabalho, hoje, vamos conhecer um pouco mais sobre a história deste grande personagem!

Guimarães Rosa nasceu em 27 de junho de 1908 na cidade de Cordisburgo, Minas Gerais, sendo o primeiro dos seis filhos de Florduardo Pinto Rosa e de Francisca Guimarães Rosa. Aos seis anos, já demonstrava facilidade com os idiomas e conseguia realizar leituras em francês. Pouco tempo depois, ele se mudou para Belo Horizonte e continuou sua formação acadêmica no Colégio Arnaldo, escola de origem germânica onde estudaram figuras como Carlos Drummond de Andrade e Messias Pereira Donato. Graduou-se em Medicina pela Universidade de Minas Gerais, em 1930, e tornou-se capitão médico, por concurso, da Força Pública do Estado de Minas Gerais. Porém, exerceu a profissão somente por quatro anos, até decidir prestar o concurso para o Itamaraty em 1934, sendo aprovado em segundo lugar.

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Guimarães Rosa, chefe da Divisão de Fronteiras do Itamaraty

O diplomata

Após a aprovação no certame para a carreira de diplomata, Guimarães Rosa foi nomeado Cônsul de Terceira Classe em julho de 1934 e, no final de 1937, foi promovido a Cônsul de Segunda Classe. Sua remoção para o Consulado do Brasil em Hamburgo ocorreu logo no ano seguinte. Em seu novo posto, ele e sua esposa, Aracy de Carvalho, ofereceram auxílio para que judeus pudessem escapar do regime nazista rumo ao Brasil, de 1938 a 1942, autorizando um número maior de vistos do que aqueles legalmente permitidos durante o Governo de Getúlio Vargas. Devido a esse feito, Aracy foi homenageada no Jardim dos Justos entre as Nações, no Yad Vashem, que é o memorial oficial de Israel para lembrar as vítimas do Holocausto.

Essa histórica atuação do diplomata é retratada no documentário “Outro Sertão”, que revela aspectos do período em que Rosa foi vice-cônsul em Hamburgo, por meio de imagens de arquivo, testemunhos de pessoas que o conheceram e de judeus que ele e sua futura esposa Aracy ajudaram a salvar, além de uma entrevista inédita com o próprio escritor, feita por uma TV alemã, em 1962. O filme foi dirigido por Adriana Jacobsen e Soraia Vilela e recebeu o Prêmio Especial do Júri, no 46º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro em 2013.

Após sua atuação na Alemanha, o diplomata trabalhou em diversos postos até retornar definitivamente ao seu país de origem. Exerceu a função de secretário de embaixada em Bogotá, Colômbia de 1942 a 1944, e foi chefe de gabinete do ministro João Neves da Fontoura em 1946. Seu destino posterior foi Paris, onde ocupou os cargos de primeiro-secretário e conselheiro de embaixada (1948-51); secretário da Delegação do Brasil à Conferência da Paz (1948); representante do Brasil na Sessão Extraordinária da Conferência da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) (1948) e delegado do Brasil à IV Sessão da Conferência Geral da Unesco (1949).

De volta ao Brasil, em 1951, Guimarães Rosa foi nomeado novamente chefe de gabinete do ministro João Neves da Fontoura. Dois anos depois, tornou-se chefe da Divisão de Orçamento e foi promovido a ministro de primeira classe. Em 1962, ele assumiu a chefia do Serviço de Demarcação de Fronteiras.

Uma excelente análise da atuação diplomática do autor mineiro foi feita pela diplomata e pesquisadora Heloísa Vilhena de Araújo no livro “Guimarães Rosa: Diplomata”, com base numa minuciosa pesquisa nos arquivos do Itamaraty e junto a pessoas que conheceram e serviram com o Embaixador. Segundo Heloísa, logo na leitura inicial dos primeiros documentos, salta à vista uma atitude básica diante da vida e do trabalho: a atitude do homem justo, conforme descrita por Platão na República, no Sofista e no Político. A escritora também destaca que Guimarães Rosa foi um profissional de atitudes simples e humanas, além de possuir “um real desligamento no que se refere à posse de bens materiais e vantagens”. O trecho abaixo do livro expressa bem essa qualidade:

“De acordo com depoimento do Ministro Arthur Gouvêa Portella, que serviu com Guimarães Rosa na Divisão de Fronteiras e substituiu-o na Chefia, após sua morte, seu chefe não usava o carro oficial a que tinha direito. Só no último ano de sua vida passou a usá-lo, nas idas e vindas do Itamaraty, por insistência do então Chefe do DA, Embaixador Antônio Francisco Azeredo da Silveira. Fazia suas minutas à máquina; muitas vezes ia pessoalmente entregá-las quando havia urgência, dispensando o contínuo; evitava fazer expedientes para assuntos que podia resolver oralmente sem prejuízo para a documentação do arquivo. Nos momentos de muito trabalho, “esquecia de ir para casa”, nas palavras do Senhor Tenente Raymundo Alberto Faria de Araújo, encarregado do arquivo do Serviço de Demarcação de Fronteiras: na redação da nota nº 92 à Chancelaria paraguaia, por exemplo, Guimarães Rosa e o Senhor Faria de Araújo passaram dois dias e uma noite no Itamaraty.”

Nas palavras de Heloísa Vilhena, Guimarães Rosa não seria Guimarães Rosa se não tivesse sido diplomata: ele é, na verdade, o resultado de várias experiências de vida e não um substrato, já pronto, sobre o qual se desenrolam tais experiências.

Outro material de ouro que nos permite conhecer mais esse grande personagem da diplomacia brasileira é a famosa entrevista que ele concedeu ao crítico alemão Günter Lorenz em 1965. Foi nessa ocasião que o autor fez uma de suas mais conhecidas declarações sobre a profissão cosmopolita:

“… um diplomata é um sonhador e por isso pude exercer bem essa profissão. O diplomata acredita que pode remediar o que os políticos arruinaram. (…) e também por isso mesmo gosto muito de ser diplomata. (…) Mas eu jamais poderia ser político com toda essa constante charlatanice da realidade.”

 

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Guimarães Rosa em seu escritório de trabalho, 1964

O escritor

A atuação literária de João Guimarães Rosa iniciou-se ainda antes da diplomática. Em 1929, ele publicou o conto “O mistério de Highmore Hall” na revista O Cruzeiro. Em 1936, foi publicado seu primeiro livro, chamado “Magma”, que recebeu o Prêmio Academia Brasileira de Letras e demonstrou o talento para a escrita que o tornaria conhecido mundialmente. Sua vocação para a literatura também podia ser observada em seus relatórios de trabalho no Itamaraty: a forma como escrevia e a linguagem utilizada já permitiam perceber a qualidade literária do autor.

A publicação do livro de contos Sagarana, em 1946, concedeu-lhe um privilegiado lugar de destaque no âmbito da literatura brasileira, pela linguagem inovadora, a singular estrutura narrativa e a riqueza de simbologia dos seus contos. Essa obra colocou o regionalismo em pauta novamente, porém com um novo significado e assumindo a característica de experiência estética universal.

Em 1952, Guimarães Rosa fez uma longa excursão a Mato Grosso e escreveu o conto “Com o vaqueiro Mariano”, que, atualmente, integra seu livro póstumo “Estas estórias” (1969), sob o título “Entremeio: Com o vaqueiro Mariano”. A principal importância dessa experiência foi colocar o autor em contato com os cenários, os personagens e as histórias que ele iria recriar mais tarde, em “Grande sertão: Veredas”. É o único romance escrito por Guimarães Rosa e um dos mais importantes textos da literatura brasileira. Publicado em 1956, mesmo ano da publicação do ciclo novelesco “Corpo de baile”, “Grande sertão: Veredas” já foi traduzido para muitas línguas. Sua leitura e interpretação, no entanto, podem constituir um constante desafio para os leitores por tratar-se de uma narrativa onde a experiência de vida e a experiência de texto se mesclam.

A produção de Guimarães Rosa inclui oito obras em vida e três publicações póstumas. São elas:

  • 1936: Magma
  • 1946: Sagarana
  • 1947: Com o Vaqueiro Mariano
  • 1956: Corpo de Baile: Noites do Sertão
  • 1956: Grande Sertão: Veredas
  • 1962: Primeiras Estórias
  • 1964: Campo Geral
  • 1967: Tutaméia – Terceiras Estórias
  • 1969: Estas Estórias (póstumo)
  • 1970: Ave, Palavra (póstumo)
  • 2011: Antes das Primeiras Estórias (póstumo)

A maior parte dos livros têm o sertão como pano de fundo, o que reflete o universo sertanejo e toda sua cultura, explorando em detalhes todo o ambiente nas terras que vão desde o sertão baiano a Minas Gerais, passando pelo Centro-Oeste. A recriação da linguagem é outra marca do autor. Utilizando inúmeros recursos, desde a invenção de vocábulos, por vários processos, até arcaísmos e palavras populares, invenções semânticas e sintáticas, ele produziu uma linguagem que não se acomodou à realidade, mas que se tornou um instrumento de captação da mesma, ou de sua recriação, segundo as necessidades do “mundo” do escritor.

Além do prêmio da Academia Brasileira de Letras (ABL) conferido a Magma, Guimarães Rosa recebeu o Prêmio Filipe d’Oliveira pelo livro Sagarana (1946); Grande sertão: Veredas recebeu o Prêmio Machado de Assis, do Instituto Nacional do Livro, o Prêmio Carmen Dolores Barbosa (1956) e o Prêmio Paula Brito (1957); Primeiras Estórias recebeu o Prêmio do PEN Clube do Brasil (1963).

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Guimarães Rosa, na posse na Academia Brasileira de Letras, entre Juscelino Kubisschck e Autrésilo de Athayde

Em 1963, o escritor se candidatou à Academia Brasileira de Letras, sendo eleito em 6 de agosto do mesmo ano como terceiro ocupante da Cadeira 2, na sucessão de João Neves da Fontoura. Contudo, devido a motivações pessoais, ele adiou sua posse por quatro anos. Somente em novembro de 1967, ele decidiu oficializar sua entrada para a ABL e, durante seu discurso de posse, o diplomata disse uma frase que é lembrada até hoje: “… a gente morre é para provar que viveu”, que talvez completasse o sentido de outra famosa frase dele: “… As pessoas não morrem, ficam encantadas”.

Três dias após entrar para a Academia, Guimarães Rosa veio a falecer em seu apartamento, no Rio de Janeiro, em 19 de novembro de 1967.

Devido a imensa importância desse brilhante escritor para a literatura e a diplomacia de forma geral, convidamos nossa querida mestra da Língua Portuguesa, Isabel Vega, para falar um pouco mais sobre a vida e o trabalho do autor. Além disso, a professora também destaca um aspecto importante em relação ao paralelo entre o marco de 50 anos de seu falecimento e o Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD) em 2017. Assistam abaixo, meus caros!

https://www.youtube.com/watch?v=i7JAs4psUHE&feature=youtu.be

 

Fontes:

Academia Brasileira de Letras (ABL)

Instituto Rio Branco (IRBr)

 

Participação especial neste post:

De Olho na Banca: CACD – Língua Portuguesa

Queridos mancebos e moçoilas,

Continuando a análise das bancas do Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD), hoje, vamos nos centrar nos aspectos das provas de Língua Portuguesa, uma disciplina que, tradicionalmente, apresenta um peso bastante significativo no certame. Isso ocorre, porque, além da matéria contar com um número de questões expressivo na Primeira Fase, a Segunda Fase consistia apenas na prova discursiva de Redação em Português até o ano passado, ou seja, uma etapa inteira do processo seletivo versava somente sobre essa disciplina. Podemos dizer, então, que a Língua Portuguesa merece um certo destaque nos planos de estudos, pupilos e pupilas!

No CACD 2017, ocorreram duas mudanças relacionadas às provas de Português. Uma delas foi a diminuição do número de questões objetivas (modelo “certo ou errado”) da primeira etapa para dez – nos anos anteriores a quantidade ficava em torno de catorze. Todavia, apesar disso, a disciplina continua sendo uma das que possuem maior peso na fase inicial do concurso. A outra alteração foi relativa à etapa discursiva: como vimos acima, a prova de Redação Português compunha toda a Segunda Fase até a última edição do certame; neste ano, a prova escrita de Língua Portuguesa – formada por uma redação de 600 a 650 palavras e dois exercícios de interpretação de 120 a 150 palavras – será acompanhada pelo exame discursivo de Língua Inglesa, cuja análise da banca foi feita neste post anterior.

Assim como as demais disciplinas, as provas de Português no CACD apresentam alguns traços específicos sobre o conteúdo, que não são comuns a outros concursos públicos. Por isso, os nossos mestres da última flor do Lácio, Isabel Vega e Fernando Entratice, vieram explicar em detalhes todas essas particularidades para vocês, meus caros! No primeiro vídeo, a professora Isabel aborda as características das questões objetivas da Primeira Fase e explica um elemento fundamental que torna essa prova tão singular. Em seguida, o professor Fernando esclarece os detalhes acerca do exame escrito da Segunda Fase, mostrando como o mesmo exerce uma função extremamente importante no que diz respeito ao cargo para o qual os candidatos se aplicam.

Vejam as explicações de cada mestre a seguir!

 

Parte 1 – Professora Isabel Vega:

https://www.youtube.com/watch?v=AqePHcnp73c

 

Parte 2 – Professor Fernando Entratice:

 

Aproveito para lembrar, pupilos, que vocês podem conferir todos os detalhes sobre as provas do CACD 2017 na nossa análise completa sobre o Edital, que está disponível bem aqui! 🙂

 

Participações especiais neste post:

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Isabel Vega –  Mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Leciona a disciplina de Língua Portuguesa no Colégio Pedro II e nos cursos preparatórios de Carreiras Públicas e Internacionais do Damásio Educacional / Clio.

 

avatar_entraticeFernando Entratice – Bacharel em Relações Internacionais pela Universidade de São Paulo (USP). Leciona a disciplina de Técnicas de Redação em Português, com ampla experiência na análise de correções da banca Cespe/UnB, nos cursos preparatórios de Carreiras Internacionais do Damásio Educacional / Clio.

 

A variação da Língua Portuguesa ao longo do tempo

[Atualizado em maio/2020]

 

Mancebos e moçoilas,

No último dia 05, foi comemorado o Dia da Língua Portuguesa e da Cultura na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). A data foi instituída pela organização em 20 de julho de 2009, por resolução da XIV Reunião Ordinária do Conselho de Ministros da CPLP, na Cidade da Praia, Cabo Verde. O documento dessa definição afirma que a Língua Portuguesa é “um vínculo histórico e um patrimônio comum resultantes de uma convivência multissecular que deve ser valorizada”. Eu concordo em gênero, número e grau! Afinal de contas, registra-se que essa língua é hoje o quinto idioma mais falado no mundo, a terceira mais falada no hemisfério ocidental e a mais falada no hemisfério sul – com milhões de falantes em todos os continentes.

Em 2019, a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) ratificou o dia 5 de maio como Dia Mundial da Língua Portuguesa. A decisão ocorreu no dia 25 de novembro, em Paris, durante a assembleia-geral da Unesco.

lingua10Além de 05 de maio, o dia da última flor do Lácio – como diria meu grande amigo Olavo Bilac – também é celebrado em duas outras datas: 10 de junho e 5 de novembro. A primeira é comemorada nos países lusófonos e foi instituída pela Assembleia da República de Portugal, em 1981, como homenagem ao autor Luís Vaz de Camões, cujo falecimento ocorreu nesta data em 1580. Camões é considerado uma das maiores figuras da literatura lusófona e um dos grandes poetas do Ocidente. Segundo pesquisadores, a obra “Os Lusíadas”, poema épico do autor, se tornou a principal referência para o estabelecimento da língua portuguesa moderna.

A segunda data (5 de novembro) marca o Dia Nacional da Língua Portuguesa no Brasil, instaurado por lei em 2006 para homenagear o escritor e político (e diplomata!) brasileiro Ruy Barbosa, nascido em 5 de novembro de 1849 e considerado um grande estudioso do idioma nacional.

Como sabemos bem, a língua portuguesa foi trazida ao Brasil no século XVI em virtude do dito descobrimento. O português era imposto como língua oficial às línguas nativas que havia aqui ou modificava-se dando origem a outros dialetos. Mas houve um longo processo para que o estabelecimento do idioma no território brasileiro. O contato entre os indígenas, os africanos e os vários imigrantes que vieram de algumas regiões da Europa contribuiu para o chamado multilinguismo. Assim, além da fase bilíngue pela qual passou a nossa língua, o multilinguismo contribuiu – e continua contribuindo – para a formação da identidade do português brasileiro.

Estudiosos afirmam que a implantação do português no Brasil é marcada por quatro períodos significativos: o primeiro momento vai da colonização até a saída dos holandeses do Brasil, em 1654; o segundo vai daí até a chegada da Família Real portuguesa ao Brasil, em 1808; o terceiro finda com a independência do Brasil, em 1822. Por fim, o quarto período se inicia em 1826, com a transformação da língua do colonizador em língua da nação brasileira.

Para entendermos melhor cada um desses períodos de transformação da nossa língua, procurei em meus alfarrábios e encontrei uma linha do tempo supimpa, com informações fornecidas pelo Museu da Língua Portuguesa! Vejam a seguir.

 

História da Língua Portuguesa no Brasil:

 

1500 – Os cerca de 5 milhões de indígenas (estimativa), que habitam as terras ocidentais da América do Sul na época da chegada dos portugueses, falam mais de mil línguas, com dois grandes grupos principais: jê (no Brasil Central) e tupi-guarani (no litoral).


1530 – Com a criação das vilas de São Vicente (1532) e Salvador (1549), se dá a entrada oficial do Português no território. Os colonizadores adotam os idiomas indígenas. Mas depois surgem as línguas gerais – próximas às dos índios -, faladas pelos filhos de portugueses e nativas.


1538 – Os africanos escravizados trazem sua cultura (a banto e a sudanesa são as principais), também influenciando o Português. Do banto vêm línguas como o quicongo e o quimbundo. Palavras como bagunça, moleque e caçula são desse grupo e que falamos até hoje.


1580 – A língua geral paulista, de base tupi, é registrada por expedicionários. Os jesuítas e os bandeirantes são responsáveis por difundi-la. Para dizer gafanhotos verdes, fala-se tucuriurie, para esbofetear, eipumpa n sovâ. Ela desaparecerá no século 18.


1700 – Surge a língua geral amazônica, ou nheengatu, de base tupinambá. Algumas palavras: tapioca, açaí, tipóia. Ela ainda é falada por 8 mil brasileiros. Nasce o dialeto de Minas, mistura do Português com a evé-fon, falada por negros originários da região da Costa da Mina, na África.


1759 – Os jesuítas, que conheciam o tupi e ensinavam as línguas gerais aos índios, são expulsos. O Marquês de Pombal promulga uma lei para impor o uso do Português. No entanto, as três línguas (tupi, africana e portuguesa) coexistem por muito tempo no território.


1808 – A chegada da família real portuguesa marca a difusão da língua, com a criação da Biblioteca Real e das escolas de Direito e Medicina. O fim da proibição da existência de gráficas possibilita o surgimento de jornais e revistas e a massificação de uma maneira de falar.


1850 – Com a chegada de imigrantes e o início da urbanização, há a intensa assimilação do Português popular pelo culto e a incorporação de estrangeirismos. Em vez de “tu és”, fala-se “você é” e “nós fizemos” divide espaço com “a gente fez”.


1922 – A Semana de Arte Moderna leva o Português informal para as artes. Ao mesmo tempo, os migrantes vão para a cidade, e o rádio e as novidades urbanas chegam até o campo. Assim, as variedades linguísticas passam a se influenciar mutuamente.


1950 – Com o advento da TV, o americanismo chega ao Brasil e, com ele, novos termos. A criatividade na fala e nas manifestações artísticas movimentam o mundo das palavras. Expressões populares ganham a boca de todos, como “acabar em pizza” e “jogar a toalha”.


1980 – A Constituição de 1988 garante o direito de índios e negros residentes de antigos quilombos (local onde viviam escravos fugidos) preservarem seu idioma. Atualmente mais de 220 povos indígenas falam cerca de 180 línguas no território brasileiro.


1990 – A entrada da TV em mais de 90% dos lares acaba com o isolamento linguístico, mas as comunidades reagem às influências, absorvendo, adaptando ou rejeitando-as, mas sempre mantendo sua identidade. Surgem leis contra o analfabetismo. Nasce o “internetês”.

 

Assim como os demais idiomas, a nossa língua é viva, ou seja, se transforma e se reinventa com as pessoas ao longo do tempo, expressando uma maneira de organizar o mundo em nomes e estruturas linguísticas. Algumas alterações ocorrem naturalmente; outras são determinadas formalmente, como o Acordo Ortográfico implementado pela CPLP, em 2009, com o objetivo de facilitar o intercâmbio cultural e científico entre os países que têm o português como idioma oficial – Brasil, Portugal, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné-Equatorial, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste – e ampliar a divulgação do idioma e da literatura em língua portuguesa.

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Como afirmou o escritor e professor Marcos Bagno, as mudanças na língua são inevitáveis. Ora bolas! O português que vocês estão lendo agora neste texto é muito distinto do português que se falava na minha época de mancebo, meus caros. Vocês já devem ter notado que este velhinho que vos fala, vez ou outra, usa algumas expressões um tanto quanto incomuns, não é mesmo? Pois bem. Mesmo com as constantes atualizações da língua, eu não consigo abandonar completamente esse “baronês”! 😁

Além dos termos antigos que deixo escapar com certa frequência, há muitos outros do meu tempo (e de antes) que também devem ser estranhos a vocês, tais como: janota, louçã, algibeira, bilontra, pândega, aboletar, melífluo, turuna, estroinice, apupar, insípido, entrudo, préstito, e por aí vai… Essas palavras faziam parte do vocabulário popular e cotidiano no século passado. Eram comumente usadas, inclusive, nos veículos de comunicação, como é o caso desta edição da Revista Fon-Fon de 1912. No entanto, com o passar do tempo, foram deixando de ser utilizadas à medida que as sociedades foram se desenvolvendo, como um processo de transformação natural.

Fiquei curioso sobre essas constantes mudanças e variações na nossa língua e decidi convidar a nossa querida mestra de Língua Portuguesa, Isabel Vega, para uma entrevista sobre o assunto. Numa animada conversa, a professora explicou os principais fatores que contribuíram na construção do português que falamos hoje e como o tema pode ser importante nos estudos para os concursos públicos, sobretudo para o Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD). Confiram logo abaixo!

 

ENTREVISTA COM A PROFESSORA ISABEL VEGA:

Geralmente, a maneira de falar se renova mais rápido do que o modo como se escreve. Por que isso ocorre?

Isabel Vega: A fala acontece de maneira muito mais espontânea do que a escrita. Por isso, a gente tem uma dificuldade grande na hora de escrever. Na hora de falar, a gente fala até demais, fala bobagem, depois é que a gente pensa, muitas vezes, no que a gente fala. E a escrita não. A escrita, como é algo que tem maior permanência, as pessoas têm muito mais cuidado ao escrever, porque a pessoa pode ser vítima de uma crítica. A língua oral é muito mais dinâmica, muito mais criativa, mais ágil, e muito menos permanente, com aquela ideia de que “as palavras o vento leva”. Então, a permanência, de fato, das regras é mais observada na língua escrita mesmo.

O que são os fatores de mudança da língua? Há alguns que influenciem mais do que outros?

I.V.: Existem inúmeros fatores de mudança na língua que podem ser agentes cognitivos, por exemplo, a maneira como a pessoa interpreta aquilo que foi dito, de uma maneira mais particular ou não, dependendo do contexto, da bagagem cultural que a pessoa tem de vida mesmo. Mas os fatores, de fato, que determinam na mudança coletiva da língua têm muito a ver com a idade das pessoas; com a formação delas; com as religiões, porque existe um arcabouço de algumas estruturas que diferenciam sempre um traço de cultura de outro; o fator espacial também, se é uma pessoa que mora num grande centro urbano ou numa propriedade rural, ou se mora no Brasil, em Moçambique, em Portugal. Então, a língua tem uma diversidade enorme, porque tem uma contribuição enorme em relação a espaço, a questão da classe social mesmo, quanto tempo tem de estudo, o quanto investe em cultura, em viagens. Existem inúmeros fatores. Eu não sei se existe assim, em especial, um que predomine sobre o outro, mas existem aqueles que a gente percebe mais, que chamam mais atenção. Eu diria que chama muita atenção a diferença em relação a menos escolaridade e a mais escolaridade e acho que uma linguagem mais envelhecida, das pessoas com mais tempo de vida, mais idosas, e a garotada, os adolescentes, essa diferença aí é bastante. Mas não sei se um fator predomina em relação a outro.

Qual foi o fator determinante para a diferenciação da nossa língua portuguesa do português de Portugal e como se deu essa modificação?

I.V.: O que os teóricos afirmam e o Gilberto Freire, no Casa Grande e Senzala, tem um capítulo extremamente importante que joga luz sobre esse assunto, é a influência do negro na vida da sociedade brasileira. E ele fala isso em diversos aspectos, em relação até a diminuição da mortalidade infantil, porque faz parte, e fazia no século XIX mais ainda, da cultura portuguesa, assim que as crianças nasciam, elas eram embrulhadas em panos e mais panos, não podiam entrar em contato com a luz porque os olhos eram muito frágeis e isso gerava uma mortalidade absurda de recém-nascidos porque o umbigo inflamava, enchia de bactérias. As crianças não pegavam sol, ficavam ali naquela escuridão daquele quarto, com um monte de pano amarrado, então era absurda a taxa de mortalidade. E quando os negros, as mucamas sobretudo, começaram a cuidar das crianças, a primeira coisa que elas fizeram foi algo que tinha a ver com a cultura delas, que é dar banho nas crianças. Então, as crianças nasciam e as mucamas davam banho nelas – o que faz parte da cultura africana –, começaram a vestir roupas leves, aquelas roupinhas de algodão, roupinhas de pagão como se dizia antigamente. As crianças já não ficavam num quarto escuro, mas numa penumbra, à luz do sol, e isso fez com que as crianças deixassem de morrer. Então, a influência do negro na sociedade brasileira é de uma importância absurda. E, assim como em coisas que a gente nem lembra, nem pensa nisso, que é a questão da mortalidade do recém-nascido, também é na linguagem. Porque os negros vieram para cá para interagir com os portugueses que aqui estavam, com os brasileiros, e ninguém ensinou a eles a língua portuguesa. Eles tiveram que aprender sozinhos. E, ao aprender sozinhos no contato com os outros, eles foram criando uma porção de estruturas que, hoje, a gente encontra mais associada à linguagem oral, justamente pela condição dos negros, de estar associada a uma circunstância muito mais oral do que escrita. Então, isso diferencia bastante a questão da colocação pronominal, a questão do negro usando próclise para diferenciar do comando do senhor, que usava ênclise. Isso é uma das coisas que contribuiu bastante não só em termos de vocabulário, mas em termos da estrutura mesmo da sintaxe.

Pode-se dizer também que a cultura indígena teve uma certa influência ou foi menos do que a cultura negra?

I.V.: Eu acho que menos. Eu acho que a cultura indígena vai favorecer bastante o vocabulário, algumas músicas, alguns ritmos, mas, em termos de língua portuguesa, não vejo essa mudança na estrutura. Porque a interação maior que houve, em termos de língua, foi realmente no trato dos portugueses e dos brasileiros com os africanos. Até pelo volume dessa interação, porque os índios não se prestaram muito, como costumam dizer os historiadores, à escravidão. Eles preferiam morrer a serem escravos e os negros não. Então, a gente chega a uma época, por exemplo, do começo do século XIX, em que a gente tem 3 milhões de habitantes e quase 2 milhões são negros. A influência de fato na língua é absurda e, por isso, a diferença maior com a língua portuguesa falada em Portugal.

Por que muitos termos e gírias utilizados antigamente – como “supimpa”, “mancebo”, “moçoila” – não são mais tão usados? Em linhas gerais, como ocorreu esse processo?

I.V.: Na verdade, sempre existe o embate entre o novo, que está chegando e quer conquistar o seu espaço, e aquilo que é o mais antigo, e é natural. Isso acontece em relação a roupas, em relação a tudo. As pessoas mais novas querem o seu espaço e têm que ter esse espaço para ter essa renovação. E as gírias também, elas representam um determinado grupo e uma faixa etária. Na minha época de criança, por exemplo, era muito comum dizer “mandar brasa”: “olha, vamos mandar brasa! Fazer tal coisa”, um pouco aí do resquício da jovem guarda. E hoje, por exemplo, quando eu chego para os meus alunos, até os do curso [preparatório para o CACD], e digo “olha, vamos mandar brasa!”, eles olham para mim assim com um risinho de “como assim?”; os do [Colégio] Pedro II riem e dizem: “o que é isso, professora? Mandar brasa? Vai ter churrasco?” (risos). Eles não entendem e para mim é algo absolutamente natural. Mas eles têm as gírias deles também. E a gente vai conhecendo as gírias deles também e é assim que a vida vai acontecendo, né? O novo precisa ter espaço. E aí, para o novo chegar, o mais antigo tem que deixar de ser usado. É mesmo uma renovação: o antigo tem que sair para dar espaço pro novo, e esse novo vai virar antigo e o outro novo vai vir, e é assim.

A respeito da realidade plural da língua, o que você pensa sobre a figura tradicional do gramático no imaginário coletivo? Como essa representação intensifica a ideia de que existe uma definição precisa e objetiva do que é certo e errado na língua?

I.V.: As pessoas têm esse padrão mesmo. E não precisa nem ser “o gramático”. O professor de Português já causa um certo constrangimento. Quando você está em algum lugar e alguém fala assim “nossa, ela é professora de Português”, todo mundo se cala porque começa a prestar atenção no que vai dizer, porque o professor de Português está ali com a vara de marmelo na mão para dar na cabeça de um que falar errado. Então, existe sim essa ideia de que o professor de Português é o carrasco que vigia maneira de falar das pessoas porque ele sabe, ele é o guardião da língua, ele é o guardião da pureza vernácula do idioma. E, infelizmente, há alguns professores mais antigos, alguns gramáticos mais antigos que gostam desse lugar de guardião. Então, acabam aumentando um pouco isso, com essa ideia de correção: a pessoa fala alguma coisa e o professor tem que corrigir, porque, afinal de contas, ele é o professor. E isso é uma grande bobagem, porque o espaço de correção é o espaço de sala de aula, não é o espaço de conversa. É um pouco arbitrário, um pouco autoritário. Mas as pessoas têm essa ideia do professor de Português e do gramático como aquele que sabe tudo, que não erra e que vigia os outros, porque ele, sim, sabe qual é a língua certa. E é uma bobagem porque isso gera, nas pessoas em geral, um certo trauma. Eu vejo muito os meus alunos do Clio, menino grande (risos), com graduação, pós-graduação, enfim, viagens e uma bagagem cultural enorme e acham que não sabem Português. Dizem: “ah, eu não sei Português. Português é muito complicado. É difícil. Como é que você sabe Português?”. E é uma matéria como outra qualquer, né? Mas o problema são esses traumas de incapacidade, como se a pessoa não se sentisse capaz, natural, na sua própria língua, no seu próprio idioma. Isso é uma pena, mas existe. Infelizmente, existe. A primeira aula que a gente tem no curso, a gente fala exatamente sobre esse tema, para desmistificá-lo. Porque a língua é a que nós usamos, como a roupa é a que nós vestimos.

Não existe um certo e um errado. É isso?

I.V.: Existem os certos, existem os errados, de acordo com os contextos em que essa língua é usada. Ontem mesmo um aluno me perguntou, a gente estava saindo da sala e ele falou assim: “professora, quando a gente usa assim ‘a ti te digo’… Porque eu li isso na bíblia, mas isso não é horroroso?! Isso está errado? Porque está na bíblia”. Bom, se está na bíblia tem que estar certo, né? (risos). É a ideia que as pessoas têm. Eu falei: “olha, ‘a ti te digo’ tem duas figuras de linguagem aí: uma é a inversão, porque você pega o objeto e traz pra frente; e a outra é o pleonasmo, que é o ‘te’. Então, pegar o ‘a ti’, trazer pra frente e repeti-lo na forma do ‘te’, oblíquo, na verdade, você está usando duas figuras de linguagem. Então, não está errado”. “Mas pleonasmo não é vício?” (risos). “Depende do contexto. Aí, não. Aí, é um reforço. O vício de linguagem é quando você precisa ser claro, ser conciso, e você usa a linguagem de uma maneira que não está adequada. Então, se você diz ‘eu tenho que subir para cima’, aí é um vício de linguagem, porque o ‘subir’ já está dizendo que é para cima. Agora, o ‘a ti te digo’ está só reforçando o realce no receptor, no interlocutor. Então, não é erro. Por que como é que você vai dizer que usar uma figura de linguagem é erro? Não é erro, é estilo”. “Ah, mas se eu escrever isso numa segunda fase [do CACD]?”. Aí, é erro. E por que é um erro na segunda fase? Não pelo uso do pleonasmo ou da inversão, mas porque, na segunda fase, eles [a banca] contam palavras e a linguagem tem que ser concisa e objetiva. O errado é você usar a figura de linguagem. Não o pleonasmo, é qualquer figura de linguagem. Então, a gente tem que, o tempo inteiro, estar com a cabeça ligada porque não é erro. Existe a ideia de adequação e não adequação, daquilo que flui mais para informar, de maneira mais objetiva, ou atrapalha a comunicação. É com isso que a gente trabalha o tempo todo.

O tema “variação da língua” costuma ser abordado nos concursos públicos de Carreiras Internacionais (CACD, OfChan, Abin e MDIC)? Como esse conteúdo costuma aparecer nas provas?

I.V.: Exatamente como eu estava falando ainda agora. É um tema bastante caro, sobretudo pro CACD, porque o diplomata é aquele que a gente imagina que é o que mais sabe e melhor sabe usar o idioma. Ele precisa representar o país, está numa situação de alto nível, de trocas, de convencimento, de persuasão, então ele precisa dominar o idioma de uma maneira muito grande. Ele tem que estar muito afinado com o idioma e, justamente, nas suas diversas realizações. E, por isso, o concurso tem duas fases, que são tão distintas. Na primeira fase, eles querem que o candidato tenha uma visão linguística da coisa, da língua; a questão da variação volta e meia é colocada; a língua oral muito mais valorizada do que a língua escrita porque, justamente, ela é mais autentica, mais dinâmica, mais representativa do nosso tempo. Eles querem essa visão linguística na primeira fase. Na segunda fase, eles esquecem a linguística e querem a gramática tradicional, mais castiça possível. Então, eles testam os candidatos das duas maneiras: do ponto de vista do domínio da língua teórico, no reconhecimento dos vários usos, e na questão prática, em que eles elegem a norma padrão. Isso volta e meia cai em concurso, na primeira fase, na segunda fase e, sobretudo, na escrita da segunda fase. Nos outros concursos, às vezes, cai em alguns textos, mas é mais diluído. No CACD, não. No CACD, é um assunto… é o primeiro capítulo do Celso Cunha [bibliografia para o concurso]. Então, é matéria de língua portuguesa.

 

Fontes utilizadas no texto:

Museu da Língua Portuguesa

https://novaescola.org.br/conteudo/2604/a-lingua-e-viva

http://www.educacaopublica.rj.gov.br/biblioteca/portugues/0025.html

http://conversadeportugues.com.br/2015/05/dia-da-lingua-portuguesa/

 

Participação especial neste post: