O Mundo em 3 Minutos: Cenário atual da relação Brasil-Israel

Estimadas e estimados,

Nesta semana, pudemos acompanhar a visita oficial do Presidente Jair Bolsonaro a Israel, mais um acontecimento de expressiva relevância para a política exterior brasileira. O evento foi realizado a convite do Primeiro-Ministro daquele país, Benjamin Netanyahu, e teve duração de quatro dias (31 de março a 3 de abril). Segundo o Ministério das Relações Exteriores (MRE), a ocasião possibilitou o início de “um novo capítulo na história das relações entre os dois países”, no qual os governos concordam em conferir um novo nível de prioridade às relações bilaterais.

A Declaração Conjunta emitida após o encontro dos dois chefes de Estado informa sobre negociações e assinatura de acordos em diversas áreas: energia; ciência, tecnologia e inovação; promoção comercial e investimentos; aviação civil; segurança pública; segurança cibernética; e defesa. Além disso, o documento aborda a posição do Brasil e de Israel em relação à situação na Venezuela, com reforço do reconhecimento de Juan Guaidó como o Presidente legítimo do país.

Um assunto que recebeu maior destaque internacional foi a decisão do governo brasileiro de estabelecer, em Jerusalém, um escritório para a promoção do comércio, investimento e tecnologia, coordenado pelo MRE. A repercussão se deu pelo fato de a cidade não ser reconhecida internacionalmente como a capital israelense, em virtude do histórico conflito territorial na região: enquanto Israel considera Jerusalém a capital indivisível do país, os palestinos não aceitam e reivindicam Jerusalém Oriental como capital de um futuro Estado da Palestina.

Neste novo episódio de O Mundo em 3 Minutos, o professor de Política Internacional Tanguy Baghdadi analisa a recente aproximação entre Brasil e Israel, destacando os desafios que se apresentam no Oriente Médio para a atual política externa brasileira. Assistam a seguir!

 

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O Mundo em 3 Minutos #16: A polêmica decisão dos EUA sobre Jerusalém

Digníssimos e Digníssimas,

Nesta semana, uma notícia ganhou destaque em todos os veículos de comunicação do mundo: o presidente estadunidense, Donald J. Trump, anunciou que seu país reconhece Jerusalém como a capital de Israel, e também informou que pretende transferir para lá a embaixada norte-americana, que se encontra em Tel-Aviv atualmente. Apesar de gerar significativas consequências para a política externa dos Estados Unidos, analistas acreditam que tal decisão se baseia em assuntos políticos internos, uma vez que uma das propostas de campanha de Trump foi justamente a mudança da localização da representação norte-americana no Estado israelense.

Essa posição, todavia, pode agravar ainda mais o histórico conflito entre israelenses e palestinos, que se estende há setenta anos. Com a aprovação da Resolução 181, recomendando a Partilha da Palestina, pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1947, determinou-se, além da criação de um Estado judeu e outro árabe, que Jerusalém ficasse sob um regime especial internacional. Entretanto, os árabes não aceitaram essa definição e, quando Israel declarou sua independência em 1948, foi iniciada a Guerra Árabe-Israelense. Ao término do confronto, Israel passou a controlar o território que lhe fora atribuído pela partilha, uma grande parte da área designada aos árabes, além da metade ocidental de Jerusalém.

Jerusalem Through Razor Wire

A Cidade Velha de Jerusalém, incluindo a Cúpula da Rocha e vários campanários da igreja, vistos através de bobinas de arame farpado, ilustrando a história da divisão e conflito da Terra Santa. (Foto: Agência EFE)

Duas décadas depois, com a eclosão da Guerra dos Seis Dias em 1967, Israel ocupou a Faixa de Gaza e a Cisjordânia, territórios nos quais mais de um milhão de palestinos passaram a ser controlados por uma administração militar. Ainda nesse ano, as forças israelenses também ocuparam a porção oriental de Jerusalém (considerada pelos palestinos a capital de seu futuro Estado), que estava sob domínio da Jordânia até então, e a cidade passou a ser integralmente reivindicada por Israel como sua capital. A área chamada de “Grande Jerusalém” pelos judeus, onde moram cerca de 150 mil israelenses, consiste numa série de assentamentos erguidos em território palestino ocupado. Dessa forma, a política de ocupação da Cisjordânia tornou inviável a fundação de um Estado palestino.

Nos inúmeros esforços de negociação de paz entre árabes e israelenses, a situação de Jerusalém sempre apareceu como um dos assuntos mais delicados. Por esse motivo, diversos países e organizações internacionais, incluindo os que reconhecem a existência do Estado israelense, reprovaram a decisão de Trump. Após a ocorrência de inflamados protestos na região, com um deles resultando na morte de uma pessoa, os membros do Conselho de Segurança da ONU se reuniram para uma reunião de emergência hoje (08/12). Na ocasião, todos os demais integrantes do órgão condenaram a postura dos EUA, sinalizando que o país violou três resoluções do Conselho sobre o status de Jerusalém.

Diante de toda a complexidade de uma decisão extremamente polêmica em nível mundial, convocamos o mestre de Política Internacional Tanguy Baghdadi para fazer um breve panorama da situação e explicar os desdobramentos da postura controversa dos Estados Unidos para a região e toda a comunidade internacional. Assistam e fiquem por dentro!

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Os 50 anos da Guerra dos Seis Dias

Minhas caras e meus caros,

Há cinquenta anos, o dia 10 de junho registrou o fim da Guerra dos Seis Dias (também conhecida como Terceira Guerra Árabe-Israelense), um conflito deflagrado entre Israel e uma frente de Estados árabes, composta pelo Egito, Jordânia e Síria e apoiada pelo Iraque, Kuwait, Arábia Saudita, Argélia e Sudão. Iniciado em 5 de junho de 1967, esse acontecimento possui duas características bem expressivas: foi a mais curta das guerras já travadas entre árabes e israelenses e, não obstante sua breve duração, o confronto resultou em mudanças geopolíticas decisivas para o futuro dos países envolvidos e do Oriente Médio como um todo.

“A Guerra dos Seis Dias é um dos capítulos mais importantes das instabilidades da região, pois foi o momento em que Israel ocupou territórios nos quais se pretende criar um Estado palestino (Cisjordânia e Faixa de Gaza), além de ter tomado um território da Síria, as Colinas de Golã, e um do Egito, a Península do Sinai. Apenas o último foi devolvido”, destaca o professor de Política Internacional Tanguy Baghdadi. “Um outro efeito é o de acirramento ainda maior das tensões entre árabes e israelenses, sobretudo pela ampla articulação promovida por países como Egito, Iraque e Síria, que foi derrotada com grande facilidade por Israel”, completa.

A partir do plano de partilha da Palestina, proposto pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1947, e o estabelecimento oficial do Estado de Israel, em 1948, as tensões entre árabes e israelenses se tornaram constantes. Durante os anos 1950 e 1960, houve uma forte ascensão do nacionalismo árabe, liderado pelo presidente do Egito, Gamal Abdel Nasser, e apoiado por outros chefes de Estado do Oriente Médio, sobretudo os da Síria e da Jordânia. Depois da chamada “guerra de independência” de 1948, a Crise de Suez (1956), decorrente do movimento nacionalista, foi o segundo confronto militar entre os dois grupos.

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(Bandeiras palestina e israelense)

O terceiro ápice da contenda árabe-israelense, ocorreu após um período de pouco mais de dez anos sem confrontos, e é possível dizer que suas causas remontam à Conferência do Cairo de 1964, onde, pela primeira vez, a Liga Árabe revelou que destruir Israel era seu principal objetivo. Nessa ocasião, também foi criada a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), que possuía como braços militares o Exército de Libertação da Palestina, sob o comando de vários países árabes, e o grupo de guerrilha independente Al Fatah. O clima de tensão na região aumentou consideravelmente quando essa organização passou a realizar operações militares contra Israel, utilizando uma base na Síria. Como represália a tais ações, as forças israelenses derrubaram seis caças sírios em Damasco em abril de 1967. Em seguida, Síria e Jordânia, que firmaram pactos de ajuda militar mútua em caso de guerra, pressionaram o Egito para agir em seu favor. Visando a manutenção de sua liderança no mundo árabe, o governo egípcio enviou tropas ao Deserto do Sinai, exigiu a retirada da Força de Emergência da ONU, que ocupava a região desde o fim da guerra de 1956, e enviou barcos armados para fechar o estreito de Tiran, no Golfo de Aqaba, à navegação israelense.

Esse foi o estopim para a deflagração da Guerra dos Seis Dias, na manhã de 5 de junho, a partir do ataque-relâmpago da Força Aérea Israelense (FAI) ao Egito, destruindo quase a totalidade de seus aviões de combate ainda em solo. No mesmo dia, após ofensivas da Síria e da Jordânia em Israel, a FAI também conseguiu devastar grande parte da força aérea desses países, chegando a um total de aproximadamente quatrocentos aviões árabes destruídos. No decorrer das batalhas, as forças israelenses cruzaram as fronteiras da Península do Sinai, conquistaram a cidade velha de Jerusalém – local sob o domínio jordaniano até então – e chegaram ao estreito de Tiran. Em seguida, as tropas de Israel alcançaram Rumani, região próxima ao canal de Suez, e, com o avanço sobre a fronteira da Jordânia, capturaram a Cisjordânia (porção jordaniana perto da divisa natural do rio Jordão). Por fim, em 9 de junho, o ministro israelense da Defesa ordenou um ataque à Síria, que resultou na ocupação das Colinas de Golã.

O Estado de Israel saiu amplamente vitorioso do conflito, tendo conquistado a Cisjordânia, Gaza, Jerusalém oriental, as colinas do Golã e a Península do Sinai. No entanto, argumenta-se que essa expansão territorial não fora planejada, bem como não possuía caráter definitivo. A respeito disso, o sociólogo Cláudio Camargo afirma que a Guerra dos Seis Dias foi um conflito que nenhuma das partes desejava e que, ao contrário do que possa parecer, careceu de planejamento político e estratégico por parte de Israel, embora muitos analistas árabes acreditassem que o conflito fora deliberadamente provocado pelos israelenses para expandir seu território. Contudo, a conquista e ocupação da Cisjordânia e das Colinas de Golã foram definidos ao longo das batalhas e não estavam nos planos iniciais dos estrategistas israelenses.

guerra-dos-seis-diasO acordo de paz proposto por Israel ao Egito e à Síria dias depois da guerra sustenta esse pensamento sobre o desenrolar do conflito. A proposta israelense incluía as seguintes ações: retirada das tropas israelenses das áreas ocupadas desde que fossem garantidas a liberdade de navegação no estreito de Tiran e no canal de Suez; desmilitarização da Península do Sinai e das Colinas do Golã; não-interferência no escoamento de água das nascentes do rio Jordão e, em relação à Cisjordânia, a opção de dar autonomia aos palestinos, mas manter o território sob controle israelense, ou devolver parte dele à Jordânia. Entretanto, numa conferência realizada em agosto de 1967, a cúpula árabe decidiu não reconhecer o Estado de Israel e não realizar negociações com esse. Tal postura contribuiu para o fortalecimento dos expansionistas defensores do “Grande Israel”, que anexaram Jerusalém Leste e as Colinas de Golã ao seu território e mantiveram as ocupações na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, realizando assentamentos judaicos. Desde então, a hostilidade histórica entre árabes e israelenses se reforçou e o Oriente Médio se tornou uma região ainda mais instável em termos geopolíticos.

A Guerra dos Seis Dias foi um acontecimento marcante nas Relações Internacionais e seus efeitos são verificados até os dias de hoje. Por isso, esse é um tema que, não raro, aparece de forma direta ou indireta nos concursos de carreiras internacionais, sobretudo naqueles cujos editais incluem Política Internacional (PI) – como o Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD) – ou Atualidades/Conhecimentos Gerais, como a seleção para Oficial de Chancelaria por exemplo.

A respeito disso, nosso grande mestre de PI Tanguy Baghdadi salienta: “a tendência do CACD nos últimos anos tem sido a cobrança de temas relacionados a contextos regionais específicos, e o Oriente Médio é sempre uma possibilidade, como tem mostrado as últimas provas. Esse evento, que completa 50 anos, é basilar na composição do Oriente Médio atual e compreendê-lo é necessário para bem interpretar a atual configuração da região. A partir da compreensão da Guerra dos Seis Dias, podemos avaliar eventos como a assinatura de um acordo de paz entre Egito e Israel – e a consequente perda de liderança por parte deste país árabe – a instalação de assentamentos israelenses em territórios palestinos e a radicalização de parte da resistência palestina, para mencionar alguns exemplos”. Em relação as outras provas, o professor destaca que “os demais concursos de carreiras internacionais também tendem a ser sensíveis a temas de atualidades, e a Guerra dos Seis Dias é um dos fundamentos do Oriente Médio atual”.

Sendo assim, pupilos e pupilas, é importante atentar para esse assunto durante os estudos não só de História Geral, mas também para o aprendizado de Política Internacional! Para ajudá-los (as) nessa tarefa, o professor Tanguy deixa ainda uma dica preciosa: “como o estudo para concursos públicos exige foco, indico o livro do professor Márcio Scalércio, chamado “Oriente Médio: uma análise reveladora sobre dois povos condenados a conviver”. Agora, é só correr para a leitura, meus queridos! 😉

 

Fonte: CAMARGO, Cláudio. “Guerras Árabes-Israelenses”. In: MAGNOLI, Demétrio. História das Guerras. São Paulo: Contexto, 2006.

 

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