Bolsa-Prêmio de Vocação para Diplomacia – o que é e como funciona?

Digníssimas e digníssimos,

Em 2002, o Instituto Rio Branco (IRBr) deu início ao Programa de Ação Afirmativa (PAA) – Bolsa-Prêmio de Vocação para a Diplomacia, em parceria com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e com participação da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir) e da Fundação Cultural Palmares (FCP). O Programa tem a finalidade de ampliar as condições de ingresso de pessoas negras na Carreira Diplomática, e consiste na concessão de bolsas para o custeio de estudos preparatórios para o Concurso de Admissão à Carreira Diplomática (CACD), realizado anualmente pelo IRBr.

O PAA é realizado conforme a disponibilidade orçamentário-financeira dos parceiros do programa. Desde a sua criação, foram realizadas sete edições do processo seletivo para a concessão das bolsas. Nos anos de 2009 a 2013 e 2015, o valor total da bolsa-prêmio, concedido a cada candidato selecionado, foi de R$ 25.000,00 (vinte e cinco mil reais).

No edital do Programa lançado em 2016, ocorreram algumas mudanças em seu funcionamento. No novo modelo, a inscrição no PAA foi condicionada à inscrição no CACD, e a concessão das bolsas passou a ser feita apenas aos candidatos que, tendo apresentado desempenho satisfatório nas primeiras etapas do concurso, não obtiveram média de notas necessária à aprovação final. Houve também alteração no valor da bolsa-prêmio para a R$ 30.000,00 (trinta mil reais).

EDITAL 2020

Na data de hoje, 06 de novembro, foi publicado o edital que estabelece as regras para a realização do PAA – Bolsa-Prêmio de Vocação para a Diplomacia em 2020, e convoca candidatos para o procedimento complementar à autodeclaração dos candidatos negros. Um dos critérios para concorrer a bolsa é ter se inscrito no CACD 2019, conforme o Edital nº 1, de 5 de julho de 2019, para concorrer às vagas reservadas às pessoas negras.

Nesta edição, serão concedidas até 28 bolsas-prêmio no valor total de R$ 30.000,00 (trinta mil reais), cujo pagamento será feito pelo CNPq. A classificação para fins de concessão da bolsa será conforme o desempenho dos candidatos no CACD 2019, em ordem decrescente na nota final na Primeira Fase.

Requisitos para a participação no PAA 2020:

  • ser brasileiro nato;
  • estar em dia com as obrigações eleitorais;
  • estar em dia com as obrigações do serviço militar, para os candidatos do sexo masculino;
  • ter concluído curso de graduação de nível superior ou estar habilitado a concluir curso dessa natureza até a data de convocação dos candidatos selecionados;
  • ter completado a idade mínima de 18 anos até a data de convocação dos candidatos selecionados;
  • possuir currículo cadastrado e atualizado na Plataforma Lattes;
  • ter se inscrito no CACD 2019 para concorrer às vagas reservadas às pessoas negras;
  • ter sido aprovado na Primeira Fase do CACD 2019 e convocado para a Segunda Fase do certame, conforme o Edital de 5 de julho de 2019;
  • ter sua autodeclaração como pessoa negra confirmada, por comissão de heteroidentificação, em procedimento complementar à autodeclaração dos candidatos negros; e
  • não ter recebido mais do que quatro bolsas-prêmio.

Os candidatos que já foram beneficiários da bolsa-prêmio também podem pleitear a concessão de nova bolsa no PAA 2020. Para isso, além dos requisitos acima, devem ser observadas as seguintes condições:

  • a primeira renovação da bolsa-prêmio é condicionada à aprovação na Primeira Fase do CACD 2019;
  • a segunda renovação da bolsa-prêmio é condicionada à obtenção das notas mínimas de aprovação de 60,00 pontos, na prova de língua portuguesa, e de 50,00 pontos, na prova de língua inglesa, ambas da Segunda Fase do CACD 2019; e
  • a terceira renovação da bolsa-prêmio é condicionada à aprovação na Segunda Fase do CACD 2019.

O edital com todas as regras do PAA 2020 pode ser acessado no site do Diário Oficial da União, disponível em: https://www.in.gov.br/web/dou/-/edital-de-5-de-novembro-de-2020bolsa-premio-de-vocacao-para-a-diplomacia-286807280

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Os editais, comunicados e demais informações referentes ao PAA de anos anteriores podem ser consultados no site oficial do Instituto Rio Branco: http://www.institutoriobranco.itamaraty.gov.br/editais.

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Para finalizar, meus caros, listamos abaixo algumas das dúvidas mais comuns sobre o PAA e as devidas respostas, com base nas informações do site do Instituto Rio Branco. Confiram e fiquem por dentro de todos os detalhes!

O Programa de Ação Afirmativa oferece bolsa-prêmio também para pessoas de baixa renda, indígenas e seus descendentes ou com deficiência?

Atualmente, o Programa prevê a concessão de bolsas-prêmios exclusivamente a pessoas negras. Pessoas com deficiência podem fazer uso dos benefícios da Lei nº 7.853/1989 e do Decreto nº 3.298/1999.

Qual é a idade mínima para participar do PAA?

Para beneficiar-se do Programa, o candidato deverá haver completado a idade mínima de 18 anos até a data da publicação do resultado final do processo seletivo.

Se um candidato que possui trabalho fixo for selecionado no Programa de Ação Afirmativa, ele terá de parar de trabalhar?

Não. A concessão de bolsa-prêmio não exige que o candidato interrompa seu vínculo empregatício.

Alunos de pós-graduação com bolsa de estudos podem se candidatar à bolsa-prêmio do Programa de Ação Afirmativa?

Podem. Não há restrições em relação a pós-graduandos que recebem bolsas de outras instituições.

É possível participar mais de uma vez do Programa? Qual o limite de participações?

O nível de exigência do CACD exige muita dedicação e estudos, e é possível que o candidato não seja aprovado na primeira tentativa. Assim, a fim de que o candidato possa se preparar por mais de uma temporada, o Programa prevê a concessão de novas bolsas a uma mesma pessoa de acordo com os seguintes critérios:

– a primeira renovação da bolsa-prêmio é condicionada à aprovação na Primeira Fase (prova objetiva) do CACD;

– a segunda renovação da bolsa-prêmio é condicionada à aprovação e classificação na Primeira Fase (prova objetiva) e à convocação para a Segunda Fase (provas escritas) do CACD;

– a terceira renovação da bolsa-prêmio é condicionada à aprovação e classificação na Primeira Fase (prova objetiva), na Segunda Fase (provas escritas) e na Terceira Fase (provas escritas) do CACD.

Fonte:

Instituto Rio Branco – http://www.institutoriobranco.itamaraty.gov.br/perguntas-frequentes

Baronesa do Mês: Odette de Carvalho e Souza

Caríssimas e caríssimos,

Como vimos há alguns meses, ao ser aprovada no concurso do Itamaraty e tornar-se a primeira mulher diplomata do Brasil, em 1918, Maria José de Castro Rebello Mendes abriu caminho para a presença feminina no funcionalismo público federal e inspirou o ingresso de outras mulheres na carreira diplomática. Uma delas foi Odette de Carvalho e Souza, que, mais tarde, ocuparia o lugar de primeira embaixadora brasileira, chefiando o então Departamento Político do Ministério das Relações Exteriores (MRE), de 1956 a 1959.

Por esse notável motivo, Odette de Carvalho é a baronesa cuja trajetória e atuação relembramos este mês aqui no blog. Para tanto, trazemos a fantástica apresentação do diplomata Guilherme José Roeder Friaça* sobre a vida e a carreira desta personagem que marcou a história da diplomacia brasileira!

 

A PRIMEIRA EMBAIXADORA: A TRAJETÓRIA DE ODETTE DE CARVALHO E SOUZA

odette-jovemDesde o mês de janeiro de  1956,  o  Itamaraty  convivia  com  a  primeira  mulher promovida  a  ministra  de  primeira  classe:  Odette  de  Carvalho  e  Souza.  A primeira embaixadora do  Itamaraty  e  primeira  embaixadora  de  carreira  do  mundo  (LINTZ,  1983), tinha então 52 anos e ficou conhecida no MRE como Dona Odette, uma abordagem sexista, já que,  nas  referências  a  todos  os  homens,  seus  nomes  eram  sempre  precedidos  do  título hierárquico.  Se aos ministros de primeira classe se  dava,  em  geral,  o  tratamento  de embaixador, as referências à embaixadora Odette de Carvalho e Souza seguiram sendo como Dona  Odette  até  sua  morte.  “As mulheres não  têm  sobrenome,  têm  apenas  um  nome. Aparecem sem nitidez, na penumbra dos quartos obscuros” (PERROT, 2007, p. 17).

Odette de Carvalho e Souza, que integrava o “Grupo das 20” [diplomatas  pioneiras:  19  mulheres admitidas até  a proibição de acesso  ao sexo feminino,  em 1938, e Maria  José Monteiro de Carvalho, transferida para carreira diplomática em 1945], ingressou no Itamaraty em 13 de fevereiro de 1936, aprovada em concurso de títulos. Nascida no Rio de Janeiro em 1º de outubro de 1904, filha de Augusta Possas de Carvalho e Souza e Carlos de Carvalho e Souza, Odette de Carvalho e Souza chegou ao topo da carreira um mês antes de completar 20 anos de serviço. Seu pai era membro da carreira consular, de modo que ela travara contato com as atividades do Itamaraty desde muito jovem. Ademais, já tinha experiência no campo internacional quando foi nomeada cônsul de terceira classe, cargo inicial das carreiras consular e diplomática. Havia sido conselheira técnica governamental das XV, XVI e XVII Conferências Internacionais do Trabalho, realizadas em Genebra nos anos de 1931, 1932 e 1933 e arquivista da Delegação Brasileira à Conferência do Desarmamento de 1932, na mesma cidade.

Na primeira gestão do ministro José Carlos de Macedo Soares no MRE (jul. 1934 a nov. 1936), exerceu as funções de sua secretária, de julho de 1934 até a data da posse dela na carreira. Durante esse  tempo  produziu  vários  textos,  sob  encomenda  do  chanceler,  nos quais  já  demonstrava  o  anticomunismo  ferrenho  que  a  caracterizaria.  Em  um  ano  e  meio produziu  cerca  de  500  páginas,  em  sete  ensaios  sobre  temas  diversos:  em  1934,  “O comercio exterior entre o Brasil e URSS” e “Os soviets e a América Latina”; no ano seguinte, “A  repartição  internacional  dos  vinhos  e  seus  fins”,  “Ordem  do  dia  da  Conferencia Commercial  Panamericana  e  respectivos  projetos  de  convenção  e  recomendação”,  “A unificação de estatisticas officiaes e as estatisticas de migração”, “O Conflito ítalo-ethiope” e “A  infiltração  comunista  nas  classes  armadas”.  Possivelmente por  ser  de  confiança  do ministro  Macedo  Soares,  foi  indicada,  em  janeiro  de  1936,  ainda  antes  de  ingressar  na carreira, para chefiar os Serviços Especiais de Informação do MRE.

Segundo Negrão (2005), os Serviços chefiados por Odette de Carvalho e Souza por cerca de um ano nada mais eram, em caráter experimental, que os Serviços de Estudos e Investigações (SEI), criados por Decreto de 1º de fevereiro de 1937 e, a partir de novembro de 1937 até março de 1939, novamente dirigidos por Odette de Carvalho e Souza.  Negrão (2005)  afirma  ainda  que  os  SEI  do  MRE  funcionaram  como  órgãos  secretos  auxiliares  da repressão  varguista,  atendendo  à  política  governamental  anticomunista.  Sobre Odette  de Carvalho e Souza, o autor afirma que todos os documentos sobre os SEI a que teve acesso eram por ela firmados, o que permitiria classificá-la como assídua colaboradora do Governo no combate ao comunismo. O autor tece comentários que enriquecem o perfil da diplomata:

Na reunião dos delegados de Polícias Estaduais, a sua posição como representante do MRE é destacada, aparecendo como uma das responsáveis pela elaboração das normas a serem adotadas pela  polícia política. Nos  documentos  referentes aos SEI, Odette de  Carvalho  e Souza enumera, mais uma vez, os relevantes serviços prestados no combate ao comunismo internacional e propõe que esse  órgão funcione diretamente ligado  ao MRE, sendo o  seu funcionário considerado adido nas embaixadas (NEGRÃO, 2005, p. 160).

Com  efeito,  o  Almanaque  do  Pessoal  de  1939  indica  que  a  diplomata  foi  a representante  do  Itamaraty  no  1º  Congresso  dos  Chefes  de  Polícia,  realizado  no  Rio  de Janeiro em outubro de 1936. Odette de Carvalho e Souza permaneceu à frente dos SEI até o começo  de  1939,  quando  foi  removida  para  a  Embaixada  em  Londres.  No  entanto,  a nomeação foi tornada sem efeito e seu destino passou a ser a Legação do Brasil em Berna. Os motivos para essa decisão foram expressos em carta que encaminhava Decretos de remoção ao presidente Getúlio Vargas:

Quanto à Senhora Odette de Carvalho e Souza, fôra designada para servir na Embaixada em  Londres,  mas  o  Embaixador  Régis  de  Oliveira  comunicou  que  ao  Govêrno  de  Sua Majestade  Britânica  não  agradaria  a  nomeação  de  uma  mulher  para  cargo  diplomático, razão pela qual proponho enviá-la  para  a  Suíça,  tornando  sem  efeito  a  designação anterior.

Odette de Carvalho e Souza esteve em Berna de abril de 1939 a junho de 1946. Em  dezembro  de  1945,  foi  promovida  a  primeira-secretária.  De  regresso  ao  Brasil,  ficou  à disposição da Interventoria Federal de São Paulo até dezembro de 1946, quando assumiu a função  de  auxiliar  de  Gabinete  do  chanceler  Raul  Fernandes.  Entre  1947  e  1948,  foi representante  do  MRE  na  Comissão  Organizadora  do  Congresso  Panamericano  de  Serviço Social  (julho/1947);  secretária  da  Delegação  do  Brasil  à  Conferência  Interamericana  Para  a Manutenção  da  Paz  e  da  Segurança  no  Continente  (agosto/1947);  membro  da  Comissão encarregada  de  preparar  os  elementos  de  estudo  dos  temas  constantes  do  programa  na  9ª Conferência  Internacional  Americana  (outubro/1947)  e  secretária  da  Delegação  do  Brasil  à 3a Sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas (setembro/1948). Em novembro de 1949, recebeu o título de conselheira e em maio de 1950 foi promovida a ministra de segunda classe.

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No dia 2 de abril de 1951, assumiu a função de cônsul-geral em Lisboa, de onde partiu em 15 de março de 1956. Havia sido promovida a ministra de primeira classe em 16 de janeiro daquele  ano,  o  que  mereceu  destaque  de  vários  jornais  portugueses,  em  notícias publicadas  no  mesmo  dia  em  que  foi  oficializada  a  promoção.  O  Diário  de  Lisboa,  por exemplo, mostrava retrato de Odette de Carvalho e Souza, sob o  qual  estava  impressa  a  seguinte  legenda:  “Pela  primeira  vez  na  história  da  diplomacia brasileira uma senhora (a Cônsul-geral em Lisboa) é elevada a ministro plenipotenciário”. Também o Diário de Notícias e o Diário da Manhã daquele dia mencionavam a promoção da cônsul-geral do Brasil. Sua partida foi igualmente noticiada e as despedidas que tiveram lugar naquela ocasião tiveram destaque em diversos periódicos lisboetas.

Regressou,  em  abril  de  1956,  à  Secretaria  de  Estado,  onde  seria  mais  uma  vez colaboradora direta de José Carlos de Macedo Soares, em sua segunda gestão como titular da pasta das Relações Exteriores  (novembro/1955 a julho/1958). Tão logo  chegou ao Rio de Janeiro, assumiu a chefia interina do Departamento Político e Cultural. Foi a primeira mulher a ocupar cargo  tão  alto  na  Casa.  O  MRE  estava  então  dividido  em  três  departamentos  e  o Departamento  a  cargo  de  Odette  de  Carvalho  e  Souza  reunia  cinco  divisões:  Política; Cultural; do Cerimonial; de Fronteira e de Atos, Congressos e Conferências Internacionais. Embora o cenário mundial se tenha complexificado e as atribuições a que tem que fazer face o Itamaraty sejam maiores e mais diversificadas, a posição ocupada por Odette de Carvalho e Souza  corresponderia,  no  MRE  de  hoje,  à  chefia  conjunta  de  pelo  menos  quatro Subsecretarias-gerais.

Odette de Carvalho e Souza ficou à frente do Departamento até o fim da gestão de Macedo Soares, em 4 de julho de 1958. Foi sucedida por Manoel Pio Corrêa que lhe dedicou, em suas memórias, dois parágrafos. Se, por um lado, ajudam a compor o retrato dessa mulher, por outro, trazem em si o preconceito de que deve a mulher forçosamente aliar beleza física à inteligência e à competência profissional:

“Dona  Odette”  não  fora  agraciada  pela  Natureza  com  dotes  físicos  correspondentes  aos seus  grandes  dotes  intelectuais.  Sob  uma  cabeleira  postiça  extremamente  inconvincente diziam-na  calva  como  um  joelho,  e,  quanto  ao  resto,  não  possuía  sobrancelhas  nem pestanas, o que lhe dava um aspecto incomodamente inexpressivo. Sob esse aspecto ingrato e  mesmo  dolorosamente  caricato  abrigava-se  uma  inteligência  clara,  uma  grande  cultura profissional, uma grande bondade  e  um  invejável sentido de  humor  (CORRÊA, 1994, p. 151).

odette-e-golda-meirEm  março  de  1959,  a  primeira  embaixadora  brasileira  deu  sequência  a  uma sucessão de atos pioneiros. No âmbito bilateral, esteve à frente da Embaixada em Tel Aviv de 1 de maio de 1959 a 6 de agosto de 1961. Foi a terceira representante brasileira naquele Posto, de criação recente. De lá partiu para assumir a Embaixada em São José, onde permaneceu de 5 de outubro de 1961 a 14 de outubro de 1964. Em 9 de dezembro de 1964, foi designada para chefiar  a  Delegação  do  Brasil  junto  às  Comunidades  Econômicas  Europeias  (CEE),  em Bruxelas. Chegou ao Posto em 16 de janeiro de 1965, lá permanecendo até sua remoção para a  Secretaria  de  Estado,  no  segundo  semestre  de  1969.  Nas  três  capitais,  foi  a  primeira brasileira a ocupar o posto.

Odette de Carvalho e Souza, quando avaliada no “Grupo das 20”, foi a diplomata que  mais  funções de  relevo  desempenhou.  Conforme  indicado, das  19  mulheres  que  lhe foram  contemporâneas,  somente  outras  duas,  Dora  de  Alencar  Vasconcellos,  em  1964,  e Lourdes de Vincenzi, em 1972, chegaram a  embaixadoras.  Observe-se  que  Beata  Vettori  e Margarida Guedes Nogueira, aposentadas como ministras de segunda classe, tiveram o título de  embaixadora,  mas  não  chegaram  a  ministras  de  primeira  classe.  Odette  de  Carvalho  e Souza  foi  aposentada  no  dia  2  de  outubro  de  1969,  por  ter  completado  65  anos  de  idade. Faleceu no ano seguinte, aos  66 anos de  idade, na cidade  do Porto, Portugal,  no dia 30 de novembro.

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* FRIAÇA, Guilherme. Mulheres diplomatas no Itamaraty (1918-2011): uma análise de trajetórias, vitórias e desafios (Tese do Curso de Altos Estados (CAE)). Brasília: Instituto Rio Branco, 2012.

Pergunte à Diplomata #2 – com Maybi Mota

Minhas caras e meus caros,

É com imensa alegria que trago para vocês a segunda edição de “Pergunte ao/à Diplomata”, nossa série especial de entrevistas sobre a Carreira Diplomática, baseadas nos questionamentos que vocês possuem! Em cada ocasião, temos a participação de um (a) diplomata convidado (a) que, com base em suas experiências anteriores e posteriores à aprovação no Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD), responde a uma seleção de perguntas enviadas por vocês, por meio do Facebook e do Instagram deste bigodudo que vos fala.

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A ilustre convidada da vez é a querida diplomata e minha ex-pupila Maybi Mota! Ela possui graduação em Direito pela Universidade de São Paulo (USP), mestrado em Relações Internacionais pela Universidade Waseda, no Japão, e foi aprovada no CACD de 2017. No momento, portanto, ocupa o cargo de Terceira-Secretária e está realizando o Curso de Formação do Instituto Rio Branco (IRBr), na Secretaria de Estado das Relações Exteriores, em Brasília – DF. Há, ainda, um detalhe muito especial sobre a Maybi: ela faz parte da turma que teve o maior número de mulheres ingressantes no IRBr! Esse foi um marco merecidamente destacado pelo Itamaraty no início deste ano.

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Nesta entrevista, a Maybi respondeu a variadas perguntas sobre sua trajetória, seu processo de preparação para o concurso e sua experiência atual como aluna do Instituto Rio Branco e diplomata brasileira. Assistam a seguir, e aproveitem as suas preciosas explicações e conselhos! 😉

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Nas próximas semanas, teremos novas entrevistas com outros (as) diplomatas. Acompanhem o Barão nas redes sociais para enviar suas perguntas aos próximos convidados e convidadas!

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VEJA TAMBÉM:

Pergunte ao Diplomata #1 – com João Lucas Ijino

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Como funciona a Carreira de Diplomata? – Palestra com Marcelo Calero

[Atualizado em 24/01/19]

 

Prezadas e prezados,

Apesar de ser um serviço público bem consolidado e estruturado no Brasil – com um processo seletivo anual –, a Diplomacia ainda é uma carreira desconhecida de muitas pessoas. É sabido que Diplomata é o servidor responsável por representar o seu país de origem nas discussões que envolvem outras nações ou organismos internacionais; solucionar os conflitos envolvendo os interesses nacionais; negociar acordos que tragam benefícios a seu país e promover a cultura no exterior. Todavia, são pouco difundidas as informações sobre no que consiste e como é, na prática, o trabalho desse profissional.

Em certa medida, o serviço diplomático é marcado por muitos mitos e impressões equivocadas. Um dos pensamentos que mais ocorrem neste sentido é o de que apenas cidadãos ‘abastados’, viajados e poliglotas conseguem a aprovação no Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD). Contudo, essa é uma ideia superficial e que pode ser facilmente desfeita se observamos em detalhes o perfil dos postulantes ao Instituto Rio Branco (IRBr) – instituição responsável pela formação dos diplomatas – nos últimos anos.

A verdade, meus caros, é que a Diplomacia é uma carreira pública como qualquer outra (salvo, é claro, algumas particularidades, como o fato de ser voltada para a área internacional), e possui uma organização institucional muito bem definida, com regimento jurídico, plano de cargos, mecanismos de promoções, entre outros fatores. Mas como é o funcionamento desses processos? De que forma a trajetória profissional de um (a) diplomata se desenvolve ao longo do tempo?

Diante desses questionamentos específicos, ninguém melhor do que alguém que já passou pela experiência para nos dar as respostas! Sendo assim, meus caros, trago para vocês a íntegra da primorosa palestra do diplomata Marcelo Calero (Primeiro-Secretário licenciado do Ministério das Relações Exteriores), ministrada no nosso Workshop Carreiras Internacionais, abordando todos os aspectos da Carreira Diplomática, desde a conformação do Serviço Exterior Brasileiro até as possibilidades de atuação fora do Itamaraty.

Sem mais delongas, assistam a seguir e façam proveito dessa riquíssima e esclarecedora exposição, caríssimos!

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Pergunte ao Diplomata #1 – com João Lucas Ijino

Caríssimas e caríssimos,

A Diplomacia pode ser entendida como o conjunto de conhecimentos e práticas que promovem a inserção dos países no sistema internacional e, consequentemente, que moldam a dinâmica das relações entre eles. A atividade diplomática consiste, portanto, no planejamento e na execução da política externa, por meio da atuação dos diplomatas em diferentes assuntos – comércio exterior, economia, cultura, segurança internacional, instituições multilaterais, entre outros.

Como vimos na palestra “Como funciona a Carreira de Diplomata?”, no Brasil, os diplomatas iniciam suas atividades pelo Instituto Rio Branco (IRBr), logo após a aprovação no Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD). O Curso de Formação do IRBr tem duração média de dois anos e, passada a cerimônia de formatura, os profissionais já estão capacitados para exercer funções de maior complexidade, como coordenar um determinado setor por exemplo, em território nacional ou em outros países.

Apesar de ser possível resumir todo esse processo em um parágrafo, a trajetória diplomática, da preparação para o concurso até a atuação no Ministério das Relações Exteriores (MRE, ou Itamaraty), suscita muitas questões e curiosidades daqueles que cogitam ou já decidiram seguir essa profissão. Como e por quanto tempo é preciso estudar para ser aprovado no CACD? É possível conciliar os estudos com outras atividades? É necessário dominar muitos idiomas? Como é a rotina de trabalho no Itamaraty? Essas são algumas das dúvidas mais recorrentes sobre esse tema.

Mas quem seriam as pessoas mais indicadas para fornecer as devidas respostas? Aqueles que já vivenciaram cada uma das experiências, é claro! Por isso, o Barão tem o prazer de apresentar a vocês a mais nova editoria do blog: Pergunte ao/à Diplomata! Esta é uma série especial de entrevistas sobre a Carreira Diplomática, baseadas nos questionamentos que vocês possuem sobre o assunto. Em cada edição, teremos a participação de um/a diplomata convidado/a que, com base em suas experiências anteriores e posteriores à aprovação no CACD, responderá a uma seleção de perguntas enviadas por vocês (via Facebook e Instagram), caros leitores e leitoras.

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O primeiro convidado foi o caríssimo diplomata e meu ex-pupilo João Lucas Ijino! Ele é Bacharel em Línguas Estrangeiras Aplicadas às Negociações Internacionais pela Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC-BA); participou do Programa de Ação Afirmativa (PAA) – Bolsa-Prêmio de Vocação para a Diplomacia no período de 2009 a 2013, e foi aprovado no CACD de 2013. Após sua formatura no IRBr, João atuou em uma missão diplomática em Porto Príncipe, capital do Haiti, por dois anos e meio. Atualmente, ocupa o cargo de Terceiro-Secretário na Embaixada do Brasil em Buenos Aires, onde é responsável pelo Setor Administrativo.

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A seguir, vocês podem conferir a entrevista completa com o João, e saber um pouco mais sobre o processo de se tornar e atuar como diplomata brasileiro! 🙂

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Nas próximas semanas, teremos novas entrevistas com outros/as diplomatas. Acompanhem o Barão nas redes sociais para enviar suas perguntas aos próximos convidados! 😉

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Novos Olhares sobre a PEB – Veja como foi o debate!

Estimados (as) estudiosos (as) das Relações Internacionais,

A política externa brasileira (PEB) tem como uma de suas marcas a continuidade e a estabilidade mesmo em tempos de mudanças aceleradas no mundo que nos cerca. Todavia, a busca pela estabilidade diplomática não deve ser motivo para análises estanques. Nesse sentido, na última quarta-feira, tivemos o enorme prazer de acompanhar o lançamento do livro “Novos Olhares sobre a Política Externa Brasileira”, com uma riquíssima discussão a fim de rejuvenescer a análise sobre a inserção do Brasil no cenário mundial. Entre os debatedores, contamos com a presença de Gustavo Westmann (diplomata e organizador da obra), Maurício Santoro (professor de Relações Internacionais) e Ilan Cuperstein (assessor da ONG C40 Cities) – autores de três dos artigos que compõem o livro –, e a mediação do encontro ficou a cargo do nosso mestre João Daniel Almeida.

O diplomata Gustavo Westmann explicou que o projeto do livro surgiu com base na necessidade de tornar o debate sobre política externa mais democrático e transparente, dando voz a novos pensamentos e ideias. O organizador abordou questões que perpassam por toda a obra, como a ausência de um planejamento estratégico de longo prazo para a PEB, ou seja, a falta de diretrizes claras para a atuação do Brasil no exterior, e a necessidade de reformas na estrutura de governança da política externa brasileira e do Itamaraty mais especificamente.

A conversa seguiu com a contribuição de Maurício Santoro e Ilan Cuperstein, autores de dois artigos do livro que reconhecem pontos positivos da PEB nos últimos anos, relacionados a uma significativa participação da sociedade civil, e propõem melhorias nesses aspectos. O professor Maurício destacou que a atuação da sociedade em temas mais atuais, como a Tecnologia da Informação, é fundamental e apontou a necessidade do corpo diplomático possuir profissionais mais especializados para a definição de planos específicos, uma vez que o perfil generalista acaba por dificultar essa atividade em muitos casos. Ilan, por sua vez, argumentou sobre a relevância de haver um debate mais democrático e profundo sobre o que é o desenvolvimento para o Brasil, pontuando que a agenda ambiental ainda é um tema pouco explorado pelo Itamaraty. Ele também salientou a importância da política externa brasileira incorporar temas mais diversos como o meio ambiente e as mudanças climáticas, que estão extremamente ligados ao perfil socioeconômico de um país.

Ao longo da discussão, outros assuntos de grande importância para o Brasil foram levantados pelo professor João Daniel e brilhantemente discutidos pelos debatedores. Tais como: as relações bilaterais entre o Brasil e países africanos, que são abordadas em dois artigos do livro; a região Ásia-Pacífico como o grande centro das interações econômicas, sociais e estratégicas na política internacional da atualidade e a formulação de leis e políticas públicas mais sólidas e duradouras. Nesse último tema, tivemos uma participação especialíssima do professor Bruno Borges – coautor de um dos capítulos da obra junto a Maurício Santoro –, que acompanhava o evento no auditório.

Já deu para perceber como esse encontro foi enriquecedor e construtivo, não é mesmo, pupilos e pupilas? Sendo assim, deixo aqui abaixo o vídeo completo do debate para que vocês possam assistir e fazer um ótimo proveito dos conhecimentos compartilhados por esse time precioso! 😉

 

Conheçam mais sobre os participantes do evento:

Bruno Borges é graduado em Ciências Sociais e mestre em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e doutor em Ciência Política pela Duke University. Atualmente é Professor Adjunto de Política Internacional (Normas e Instituições) na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), no Departamento de Relações Internacionais e no Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais (PPGRI). Fez parte do corpo docente da Pós-Graduação em Relações Internacionais do Damásio Educacional / Clio. Tem experiência na área de Ciência Política, com ênfase em Relações Internacionais, Política Comparada e Teoria Política. Desenvolve pesquisa sobre Tecnologia e Autonomia Estatal, especialmente sobre Poder e Instituições.

Gustavo Westmann é Bacharel em Direito pela Universidade de São Paulo e em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Diplomata desde 2007, já atuou nas áreas cultural, comercial e de energia do Ministério das Relações Exteriores e, nos últimos quatro anos, foi Chefe do Setor Comercial da Embaixada do Brasil na Itália. Atualmente é Chefe do Setor Econômico e Comercial da Embaixada do Brasil na Indonésia, onde vem aprofundando seus estudos sobre o processo de formação da sociedade global. Mestre em Diplomacia pelo Instituto Rio Branco (IRBr) e em Política Internacional pela Escola de Governo da Luiss Guido Carli (Roma), Gustavo também é especialista em Direito Internacional Público pela UC Berkeley e pela The Hague Academy of International Law. Já foi professor visitante nas Universidades Tor Vergata (Roma) e Luiss (Roma). Antes da carreira diplomática, atuou como consultor jurídico na área de direito ambiental.

Ilan E. Cuperstein é formado em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e mestre em Meio Ambiente e Desenvolvimento pela London School of Economics and Political Science. Assessor da ONG C40 Cities Climate Leadership Group. Anteriormente, atuou como Conselheiro Municipal do Rio de Janeiro, onde foi responsável por auxiliar o governo da cidade no planejamento e implementação de planos de mudanças climáticas tanto na adaptação aos riscos climáticos quanto na mitigação das emissões de gases de efeito estufa. Antes de ingressar no C40, Ilan foi representante brasileiro no Centro de Mudança Climática e Inovação em Tecnologia de Energia China-Brasil, onde foi responsável pela criação do escritório em Pequim, estabelecendo relações institucionais entre parceiros da Academia, ONGs, agências governamentais e empresas sobre mudanças climáticas e problemas de energia. Como assessor internacional na COPPE/UFRJ, ele também foi responsável pela gestão de parcerias internacionais relacionadas a biocombustíveis, energia solar, política de inovação e sustentabilidade urbana.

João Daniel Almeida é graduado em História pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Foi professor do Colégio Pedro II, coordenador da graduação e da pós-graduação em Relações Internacionais da Universidade Candido Mendes e lecionou Política Externa Brasileira na graduação de Relações Internacionais da PUC-Rio. Autor do Manual do Candidato de História do Brasil editado pela Fundação Alexandre de Gusmão (Funag). Atualmente, é professor de História do Brasil e de História Mundial no curso preparatório para a carreira diplomática no Damásio Educacional / Clio. Possui experiência na área de Ciência Política, com ênfase em Política Externa do Brasil, atuando principalmente nos seguintes temas: Relações Internacionais, Educação, Política Internacional, Antropologia e Organização das Nações Unidas.

Maurício Santoro é doutor e mestre em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro, graduado em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Professor-adjunto do Departamento de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Fez parte do corpo docente da Pós-Graduação em Relações Internacionais do Damásio Educacional / Clio. Foi pesquisador-visitante nas universidades Torcuato di Tella (Buenos Aires, Argentina) e New School (Nova York, Estados Unidos), assessor da Anistia Internacional e do Secretário de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, pesquisador no Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas, repórter do jornal O Globo. Colaborou com artigos no New York Times, Estado de S. Paulo, Folha de São Paulo, Huffington Post, Le Monde Diplomatique e Valor Econômico, entre outros. Lecionou na Academia Militar das Agulhas Negras e realizou palestras na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército e no Ministério das Relações Exteriores. Tem experiência com cooperação internacional na América Latina e na África e recebeu prêmios acadêmicos ou bolsas de estudo do Ministério das Relações Exteriores, CAPES, União Latina, Latin American Studies Association, Fundação Robert Bosch. Integra o Conselho Consultivo do Nexus Fund (Estados Unidos) e o juri do prêmio The Bobs – the best of online activism da Deutsche Welle. Foi membro do Conselho Nacional de Juventude, do Comitê Brasileiro de Direitos Humanos e Política Externa e do Fórum Nacional de Participação Popular.

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Da esquerda para a direita: Bruno Borges, Maurício Santoro, Tanguy Baghdadi, Gustavo Westmann, João Daniel Almeida e Ilan Cuperstein

 

POR DENTRO DA OBRA

Meus pupilos e minhas pupilas, o livro “Novos Olhares sobre a Política Externa Brasileira” tem como principal objetivo aprofundar a discussão sobre a inserção do Brasil na ordem global e os principais obstáculos que deverão ser enfrentados nos próximos anos, com análises modernas e pragmáticas, baseadas em experiências concretas, propositivas e desvinculadas de ideias preestabelecidas pela literatura tradicional sobre o tema. A obra consiste em uma série de artigos desenvolvidos de maneira crítica e construtiva por uma nova geração de diplomatas, jornalistas, professores e representantes do setor privado que, em certa medida, estão envolvidos nos estudos e debates sobre os rumos da agenda internacional do país.

Para que vocês possam ter maior conhecimento do conteúdo abordado neste magnífico trabalho, esse bigodudo que vos fala trouxe uma listagem dos textos que o compõem, com breves explicações retiradas diretamente da parte introdutória do livro e informações sobre os autores e as autoras. Confiram a seguir, meus caros! 🙂

 

PARTE I – Reflexões mais amplas e gerais sobre a diplomacia e a política externa brasileira:

 

  1. Política externa e desenvolvimento: que horas o desenvolvimento chega? Uma nova política externa para uma nova estratégia de desenvolvimento

De modo a facilitar a leitura dos textos, o livro tem início com excelente análise de Felipe Antunes sobre os diferentes modelos de desenvolvimento adotados pelo Brasil nas últimas décadas e como eles têm influenciado os rumos da política externa. Segundo o autor, embora a busca pelo desenvolvimento seja uma constante em nossa agenda internacional, os caminhos para atingi-lo continuam objeto de disputa entre elites burocráticas, econômicas e políticas que não necessariamente refletem as aspirações da maioria da população brasileira, do que decorre a premência de democratizar os debates sobre nosso papel no mundo contemporâneo e de repensar os modelos de inserção a seguir.

Felipe Antunes de Oliveira – Bacharel em História (UFRJ), mestre em Diplomacia (IRBr) e doutorando em Relações Internacionais (Sussex University). Pesquisador do Centre For Global Political Economy. Diplomata desde 2010.

 

  1. Inserção internacional em um cenário de crise: A crise brasileira numa ordem global em transformação

O texto do professor Guilherme Casarões, diferentemente, avalia o processo de deterioração da política externa brasileira a partir de inflexões sobre recentes mudanças nas dinâmicas regionais de poder, no equilíbrio entre grandes potências e na configuração estratégica das parcerias brasileiras. Além de propor soluções alternativas para a crise atual, Casarões também apresenta comentários sobre o período de instabilidade pelo qual o Brasil está passando, e alerta para mudanças de rumo que vêm sendo verificadas, com impactos negativos ainda pouco compreendidos.

Guilherme Casarões Doutor e mestre pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) (Programa San Tiago Dantas). Leciona Relações Internacionais na Escola Superior de Propaganda e Marketing de São Paulo (ESPM-SP) e na FGV-SP.

 

  1. Os novos desafios da diplomacia brasileira: Reflexões sobre a diplomacia brasileira em tempos de globalização

Na mesma linha crítica e construtiva, o diplomata Gustavo Westmann introduz um debate atual sobre as recentes transformações da ordem global e suas consequências para a atividade diplomática tradicional. Ao indicar as dificuldades enfrentadas pelo Brasil para atender às demandas emergentes, o autor divide com o leitor suas opiniões sobre os avanços e retrocessos da política externa brasileira e sobre a crise do Itamaraty, sugerindo novos caminhos para a atuação do país no cenário internacional.

Gustavo Westmann – Diplomata desde 2007, bacharel em Direito (USP) e em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Mestre em Diplomacia (IRBr) e em Política Internacional (Luiss). Especialista em Direito Internacional Público pela UC Berkeley e pela The Hague Academy of International Law. Atualmente é chefe do setor econômico e comercial da embaixada do Brasil na Indonésia.

 

  1. Elitismo e política externa: Notas sobre os fundamentos aristocráticos (e oligárquicos) da política externa brasileira

Neste artigo, o professor Dawisson Belém Lopes baseia-se em vasto conhecimento acadêmico para desmascarar o elitismo político na diplomacia brasileira, indicando que nossa política externa continua sendo pensada e implementada por fração diminuta da sociedade e orientada por referenciais normativos ultrapassados, que dificultam a democratização do debate.

Dawisson Belém Lopes – Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

 

  1. A formação do conhecimento diplomático: Pensando devagar em diplomacia

Esse texto de Tiago Santos, afasta-se da literatura tradicional para abordar de maneira inovadora o processo de construção do conhecimento diplomático. Efetivamente, o autor questiona se esse conhecimento seria essencialmente pautado pela experiência ou por teorização e conclui que, apesar da primeira continuar sendo fundamental para as atividades de nossos diplomatas, nos dias de hoje é imprescindível associá-la a estratégias modernas de pesquisa e análise de bases teóricas e evidências empíricas.

Tiago Ribeiro dos Santos – Ingressou na carreira diplomática em 2007. É formado em Direito pela PUC-RJ e mestre em Políticas Públicas pela Harris School da Universidade de Chicago. Já esteve lotado nas Divisões de Nações Unidas e de Política Financeira do Ministério das Relações Exteriores e atualmente trabalha na embaixada do Brasil em Washington.

 

  1. O exercício do soft power brasileiro: A diplomacia do futuro e a alcunha do passado: o mito do soft power brasileiro

Hayle Gadelha, por sua vez, apresenta breve reflexão sobre as noções de soft power e diplomacia pública, analisando seus alcances e os benefícios que o Brasil poderá inferir de sua utilização planejada. De acordo com Gadelha, ao contrário de países como o Reino Unido, o governo brasileiro ainda não se vale de estratégias definidas para incrementar o potencial das reservas de soft power de que goza ou para converter esse poder em influência internacional. Defende, nesse sentido, uma diplomacia moderna, flexível e integrada à sociedade de rede, que seja capaz de implementar, em conjunto com a sociedade, abrangente plano de ação para o exercício do poder brando do país.

Hayle Gadelha – Adido cultural da embaixada do Brasil em Londres e doutorando pelo King’s College London. Trabalhou na embaixada do Brasil em Pequim e no Departamento de América do Sul-II do Itamaraty.

 

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PARTE II – Análises específicas sobre a atuação do Brasil em torno de temas que vêm ganhando crescente importância no cenário internacional do século XXI:

 

  1. Brasil e África: O recuo do Brasil na África: o desmantelamento da ofensiva de soft power do governo Lula

O segundo eixo do livro tem início com a pragmática leitura da jornalista Patrícia Campos Mello, autora que dispensa apresentações, sobre a política externa do Brasil para a África, indicando as perdas que o país vem sofrendo desde o desmantelamento da estratégia de Lula para o continente. O texto intitulado “O recuo do Brasil na África: o desmantelamento da ofensiva de soft power do governo Lula” argumenta a favor de uma política externa mais sólida e consistente para o continente, recordando não haver soft power sem recursos, planejamento e vontade política.

Patrícia Campos Mello – Repórter especial e colunista da Folha de S. Paulo. Formada em Jornalismo pela USP e mestre em Business and Economic Reporting pela Universidade de Nova York. Foi correspondente em Washington do jornal O Estado de S. Paulo e repórter do Valor Econômico e da Gazeta Mercantil, pelo qual foi correspondente na Alemanha. Foi vencedora do Prêmio Folha e Prêmio Estado. Venceu o Troféu Mulher Imprensa 2016, categoria melhor repórter de jornal.

 

  1. A fronteira asiática: Brasil, país Pacífico

Outro continente que vem assumindo importância central no sistema internacional e que, por isso mesmo, não poderia ficar de fora deste livro é a Ásia. E ninguém melhor do que um jovem diplomata residente no continente para discutir o tema. Em “Brasil, país Pacífico”, Flávio Campestrin Bettarello analisa a atuação do Brasil na vertente do Pacífico, evidenciando as limitações da agenda brasileira para a região e sugerindo que, não obstante a distância geográfica e as barreiras linguísticas e culturais, a Ásia deverá necessariamente receber maior atenção de nossos formuladores de política externa.

Flávio Campestrin Bettarello – Diplomata de carreira. Desde 2014, é o vice-observador permanente do Brasil com a Comissão Econômica e Social das Nações Unidas para a Ásia e Pacífico (UN-ESCAP) e conselheiro na embaixada do Brasil em Bangkok. Serviu na embaixada brasileira em Washington e foi professor titular de Economia Aplicada no Instituto Rio Branco. Concluiu programas de pós-graduação nas Universidades Johns Hopkins, LSE e UC Berkeley. Doutor em Ciências do Comportamento e mestre em Diplomacia.

 

  1. Cooperação para o desenvolvimento: O Brasil precisa de uma agência para o desenvolvimento internacional?

Felipe Krause dá continuidade ao livro por meio da apresentação de sólidos argumentos a favor da reforma e expansão das atividades do governo brasileiro nos campos da cooperação técnica e desenvolvimento internacional. Sustenta, por conseguinte, a criação de uma grande agência para o desenvolvimento internacional, com legislação e orçamento próprios, que permitam a elaboração de efetivo planejamento de longo prazo para a cooperação brasileira, ao contrário do que se observa atualmente.

Felipe Krause – Diplomata, atualmente cursando Ph.D. em Ciência Política e Relações Internacionais na Universidade de Cambridge, Reino Unido.

 

  1. A agenda de segurança alimentar e nutricional: Para uma nova geopolítica da fome: a segurança alimentar e nutricional na política externa brasileira

Em sintonia com as análises anteriores, Candice Sakamoto Vianna divide sua experiência profissional com o leitor para discutir mais amplamente a segurança alimentar e nutricional na diplomacia brasileira, apontando para importantes avanços do Brasil nesta agenda, apesar de ainda sujeitos a revezes. Ao criticar construtivamente a fragmentação do sistema de cooperação brasileiro e seus impactos na área de segurança alimentar, a autora reforça a necessidade de promover debates internos mais consistentes, que permitam avaliar os ganhos e perdas que uma política externa ativa na área poderá trazer para nossa sociedade.

Candice Sakamoto Vianna – Diplomata, mestre em Diplomacia pelo Instituto Rio Branco e bacharel em Administração pela Fundação Getulio Vargas. Trabalhou quatro anos na Representação Permanente do Brasil com as Agências das Nações Unidas em Roma, onde atuou como presidente do Grupo de Trabalho para o Marco Estratégico Global para Segurança Alimentar e Nutrição do Comitê de Segurança Alimentar Mundial. Atualmente é conselheira comissionada na embaixada do Brasil em Jacarta.

 

  1. Em defesa do desenvolvimento sustentável: Por um novo paradigma: a diplomacia brasileira para o desenvolvimento sustentável

Roberta Lima introduz, em seguida, importante transição temá- tica para abordar uma das pautas centrais do discurso internacional do Brasil nas últimas décadas: a promoção do desenvolvimento sustentável. Em “Por um novo paradigma: a diplomacia brasileira para o desenvolvimento sustentável”, a autora comenta os bastidores de grandes negociações internacionais sobre o tema e avalia a participa- ção brasileira na evolução da Agenda 2030 e nos Acordos de Paris. Destaca, contudo, que, apesar dos significativos avanços alcançados na construção mais democrática das posições brasileiras, ainda há muito espaço para ampliar e institucionalizar os canais de diálogo com outros órgãos da administração pública e da sociedade civil.

Roberta LimaDiplomata brasileira, graduada em Jornalismo pela UFRJ e mestre em História Política/Relações Internacionais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UERJ). No Itamaraty, tem-se dedicado principalmente a temas de meio ambiente, agricultura, desenvolvimento sustentável e cooperação internacional. Integrou a equipe negociadora da Conferência Rio+20.

 

  1. O futuro do regime climático: Legitimidade por natureza: a política externa brasileira e o regime climático

Diretamente relacionado à agenda de desenvolvimento, mas sem com ela se confundir, o regime de mudança do clima é tratado por Ilan E. Cuperstein com singular clareza e objetividade. “Legitimidade por natureza: a política externa brasileira e o regime climático” vai além do debate usual sobre o protagonismo brasileiro na área ambiental para alertar que a evolução do tema vem exigindo a revisão das posições adotadas pelo país no passado, com impactos significativos em nossas políticas para o setor. Cuperstein aproveita a oportunidade para discorrer sobre as principais convenções que regulam o regime climático e refletir sobre os novos desafios e oportunidades que se apresentam à nossa política externa.

Ilan E. CupersteinAssessor da C40 Cities Climate Leadership Group para a cidade do Rio de Janeiro. Antes da presente função, foi representante da Coppe/UFRJ no Centro Brasil China de Mudanças Climáticas e Tecnologias Inovadoras para Energia em Pequim por três anos. É formado em Relações Internacionais pela PUC/RJ e tem mestrado em Meio Ambiente e Desenvolvimento pela London School of Economics and Political Science.

 

  1. A diplomacia orçamentária nas Nações Unidas: Dívidas e dividendos: o Brasil e a área administrativa e orçamentária das Nações Unidas

Os últimos dois capítulos têm como elemento comum suas referências às Nações Unidas, desvendando temas não tradicionais em sua agenda, embora cada vez mais determinantes da conformação de poder global. Em tempos de críticas aos atrasos no cumprimento de nossas obrigações financeiras internacionais e de rediscussão sobre a participação do Brasil em diversos fóruns multilaterais, Fernando Zelner revela os mecanismos de agenda setting nas Nações Unidas com o conhecimento de quem lida diariamente com o tema e aprofunda a discussão sobre a relevância da participação financeira do Brasil em organismos internacionais.

Fernando ZelnerBacharel em Ciência Política pela Universidade de Brasília (UnB) e diplomata de carreira desde 2007. Atualmente, está locado na Missão Permanente do Brasil com as Nações Unidas.

 

  1. Governança da internet: Do marco civil às resoluções da ONU sobre privacidade digital: a política externa brasileira para a governança da internet como um jogo de dois níveis

Para encerrar o livro com um assunto que nos últimos anos vem atraindo grande atenção da mídia brasileira, dois jovens especialistas, Bruno de Moura Borges e Maurício Santoro, foram convidados a discorrer sobre a liderança do Brasil no processo de definição das regras globais de governança da internet. “Do marco civil às resoluções da ONU sobre privacidade digital: a política externa brasileira para a governança da internet como um jogo de dois níveis” permite compreender não apenas a relevância desta nova agenda, mas também os avanços logrados desde a criação do Marco Civil da internet, evidenciando que nossas posições ainda não estão consolidadas, sujeitas às incertezas da política nacional.

Bruno de Moura Borges e Maurício SantoroBruno é Ph.D. em Ciência Política (Duke University), doutor em Ciência Política (Iuperj) e professor-adjunto do Departamento de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Maurício é doutor em Ciência Política (Iuperj) e professor-adjunto do Departamento de Relações Internacionais da UERJ.