Folia e Diplomacia: uma homenagem a grandes diplomatas do Brasil!

Minhas queridas e meus queridos,

O carnaval deste ano começa oficialmente amanhã. Como vão passar os próximos quatro dias: celebrando e refrescando a cuca ou aproveitando o tempo livre para pôr os estudos em dia?

Seja como for, uma coisa é certa: a diplomacia está sempre presente nas nossas vidas! Por isso, aproveitei a ocasião festiva para unir esses dois universos e relembrar a história de grandes diplomatas do Brasil, e também presentear vocês com uma lembrancinha carnavalesca!

Vejam a trajetória de cada uma dessas personalidades fundamentais da nossa Diplomacia nos textos a seguir… depois, baixem a máscara daqueles (as) que vocês mais admiram para incrementar sua fantasia para a folia – ou animar o ambiente de estudos!

José Maria da Silva Paranhos Junior, o Barão do Rio Branco, é o patrono da Diplomacia Brasileira. Além de diplomata, foi advogado, jornalista, professor e político, e 20 de abril, a data de seu nascimento, passou a ser utilizada para comemorar o Dia do Diplomata. Ele também foi homenageado na criação do Instituto Rio Branco (IRBr) – instituição responsável pela formação dos (as) diplomatas brasileiros (as) – em 1945.

O título de patrono da nossa diplomacia se deve ao papel desempenhado na resolução de importantes conflitos territoriais entre o Brasil e países vizinhos de forma pacífica, tais como a de Santa Catarina e do Paraná, em litígio com a Argentina, no que ficou conhecido como a Questão de Palmas em 1895, e do Amapá em disputa com a França em 1900. Entretanto, a obra pela qual ele ficou mais conhecido foi o “Tratado de Petrópolis” firmado com a Bolívia, que culminou com a incorporação do Acre ao território brasileiro em 1903.

Em 1902, Rio Branco assumiu o cargo de Ministro das Relações Exteriores, no qual permaneceu até a morte, em 1912. Nas negociações das questões fronteiriças, erigiu como bandeira das reivindicações o princípio do uti possidetis solis, e, assim, resolveu velhas disputas do Brasil com quase todos os países da América do Sul por meio de uma série de tratados importantes. Além da solução dos problemas territoriais, Rio Branco lançou as bases de uma nova política externa, adaptada às necessidades do Brasil moderno. Foi o principal responsável por colocar o Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) em lugar de destaque na burocracia republicana no início do século XX. Seu prestígio era tanto que, em 1909, seu nome foi até sugerido para a sucessão presidencial do ano seguinte.

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Maria José Rebello Mendes foi a primeira mulher diplomata e a primeira funcionária pública concursada do Brasil, sendo aprovada em primeiro lugar no concurso da Secretaria de Estado do Ministério das Relações Exteriores (MRE), em 1918. Quando criança, teve a formação elementar em casa pela educadora alemã Matilthe Schröeder e, depois, ingressou no Colégio Alemão, onde se formou com fluência nas línguas alemã, inglesa, francesa e italiana. Ao tomar conhecimento do concurso para o Itamaraty, decidiu inscrever-se e passou a frequentar a Escola de Comércio para se aperfeiçoar em Datilografia, Contabilidade e Economia e estudou por conta própria as matérias de Direito. No entanto, apesar de todo esforço, seu pedido de inscrição não foi aceito pelo MRE.

Sensibilizado com a história de sua conterrânea, o jurista Rui Barbosa elaborou um parecer argumentando a inconstitucionalidade da negativa do Ministério e o então Ministro das Relações Exteriores Nilo Peçanha voltou atrás e deferiu a inscrição da candidata. Com isso, em setembro de 1918, a jovem conseguiu se classificar em primeiro lugar para o cargo que disputava e passou a compor o corpo diplomático do MRE.

Maria José assumiu as funções do serviço diplomático no Itamaraty e trabalhou normalmente, sem chamar mais atenção por ser mulher. Em 1922, casou-se com o diplomata Henrique Pinheiro de Vasconcelos. Em seguida, ele foi indicado para a representação brasileira na Alemanha e Maria José solicitou licença no MRE para acompanhá-lo. Em 1934, Maria José solicitou sua aposentadoria, pois Henrique havia sido nomeado para o cargo de conselheiro da embaixada brasileira na Bélgica. Na época, por determinações administrativas, era proibido que uma mulher diplomata assumisse um cargo na mesma representação que seu marido.

A trajetória de Maria José foi fundamental para o avanço dos direitos das mulheres na carreira de diplomata. Entre 1919 e 1938, mais dezenove mulheres ingressaram no serviço diplomático brasileiro.

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Osvaldo Aranha foi advogado, político e diplomata, considerado um dos homens mais importantes do seu tempo. Formou-se pela Faculdade de Direito do Rio de Janeiro em 1916. Anos depois, tornou-se aliado de Getúlio Vargas e participou das articulações que resultaram na deposição de Washington Luís da Presidência da República, por meio de golpe militar, e no início da Revolução de 1930. Durante o Governo Provisório, foi Ministro da Justiça e Negócios Interiores e Ministro da Fazenda, e participou da Assembleia Nacional Constituinte na condição de membro nato por ser ministro de Estado.

Em 1934, assumiu o posto de embaixador do Brasil nos Estados Unidos, onde atuou até 1937. Foi Ministro das Relações Exteriores de 1938 a 1944, período em que promoveu uma política de aproximação aos Estados Unidos, que começou com a assinatura de acordos comerciais e levou ao alinhamento brasileiro ao governo estadunidense durante a Segunda Guerra Mundial.

Em fevereiro de 1947, Aranha foi nomeado chefe da delegação brasileira na recém-criada ONU e ocupou o posto destinado ao Brasil no Conselho de Segurança da entidade. Em abril do mesmo ano, abriu e presidiu a I Sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, inaugurando a tradição de o Brasil ser o primeiro país a discursar na reunião, seguida até hoje pela Organização. Também presidiu a sessão especial de 29 de novembro de 1947, na qual foi votado o Plano para partilha da Palestina, que abriu caminho para a criação do Estado de Israel e também previa a formação de um Estado Palestino. Devido a essa destacada atuação, ainda em 1947, o diplomata brasileiro foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz.

Nas eleições presidenciais que se seguiram ao fim do Estado Novo, teve seu nome cogitado como candidato por diversas vezes. Em junho de 1953, voltou a assumir o Ministério da Fazenda, porém, deixou o cargo logo após a morte de Vargas. Em 1957, durante o governo de Juscelino Kubitscheck, chefiou novamente a delegação brasileira na Assembleia Geral da ONU.

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A cientista e diplomata Bertha Lutz foi uma das principais responsáveis pela inclusão das temáticas de gênero na Organização das Nações Unidas (ONU). Graduou-se em Ciências Naturais na Faculdade de Ciências da Universidade de Paris (Sorbonne). Prestou concurso para o cargo de secretária do Museu Nacional, passou em primeiro lugar e foi nomeada por decreto, tornando-se a segunda mulher a ocupar um cargo público no país, em 1919.

Bertha atuou na defesa dos direitos políticos e sociais das mulheres no Brasil e no mundo, sendo o direito do voto e a emancipação da mulher seus principais objetivos. Em 1933, formou-se em Direito pela Faculdade de Direito do Rio de Janeiro e, nos anos seguintes, participou de diversos eventos e atividades internacionais de grande importância. Foi a única mulher a integrar a delegação do Brasil na Conferência de São Francisco, na qual foi redigida a Carta das Nações Unidas, o documento que originou a ONU em 1945. Na ocasião, procurou impulsionar a igualdade entre homens e mulheres na agenda da instituição e como princípio universal. Graças à insistência das representantes latino-americanas presentes na Conferência, lideradas por Bertha, a Carta foi um dos primeiros tratados internacionais a mencionar em seu texto a necessidade de equidade entre os gêneros.

Foi premiada com o título de Mulher das Américas em 1951 e, no ano seguinte, representou o Brasil na Comissão de Estatutos da Mulher das Nações Unidas, criada por sua iniciativa. Em 1953, foi eleita delegada do Brasil junto à Comissão Interamericana de Mulheres da União Panamericana de Repúblicas (atual Organização dos Estados Americanos). Seu último ato em prol da melhoria da condição feminina foi no I Congresso Internacional da Mulher, realizado no México, em 1975.

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Escritor e diplomata, João Guimarães Rosa foi uma das personalidades mais influentes do meio intelectual brasileiro no século XX. Graduou-se em Medicina pela Universidade de Minas Gerais, porém, exerceu a profissão somente por quatro anos, até decidir prestar o concurso para o Itamaraty em 1934, sendo aprovado em segundo lugar. Em 1937, foi promovido a Cônsul de Segunda Classe, e sua remoção para o Consulado do Brasil em Hamburgo ocorreu no ano seguinte. Nesse posto, ele e sua esposa, Aracy de Carvalho, ofereceram auxílio para que judeus pudessem escapar do regime nazista rumo ao Brasil, de 1938 a 1942, autorizando um número maior de vistos do que aqueles legalmente permitidos durante o Governo de Getúlio Vargas.

Após sua crucial atuação na Alemanha, exerceu a função de secretário de embaixada em Bogotá de 1942 a 1944, e foi chefe de gabinete do ministro João Neves da Fontoura em 1946. Em Paris, ocupou os cargos de primeiro-secretário e conselheiro de embaixada (1948-51); secretário da Delegação do Brasil à Conferência da Paz (1948); representante do Brasil na Sessão Extraordinária da Conferência da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) (1948) e delegado do Brasil à IV Sessão da Conferência Geral da Unesco (1949).

De volta ao Brasil, em 1951, Guimarães Rosa foi nomeado novamente chefe de gabinete do ministro João Neves da Fontoura. Dois anos depois, tornou-se chefe da Divisão de Orçamento e foi promovido a ministro de primeira classe. Em 1962, assumiu a chefia do Serviço de Demarcação de Fronteiras.

Baixe a máscara do Guimarães Rosa aqui!

Um dos maiores poetas e compositores em língua portuguesa, Vinicius de Moraes foi também diplomata de carreira. Concluiu o curso de Direito da Faculdade Nacional do Rio de Janeiro em 1933, porém, não exerceu a advocacia. Em 1938, recebeu uma bolsa do Conselho Britânico para estudar Literatura Inglesa no Magdalen College da Universidade de Oxford e mudou-se para Londres. Nessa cidade, também trabalhou como assistente do programa brasileiro da BBC até 1939, quando retornou ao Brasil. Em 1941, começou a estudar para o concurso do Itamaraty e também iniciou a carreira jornalística, como crítico cinematográfico no jornal A Manhã.

Após ser reprovado na primeira tentativa de ingressar na carreira diplomática, em 1942, Vinicius passou no concurso no ano seguinte. Assumiu o primeiro posto em 1946, como vice-cônsul em Los Angeles. Em 1953, foi indicado para o posto de segundo-secretário na Embaixada do Brasil em Paris e, logo depois, passou a trabalhar na delegação brasileira junto a UNESCO, também na capital francesa. Seu posto seguinte foi a Embaixada Brasileira em Montevidéu, para onde foi transferido em 1957. Retornou ao Brasil, em 1960, para servir na Secretaria de Relações Exteriores e também se dedicar aos lançamentos literários. Três anos depois, assumiu novamente um posto na delegação do Brasil na UNESCO, em Paris.

O poeta regressou ao Brasil após a instauração do regime militar, em 1964, e passou a se dedicar definitivamente à vida de cantor e a se afastar da carreira diplomática. Em dezembro de 1968, após a publicação do Ato Institucional nº 5, Vinicius fez a leitura de seu poema “Pátria minha”, como forma de protesto, durante um show em Portugal. No ano seguinte, foi exonerado do Itamaraty após uma ordem direta do Presidente Arthur Costa Silva.

Em 2010, o Congresso Nacional aprovou a promoção póstuma do diplomata ao cargo de Ministro de Primeira Classe (Embaixador) e a lei foi sancionada pelo Presidente Luís Inácio Lula da Silva. O chanceler à época, Celso Amorim, declarou que a homenagem representa “um reconhecimento a sua enorme contribuição à divulgação da imagem do Brasil no exterior”, e que Vinicius “foi, sem dúvida, um grande Embaixador da cultura popular brasileira”.

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Celso Luiz Nunes Amorim é considerado um dos maiores diplomatas brasileiros dos últimos anos, tendo ocupado o cargo de Ministro das Relações Exteriores por duas vezes. Concluiu o curso de preparação à carreira de diplomata no Instituto Rio Branco em 1964, e formou-se Mestre em Relações Internacionais na Academia Diplomática de Viena em 1967. Removido para Londres, trabalhou como cônsul-adjunto de 1968 a 1969. Nos anos seguintes, serviu na Embaixada do Brasil em Londres e realizou o Doutorado em Ciência Política e Relações Internacionais da London School of Economics and Political Science. Durante os anos 1970 e 1980, participou de diversas atividades de relevância em âmbito nacional e internacional. Ademais, foi professor de Expressão e Redação Profissional no Instituto Rio Branco e de Ciência Política e Relações Internacionais na Universidade de Brasília (UnB).

Entre 1990 e 1991, Amorim atuou como Chefe do Departamento Econômico do Itamaraty, e chefiou as equipes do Brasil que negociaram o Tratado de Assunção – documento que originou o Mercosul. Em seguida, foi nomeado representante permanente do Brasil junto às organizações internacionais sediadas em Genebra, entre as quais o GATT. Em 1993, assumiu o cargo de Ministro das Relações Exteriores, que exerceu até 1995. Foi durante esse período que o Brasil explicitou sua intenção de participar ativamente de uma reforma na composição dos membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU. Chefiou a missão permanente do Brasil na ONU, em Nova Iorque, entre 1995 e 1999. Logo depois, tornou-se chefe da missão brasileira junto à Organização Mundial do Comércio (OMC), em Genebra. Em 2001, assumiu o posto de Embaixador em Londres, e foi um dos representantes da delegação brasileira à IV Conferência da OMC, em Doha.

Entre 2003 e 2010, o diplomata exerceu novamente o cargo de Ministro das Relações Exteriores. Nessa segunda gestão, incluiu entre os objetivos da política externa brasileira a luta contra a fome, a pobreza e o unilateralismo. Também incentivou coalizões importantes para o Brasil: o G-20 (ou G-20 comercial); o G-3 ou IBSA (Índia, Brasil e África do Sul); o G-4, reunindo Alemanha, Brasil, Índia e Japão na luta para tornar o Conselho de Segurança da ONU mais representativo; e o grupo dos BRICs – Brasil, Rússia, Índia e China.

Seu último cargo governamental foi o de Ministro da Defesa, exercido no período de agosto de 2011 até janeiro de 2015.

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Maria Luiza Viotti ingressou no Serviço Exterior Brasileiro em 1976, atuando na área de promoção das relações comerciais brasileiras com a China e países africanos. Graduou-se em Economia pela Universidade de Brasília (UnB), e também possui pós-graduação nessa área pela mesma instituição. Sua atuação no exterior começou pela Missão do Brasil junto às Nações Unidas no período de 1985 a 1988. Posteriormente, atuou no âmbito de assuntos multilaterais e como coordenadora executiva do gabinete do Ministro das Relações Exteriores. Em 1993, foi nomeada para a Embaixada do Brasil em La Paz, Bolívia, onde dirigiu o setor econômico até 1995. No ano seguinte, tornou-se Chefe da Divisão América do Sul I no Ministério das Relações Exteriores do Brasil (MRE), encarregada das relações com a Argentina, Uruguai, Paraguai e Chile, e, em 1999, foi indicada novamente para atuar na Missão do Brasil junto à ONU até 2004. Dentre os demais cargos ocupados no MRE, estão o de Diretora-Geral do Departamento de Direitos Humanos e Assuntos Sociais (2004-06) e de Diretora-Geral do Departamento de Organizações Internacionais (2006-07).

Viotti exerceu a função de Representante Permanente do Brasil junto às Nações Unidas de 2007 a 2013, sendo a primeira mulher a chefiar a Missão em Nova York. Liderou a delegação do Brasil junto ao Conselho de Segurança em 2010 e 2011 e ocupou a presidência rotativa do Conselho de Segurança em fevereiro de 2011. Atuou como Embaixadora na Alemanha (2013-2016) e, em seguida, foi subsecretária para Ásia e Pacífico do MRE, onde teve especial responsabilidade pelo trabalho com os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul).

No final de 2016, o atual Secretário-Geral da ONU, António Guterres, designou Maria Luiza Viotti como sua chefe de gabinete, cargo que ela ocupa até os dias de hoje.

Baixe a máscara da Maria Luiza aqui!

Bom carnaval, ou bons estudos, meus caros! 😃

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O Internacional em Debate #8: História e Atualidade da Migração Médio-Oriental para o Brasil

Caras e caros aprendizes,

Nos últimos anos, o fluxo migratório do Oriente Médio para o Brasil ganhou um importante destaque, sobretudo após o agravamento da Guerra Civil Síria e o consequente aumento do número de cidadãos dessa região que solicitam refúgio ao governo brasileiro. Essa situação se explica, em grande medida, pela normativa lançada em 2013 pelo Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), que facilitou a concessão de vistos especificamente para sírios. A partir disso, as embaixadas brasileiras em países próximos à Síria registram ter recebido quatro vezes mais pedidos de visto.

Não obstante essa recente onda imigratória, a entrada de migrantes médio-orientais no Brasil tem uma origem bem mais antiga. Registra-se que esse movimento começou na metade do século XIX, ainda na época do Império, quando inicialmente chegaram os comerciantes palestinos cristãos, que vinham vender produtos religiosos da Terra Santa. O maior fluxo, porém, ocorreu a partir da década de 1870, especialmente após uma viagem de D. Pedro II pelo Império Otomano, que detinha boa parte do território que hoje conhecemos como Oriente Médio, entre 1876 e 1877. Documentos mostram que o Imperador brasileiro passou uma boa imagem de seu país aos árabes da província otomana da Grande Síria, e isso teria influenciado sua decisão de emigrar para o Brasil em busca de melhores condições de vida.

A primeira grande leva imigratória, então, teve início em 1876 e perdurou até meados de 1914, sendo sua maioria composta por sírios e libaneses de religião cristã, com diversas subdivisões internas. Posteriormente, eventos impactantes para a região do Oriente Médio, como a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), os conflitos árabes-israelenses (a partir de 1948) e a Guerra Civil Libanesa (1975 e 1990), estabeleceram novas condições para a chegada dos cidadãos médio-orientais no Brasil: se antes eles vinham como migrantes, agora passariam a possuir o status de refugiados. Ademais, o perfil religioso da diáspora tornou-se mais diversificado, com destaque para um número maior de muçulmanos neste segundo fluxo de imigrações.

No século XXI, dois acontecimentos importantes também contribuíram para o movimento migratório do Oriente Médio para o Brasil. Foram eles: a Guerra do Hezbollah em 2006, e, mais recentemente, a Guerra Civil Síria, que teve início em 2011 e perdura até os dias de hoje.

Para entendermos melhor os desdobramentos de todos esses marcos históricos, bem como a atual presença de imigrantes médio-orientais em nosso país, realizamos a oitava edição de O Internacional em Debate, com a especialíssima participação da professora Monique Sochaczewski, historiadora especializada em Oriente Médio, e do refugiado sírio Adel Bakkour, que está no Brasil desde 2012 e é professor de Árabe. A seguir, vocês podem conferir a íntegra dessa conversa fantástica, repleta de aprendizados e inspirações!

 

* O livro “Do Rio de Janeiro a Istambul – contrastes e conexões entre o Brasil e o Império Otomano (1850‑1919)”, mencionado pela professora Monique no início do debate, pode ser obtido em PDF gratuitamente nesta página da Funag.

 

Participação especial neste post:

Adel Bakkour – Cursou, parcialmente, a graduação de Química na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Atualmente, é aluno do curso de Relações Internacionais nesta mesma instituição. Natural da cidade síria de Aleppo, chegou ao Brasil em 2012 na condição de refugiado e reside no Rio de Janeiro desde então. Leciona aulas de Árabe no projeto Abraço Cultural, apoiado pelo Programa de Atendimento a Refugiados e Solicitantes de Refúgio (PARES) da Cáritas-RJ.

Monique Sochaczewski – Possui doutorado e pós-doutorado em História pela Fundação Getúlio Vargas. Lecionou por anos na mesma instituição bem como no Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME), entre outras instituições cariocas de ensino superior. É autora do livro “Do Rio de Janeiro a Istambul: Contrastes e Conexões entre o Brasil e o Império Otomano (1850-1919)” (Brasília: FUNAG, 2017) e fellow do Summer Institute for Israel Studies, da Brandeis University (EUA). Tem larga experiência nas áreas de História e Relações Internacionais, com interesse em especial por questões relacionadas à História Global, à História Pública, ao Oriente Médio e ao Cáucaso do Sul.

Os 50 anos da Guerra dos Seis Dias

Minhas caras e meus caros,

Há cinquenta anos, o dia 10 de junho registrou o fim da Guerra dos Seis Dias (também conhecida como Terceira Guerra Árabe-Israelense), um conflito deflagrado entre Israel e uma frente de Estados árabes, composta pelo Egito, Jordânia e Síria e apoiada pelo Iraque, Kuwait, Arábia Saudita, Argélia e Sudão. Iniciado em 5 de junho de 1967, esse acontecimento possui duas características bem expressivas: foi a mais curta das guerras já travadas entre árabes e israelenses e, não obstante sua breve duração, o confronto resultou em mudanças geopolíticas decisivas para o futuro dos países envolvidos e do Oriente Médio como um todo.

“A Guerra dos Seis Dias é um dos capítulos mais importantes das instabilidades da região, pois foi o momento em que Israel ocupou territórios nos quais se pretende criar um Estado palestino (Cisjordânia e Faixa de Gaza), além de ter tomado um território da Síria, as Colinas de Golã, e um do Egito, a Península do Sinai. Apenas o último foi devolvido”, destaca o professor de Política Internacional Tanguy Baghdadi. “Um outro efeito é o de acirramento ainda maior das tensões entre árabes e israelenses, sobretudo pela ampla articulação promovida por países como Egito, Iraque e Síria, que foi derrotada com grande facilidade por Israel”, completa.

A partir do plano de partilha da Palestina, proposto pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1947, e o estabelecimento oficial do Estado de Israel, em 1948, as tensões entre árabes e israelenses se tornaram constantes. Durante os anos 1950 e 1960, houve uma forte ascensão do nacionalismo árabe, liderado pelo presidente do Egito, Gamal Abdel Nasser, e apoiado por outros chefes de Estado do Oriente Médio, sobretudo os da Síria e da Jordânia. Depois da chamada “guerra de independência” de 1948, a Crise de Suez (1956), decorrente do movimento nacionalista, foi o segundo confronto militar entre os dois grupos.

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(Bandeiras palestina e israelense)

O terceiro ápice da contenda árabe-israelense, ocorreu após um período de pouco mais de dez anos sem confrontos, e é possível dizer que suas causas remontam à Conferência do Cairo de 1964, onde, pela primeira vez, a Liga Árabe revelou que destruir Israel era seu principal objetivo. Nessa ocasião, também foi criada a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), que possuía como braços militares o Exército de Libertação da Palestina, sob o comando de vários países árabes, e o grupo de guerrilha independente Al Fatah. O clima de tensão na região aumentou consideravelmente quando essa organização passou a realizar operações militares contra Israel, utilizando uma base na Síria. Como represália a tais ações, as forças israelenses derrubaram seis caças sírios em Damasco em abril de 1967. Em seguida, Síria e Jordânia, que firmaram pactos de ajuda militar mútua em caso de guerra, pressionaram o Egito para agir em seu favor. Visando a manutenção de sua liderança no mundo árabe, o governo egípcio enviou tropas ao Deserto do Sinai, exigiu a retirada da Força de Emergência da ONU, que ocupava a região desde o fim da guerra de 1956, e enviou barcos armados para fechar o estreito de Tiran, no Golfo de Aqaba, à navegação israelense.

Esse foi o estopim para a deflagração da Guerra dos Seis Dias, na manhã de 5 de junho, a partir do ataque-relâmpago da Força Aérea Israelense (FAI) ao Egito, destruindo quase a totalidade de seus aviões de combate ainda em solo. No mesmo dia, após ofensivas da Síria e da Jordânia em Israel, a FAI também conseguiu devastar grande parte da força aérea desses países, chegando a um total de aproximadamente quatrocentos aviões árabes destruídos. No decorrer das batalhas, as forças israelenses cruzaram as fronteiras da Península do Sinai, conquistaram a cidade velha de Jerusalém – local sob o domínio jordaniano até então – e chegaram ao estreito de Tiran. Em seguida, as tropas de Israel alcançaram Rumani, região próxima ao canal de Suez, e, com o avanço sobre a fronteira da Jordânia, capturaram a Cisjordânia (porção jordaniana perto da divisa natural do rio Jordão). Por fim, em 9 de junho, o ministro israelense da Defesa ordenou um ataque à Síria, que resultou na ocupação das Colinas de Golã.

O Estado de Israel saiu amplamente vitorioso do conflito, tendo conquistado a Cisjordânia, Gaza, Jerusalém oriental, as colinas do Golã e a Península do Sinai. No entanto, argumenta-se que essa expansão territorial não fora planejada, bem como não possuía caráter definitivo. A respeito disso, o sociólogo Cláudio Camargo afirma que a Guerra dos Seis Dias foi um conflito que nenhuma das partes desejava e que, ao contrário do que possa parecer, careceu de planejamento político e estratégico por parte de Israel, embora muitos analistas árabes acreditassem que o conflito fora deliberadamente provocado pelos israelenses para expandir seu território. Contudo, a conquista e ocupação da Cisjordânia e das Colinas de Golã foram definidos ao longo das batalhas e não estavam nos planos iniciais dos estrategistas israelenses.

guerra-dos-seis-diasO acordo de paz proposto por Israel ao Egito e à Síria dias depois da guerra sustenta esse pensamento sobre o desenrolar do conflito. A proposta israelense incluía as seguintes ações: retirada das tropas israelenses das áreas ocupadas desde que fossem garantidas a liberdade de navegação no estreito de Tiran e no canal de Suez; desmilitarização da Península do Sinai e das Colinas do Golã; não-interferência no escoamento de água das nascentes do rio Jordão e, em relação à Cisjordânia, a opção de dar autonomia aos palestinos, mas manter o território sob controle israelense, ou devolver parte dele à Jordânia. Entretanto, numa conferência realizada em agosto de 1967, a cúpula árabe decidiu não reconhecer o Estado de Israel e não realizar negociações com esse. Tal postura contribuiu para o fortalecimento dos expansionistas defensores do “Grande Israel”, que anexaram Jerusalém Leste e as Colinas de Golã ao seu território e mantiveram as ocupações na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, realizando assentamentos judaicos. Desde então, a hostilidade histórica entre árabes e israelenses se reforçou e o Oriente Médio se tornou uma região ainda mais instável em termos geopolíticos.

A Guerra dos Seis Dias foi um acontecimento marcante nas Relações Internacionais e seus efeitos são verificados até os dias de hoje. Por isso, esse é um tema que, não raro, aparece de forma direta ou indireta nos concursos de carreiras internacionais, sobretudo naqueles cujos editais incluem Política Internacional (PI) – como o Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD) – ou Atualidades/Conhecimentos Gerais, como a seleção para Oficial de Chancelaria por exemplo.

A respeito disso, nosso grande mestre de PI Tanguy Baghdadi salienta: “a tendência do CACD nos últimos anos tem sido a cobrança de temas relacionados a contextos regionais específicos, e o Oriente Médio é sempre uma possibilidade, como tem mostrado as últimas provas. Esse evento, que completa 50 anos, é basilar na composição do Oriente Médio atual e compreendê-lo é necessário para bem interpretar a atual configuração da região. A partir da compreensão da Guerra dos Seis Dias, podemos avaliar eventos como a assinatura de um acordo de paz entre Egito e Israel – e a consequente perda de liderança por parte deste país árabe – a instalação de assentamentos israelenses em territórios palestinos e a radicalização de parte da resistência palestina, para mencionar alguns exemplos”. Em relação as outras provas, o professor destaca que “os demais concursos de carreiras internacionais também tendem a ser sensíveis a temas de atualidades, e a Guerra dos Seis Dias é um dos fundamentos do Oriente Médio atual”.

Sendo assim, pupilos e pupilas, é importante atentar para esse assunto durante os estudos não só de História Geral, mas também para o aprendizado de Política Internacional! Para ajudá-los (as) nessa tarefa, o professor Tanguy deixa ainda uma dica preciosa: “como o estudo para concursos públicos exige foco, indico o livro do professor Márcio Scalércio, chamado “Oriente Médio: uma análise reveladora sobre dois povos condenados a conviver”. Agora, é só correr para a leitura, meus queridos! 😉

 

Fonte: CAMARGO, Cláudio. “Guerras Árabes-Israelenses”. In: MAGNOLI, Demétrio. História das Guerras. São Paulo: Contexto, 2006.

 

Participação especial neste post:

A variação da Língua Portuguesa ao longo do tempo

[Atualizado em maio/2020]

 

Mancebos e moçoilas,

No último dia 05, foi comemorado o Dia da Língua Portuguesa e da Cultura na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). A data foi instituída pela organização em 20 de julho de 2009, por resolução da XIV Reunião Ordinária do Conselho de Ministros da CPLP, na Cidade da Praia, Cabo Verde. O documento dessa definição afirma que a Língua Portuguesa é “um vínculo histórico e um patrimônio comum resultantes de uma convivência multissecular que deve ser valorizada”. Eu concordo em gênero, número e grau! Afinal de contas, registra-se que essa língua é hoje o quinto idioma mais falado no mundo, a terceira mais falada no hemisfério ocidental e a mais falada no hemisfério sul – com milhões de falantes em todos os continentes.

Em 2019, a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) ratificou o dia 5 de maio como Dia Mundial da Língua Portuguesa. A decisão ocorreu no dia 25 de novembro, em Paris, durante a assembleia-geral da Unesco.

lingua10Além de 05 de maio, o dia da última flor do Lácio – como diria meu grande amigo Olavo Bilac – também é celebrado em duas outras datas: 10 de junho e 5 de novembro. A primeira é comemorada nos países lusófonos e foi instituída pela Assembleia da República de Portugal, em 1981, como homenagem ao autor Luís Vaz de Camões, cujo falecimento ocorreu nesta data em 1580. Camões é considerado uma das maiores figuras da literatura lusófona e um dos grandes poetas do Ocidente. Segundo pesquisadores, a obra “Os Lusíadas”, poema épico do autor, se tornou a principal referência para o estabelecimento da língua portuguesa moderna.

A segunda data (5 de novembro) marca o Dia Nacional da Língua Portuguesa no Brasil, instaurado por lei em 2006 para homenagear o escritor e político (e diplomata!) brasileiro Ruy Barbosa, nascido em 5 de novembro de 1849 e considerado um grande estudioso do idioma nacional.

Como sabemos bem, a língua portuguesa foi trazida ao Brasil no século XVI em virtude do dito descobrimento. O português era imposto como língua oficial às línguas nativas que havia aqui ou modificava-se dando origem a outros dialetos. Mas houve um longo processo para que o estabelecimento do idioma no território brasileiro. O contato entre os indígenas, os africanos e os vários imigrantes que vieram de algumas regiões da Europa contribuiu para o chamado multilinguismo. Assim, além da fase bilíngue pela qual passou a nossa língua, o multilinguismo contribuiu – e continua contribuindo – para a formação da identidade do português brasileiro.

Estudiosos afirmam que a implantação do português no Brasil é marcada por quatro períodos significativos: o primeiro momento vai da colonização até a saída dos holandeses do Brasil, em 1654; o segundo vai daí até a chegada da Família Real portuguesa ao Brasil, em 1808; o terceiro finda com a independência do Brasil, em 1822. Por fim, o quarto período se inicia em 1826, com a transformação da língua do colonizador em língua da nação brasileira.

Para entendermos melhor cada um desses períodos de transformação da nossa língua, procurei em meus alfarrábios e encontrei uma linha do tempo supimpa, com informações fornecidas pelo Museu da Língua Portuguesa! Vejam a seguir.

 

História da Língua Portuguesa no Brasil:

 

1500 – Os cerca de 5 milhões de indígenas (estimativa), que habitam as terras ocidentais da América do Sul na época da chegada dos portugueses, falam mais de mil línguas, com dois grandes grupos principais: jê (no Brasil Central) e tupi-guarani (no litoral).


1530 – Com a criação das vilas de São Vicente (1532) e Salvador (1549), se dá a entrada oficial do Português no território. Os colonizadores adotam os idiomas indígenas. Mas depois surgem as línguas gerais – próximas às dos índios -, faladas pelos filhos de portugueses e nativas.


1538 – Os africanos escravizados trazem sua cultura (a banto e a sudanesa são as principais), também influenciando o Português. Do banto vêm línguas como o quicongo e o quimbundo. Palavras como bagunça, moleque e caçula são desse grupo e que falamos até hoje.


1580 – A língua geral paulista, de base tupi, é registrada por expedicionários. Os jesuítas e os bandeirantes são responsáveis por difundi-la. Para dizer gafanhotos verdes, fala-se tucuriurie, para esbofetear, eipumpa n sovâ. Ela desaparecerá no século 18.


1700 – Surge a língua geral amazônica, ou nheengatu, de base tupinambá. Algumas palavras: tapioca, açaí, tipóia. Ela ainda é falada por 8 mil brasileiros. Nasce o dialeto de Minas, mistura do Português com a evé-fon, falada por negros originários da região da Costa da Mina, na África.


1759 – Os jesuítas, que conheciam o tupi e ensinavam as línguas gerais aos índios, são expulsos. O Marquês de Pombal promulga uma lei para impor o uso do Português. No entanto, as três línguas (tupi, africana e portuguesa) coexistem por muito tempo no território.


1808 – A chegada da família real portuguesa marca a difusão da língua, com a criação da Biblioteca Real e das escolas de Direito e Medicina. O fim da proibição da existência de gráficas possibilita o surgimento de jornais e revistas e a massificação de uma maneira de falar.


1850 – Com a chegada de imigrantes e o início da urbanização, há a intensa assimilação do Português popular pelo culto e a incorporação de estrangeirismos. Em vez de “tu és”, fala-se “você é” e “nós fizemos” divide espaço com “a gente fez”.


1922 – A Semana de Arte Moderna leva o Português informal para as artes. Ao mesmo tempo, os migrantes vão para a cidade, e o rádio e as novidades urbanas chegam até o campo. Assim, as variedades linguísticas passam a se influenciar mutuamente.


1950 – Com o advento da TV, o americanismo chega ao Brasil e, com ele, novos termos. A criatividade na fala e nas manifestações artísticas movimentam o mundo das palavras. Expressões populares ganham a boca de todos, como “acabar em pizza” e “jogar a toalha”.


1980 – A Constituição de 1988 garante o direito de índios e negros residentes de antigos quilombos (local onde viviam escravos fugidos) preservarem seu idioma. Atualmente mais de 220 povos indígenas falam cerca de 180 línguas no território brasileiro.


1990 – A entrada da TV em mais de 90% dos lares acaba com o isolamento linguístico, mas as comunidades reagem às influências, absorvendo, adaptando ou rejeitando-as, mas sempre mantendo sua identidade. Surgem leis contra o analfabetismo. Nasce o “internetês”.

 

Assim como os demais idiomas, a nossa língua é viva, ou seja, se transforma e se reinventa com as pessoas ao longo do tempo, expressando uma maneira de organizar o mundo em nomes e estruturas linguísticas. Algumas alterações ocorrem naturalmente; outras são determinadas formalmente, como o Acordo Ortográfico implementado pela CPLP, em 2009, com o objetivo de facilitar o intercâmbio cultural e científico entre os países que têm o português como idioma oficial – Brasil, Portugal, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné-Equatorial, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste – e ampliar a divulgação do idioma e da literatura em língua portuguesa.

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Como afirmou o escritor e professor Marcos Bagno, as mudanças na língua são inevitáveis. Ora bolas! O português que vocês estão lendo agora neste texto é muito distinto do português que se falava na minha época de mancebo, meus caros. Vocês já devem ter notado que este velhinho que vos fala, vez ou outra, usa algumas expressões um tanto quanto incomuns, não é mesmo? Pois bem. Mesmo com as constantes atualizações da língua, eu não consigo abandonar completamente esse “baronês”! 😁

Além dos termos antigos que deixo escapar com certa frequência, há muitos outros do meu tempo (e de antes) que também devem ser estranhos a vocês, tais como: janota, louçã, algibeira, bilontra, pândega, aboletar, melífluo, turuna, estroinice, apupar, insípido, entrudo, préstito, e por aí vai… Essas palavras faziam parte do vocabulário popular e cotidiano no século passado. Eram comumente usadas, inclusive, nos veículos de comunicação, como é o caso desta edição da Revista Fon-Fon de 1912. No entanto, com o passar do tempo, foram deixando de ser utilizadas à medida que as sociedades foram se desenvolvendo, como um processo de transformação natural.

Fiquei curioso sobre essas constantes mudanças e variações na nossa língua e decidi convidar a nossa querida mestra de Língua Portuguesa, Isabel Vega, para uma entrevista sobre o assunto. Numa animada conversa, a professora explicou os principais fatores que contribuíram na construção do português que falamos hoje e como o tema pode ser importante nos estudos para os concursos públicos, sobretudo para o Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD). Confiram logo abaixo!

 

ENTREVISTA COM A PROFESSORA ISABEL VEGA:

Geralmente, a maneira de falar se renova mais rápido do que o modo como se escreve. Por que isso ocorre?

Isabel Vega: A fala acontece de maneira muito mais espontânea do que a escrita. Por isso, a gente tem uma dificuldade grande na hora de escrever. Na hora de falar, a gente fala até demais, fala bobagem, depois é que a gente pensa, muitas vezes, no que a gente fala. E a escrita não. A escrita, como é algo que tem maior permanência, as pessoas têm muito mais cuidado ao escrever, porque a pessoa pode ser vítima de uma crítica. A língua oral é muito mais dinâmica, muito mais criativa, mais ágil, e muito menos permanente, com aquela ideia de que “as palavras o vento leva”. Então, a permanência, de fato, das regras é mais observada na língua escrita mesmo.

O que são os fatores de mudança da língua? Há alguns que influenciem mais do que outros?

I.V.: Existem inúmeros fatores de mudança na língua que podem ser agentes cognitivos, por exemplo, a maneira como a pessoa interpreta aquilo que foi dito, de uma maneira mais particular ou não, dependendo do contexto, da bagagem cultural que a pessoa tem de vida mesmo. Mas os fatores, de fato, que determinam na mudança coletiva da língua têm muito a ver com a idade das pessoas; com a formação delas; com as religiões, porque existe um arcabouço de algumas estruturas que diferenciam sempre um traço de cultura de outro; o fator espacial também, se é uma pessoa que mora num grande centro urbano ou numa propriedade rural, ou se mora no Brasil, em Moçambique, em Portugal. Então, a língua tem uma diversidade enorme, porque tem uma contribuição enorme em relação a espaço, a questão da classe social mesmo, quanto tempo tem de estudo, o quanto investe em cultura, em viagens. Existem inúmeros fatores. Eu não sei se existe assim, em especial, um que predomine sobre o outro, mas existem aqueles que a gente percebe mais, que chamam mais atenção. Eu diria que chama muita atenção a diferença em relação a menos escolaridade e a mais escolaridade e acho que uma linguagem mais envelhecida, das pessoas com mais tempo de vida, mais idosas, e a garotada, os adolescentes, essa diferença aí é bastante. Mas não sei se um fator predomina em relação a outro.

Qual foi o fator determinante para a diferenciação da nossa língua portuguesa do português de Portugal e como se deu essa modificação?

I.V.: O que os teóricos afirmam e o Gilberto Freire, no Casa Grande e Senzala, tem um capítulo extremamente importante que joga luz sobre esse assunto, é a influência do negro na vida da sociedade brasileira. E ele fala isso em diversos aspectos, em relação até a diminuição da mortalidade infantil, porque faz parte, e fazia no século XIX mais ainda, da cultura portuguesa, assim que as crianças nasciam, elas eram embrulhadas em panos e mais panos, não podiam entrar em contato com a luz porque os olhos eram muito frágeis e isso gerava uma mortalidade absurda de recém-nascidos porque o umbigo inflamava, enchia de bactérias. As crianças não pegavam sol, ficavam ali naquela escuridão daquele quarto, com um monte de pano amarrado, então era absurda a taxa de mortalidade. E quando os negros, as mucamas sobretudo, começaram a cuidar das crianças, a primeira coisa que elas fizeram foi algo que tinha a ver com a cultura delas, que é dar banho nas crianças. Então, as crianças nasciam e as mucamas davam banho nelas – o que faz parte da cultura africana –, começaram a vestir roupas leves, aquelas roupinhas de algodão, roupinhas de pagão como se dizia antigamente. As crianças já não ficavam num quarto escuro, mas numa penumbra, à luz do sol, e isso fez com que as crianças deixassem de morrer. Então, a influência do negro na sociedade brasileira é de uma importância absurda. E, assim como em coisas que a gente nem lembra, nem pensa nisso, que é a questão da mortalidade do recém-nascido, também é na linguagem. Porque os negros vieram para cá para interagir com os portugueses que aqui estavam, com os brasileiros, e ninguém ensinou a eles a língua portuguesa. Eles tiveram que aprender sozinhos. E, ao aprender sozinhos no contato com os outros, eles foram criando uma porção de estruturas que, hoje, a gente encontra mais associada à linguagem oral, justamente pela condição dos negros, de estar associada a uma circunstância muito mais oral do que escrita. Então, isso diferencia bastante a questão da colocação pronominal, a questão do negro usando próclise para diferenciar do comando do senhor, que usava ênclise. Isso é uma das coisas que contribuiu bastante não só em termos de vocabulário, mas em termos da estrutura mesmo da sintaxe.

Pode-se dizer também que a cultura indígena teve uma certa influência ou foi menos do que a cultura negra?

I.V.: Eu acho que menos. Eu acho que a cultura indígena vai favorecer bastante o vocabulário, algumas músicas, alguns ritmos, mas, em termos de língua portuguesa, não vejo essa mudança na estrutura. Porque a interação maior que houve, em termos de língua, foi realmente no trato dos portugueses e dos brasileiros com os africanos. Até pelo volume dessa interação, porque os índios não se prestaram muito, como costumam dizer os historiadores, à escravidão. Eles preferiam morrer a serem escravos e os negros não. Então, a gente chega a uma época, por exemplo, do começo do século XIX, em que a gente tem 3 milhões de habitantes e quase 2 milhões são negros. A influência de fato na língua é absurda e, por isso, a diferença maior com a língua portuguesa falada em Portugal.

Por que muitos termos e gírias utilizados antigamente – como “supimpa”, “mancebo”, “moçoila” – não são mais tão usados? Em linhas gerais, como ocorreu esse processo?

I.V.: Na verdade, sempre existe o embate entre o novo, que está chegando e quer conquistar o seu espaço, e aquilo que é o mais antigo, e é natural. Isso acontece em relação a roupas, em relação a tudo. As pessoas mais novas querem o seu espaço e têm que ter esse espaço para ter essa renovação. E as gírias também, elas representam um determinado grupo e uma faixa etária. Na minha época de criança, por exemplo, era muito comum dizer “mandar brasa”: “olha, vamos mandar brasa! Fazer tal coisa”, um pouco aí do resquício da jovem guarda. E hoje, por exemplo, quando eu chego para os meus alunos, até os do curso [preparatório para o CACD], e digo “olha, vamos mandar brasa!”, eles olham para mim assim com um risinho de “como assim?”; os do [Colégio] Pedro II riem e dizem: “o que é isso, professora? Mandar brasa? Vai ter churrasco?” (risos). Eles não entendem e para mim é algo absolutamente natural. Mas eles têm as gírias deles também. E a gente vai conhecendo as gírias deles também e é assim que a vida vai acontecendo, né? O novo precisa ter espaço. E aí, para o novo chegar, o mais antigo tem que deixar de ser usado. É mesmo uma renovação: o antigo tem que sair para dar espaço pro novo, e esse novo vai virar antigo e o outro novo vai vir, e é assim.

A respeito da realidade plural da língua, o que você pensa sobre a figura tradicional do gramático no imaginário coletivo? Como essa representação intensifica a ideia de que existe uma definição precisa e objetiva do que é certo e errado na língua?

I.V.: As pessoas têm esse padrão mesmo. E não precisa nem ser “o gramático”. O professor de Português já causa um certo constrangimento. Quando você está em algum lugar e alguém fala assim “nossa, ela é professora de Português”, todo mundo se cala porque começa a prestar atenção no que vai dizer, porque o professor de Português está ali com a vara de marmelo na mão para dar na cabeça de um que falar errado. Então, existe sim essa ideia de que o professor de Português é o carrasco que vigia maneira de falar das pessoas porque ele sabe, ele é o guardião da língua, ele é o guardião da pureza vernácula do idioma. E, infelizmente, há alguns professores mais antigos, alguns gramáticos mais antigos que gostam desse lugar de guardião. Então, acabam aumentando um pouco isso, com essa ideia de correção: a pessoa fala alguma coisa e o professor tem que corrigir, porque, afinal de contas, ele é o professor. E isso é uma grande bobagem, porque o espaço de correção é o espaço de sala de aula, não é o espaço de conversa. É um pouco arbitrário, um pouco autoritário. Mas as pessoas têm essa ideia do professor de Português e do gramático como aquele que sabe tudo, que não erra e que vigia os outros, porque ele, sim, sabe qual é a língua certa. E é uma bobagem porque isso gera, nas pessoas em geral, um certo trauma. Eu vejo muito os meus alunos do Clio, menino grande (risos), com graduação, pós-graduação, enfim, viagens e uma bagagem cultural enorme e acham que não sabem Português. Dizem: “ah, eu não sei Português. Português é muito complicado. É difícil. Como é que você sabe Português?”. E é uma matéria como outra qualquer, né? Mas o problema são esses traumas de incapacidade, como se a pessoa não se sentisse capaz, natural, na sua própria língua, no seu próprio idioma. Isso é uma pena, mas existe. Infelizmente, existe. A primeira aula que a gente tem no curso, a gente fala exatamente sobre esse tema, para desmistificá-lo. Porque a língua é a que nós usamos, como a roupa é a que nós vestimos.

Não existe um certo e um errado. É isso?

I.V.: Existem os certos, existem os errados, de acordo com os contextos em que essa língua é usada. Ontem mesmo um aluno me perguntou, a gente estava saindo da sala e ele falou assim: “professora, quando a gente usa assim ‘a ti te digo’… Porque eu li isso na bíblia, mas isso não é horroroso?! Isso está errado? Porque está na bíblia”. Bom, se está na bíblia tem que estar certo, né? (risos). É a ideia que as pessoas têm. Eu falei: “olha, ‘a ti te digo’ tem duas figuras de linguagem aí: uma é a inversão, porque você pega o objeto e traz pra frente; e a outra é o pleonasmo, que é o ‘te’. Então, pegar o ‘a ti’, trazer pra frente e repeti-lo na forma do ‘te’, oblíquo, na verdade, você está usando duas figuras de linguagem. Então, não está errado”. “Mas pleonasmo não é vício?” (risos). “Depende do contexto. Aí, não. Aí, é um reforço. O vício de linguagem é quando você precisa ser claro, ser conciso, e você usa a linguagem de uma maneira que não está adequada. Então, se você diz ‘eu tenho que subir para cima’, aí é um vício de linguagem, porque o ‘subir’ já está dizendo que é para cima. Agora, o ‘a ti te digo’ está só reforçando o realce no receptor, no interlocutor. Então, não é erro. Por que como é que você vai dizer que usar uma figura de linguagem é erro? Não é erro, é estilo”. “Ah, mas se eu escrever isso numa segunda fase [do CACD]?”. Aí, é erro. E por que é um erro na segunda fase? Não pelo uso do pleonasmo ou da inversão, mas porque, na segunda fase, eles [a banca] contam palavras e a linguagem tem que ser concisa e objetiva. O errado é você usar a figura de linguagem. Não o pleonasmo, é qualquer figura de linguagem. Então, a gente tem que, o tempo inteiro, estar com a cabeça ligada porque não é erro. Existe a ideia de adequação e não adequação, daquilo que flui mais para informar, de maneira mais objetiva, ou atrapalha a comunicação. É com isso que a gente trabalha o tempo todo.

O tema “variação da língua” costuma ser abordado nos concursos públicos de Carreiras Internacionais (CACD, OfChan, Abin e MDIC)? Como esse conteúdo costuma aparecer nas provas?

I.V.: Exatamente como eu estava falando ainda agora. É um tema bastante caro, sobretudo pro CACD, porque o diplomata é aquele que a gente imagina que é o que mais sabe e melhor sabe usar o idioma. Ele precisa representar o país, está numa situação de alto nível, de trocas, de convencimento, de persuasão, então ele precisa dominar o idioma de uma maneira muito grande. Ele tem que estar muito afinado com o idioma e, justamente, nas suas diversas realizações. E, por isso, o concurso tem duas fases, que são tão distintas. Na primeira fase, eles querem que o candidato tenha uma visão linguística da coisa, da língua; a questão da variação volta e meia é colocada; a língua oral muito mais valorizada do que a língua escrita porque, justamente, ela é mais autentica, mais dinâmica, mais representativa do nosso tempo. Eles querem essa visão linguística na primeira fase. Na segunda fase, eles esquecem a linguística e querem a gramática tradicional, mais castiça possível. Então, eles testam os candidatos das duas maneiras: do ponto de vista do domínio da língua teórico, no reconhecimento dos vários usos, e na questão prática, em que eles elegem a norma padrão. Isso volta e meia cai em concurso, na primeira fase, na segunda fase e, sobretudo, na escrita da segunda fase. Nos outros concursos, às vezes, cai em alguns textos, mas é mais diluído. No CACD, não. No CACD, é um assunto… é o primeiro capítulo do Celso Cunha [bibliografia para o concurso]. Então, é matéria de língua portuguesa.

 

Fontes utilizadas no texto:

Museu da Língua Portuguesa

https://novaescola.org.br/conteudo/2604/a-lingua-e-viva

http://www.educacaopublica.rj.gov.br/biblioteca/portugues/0025.html

http://conversadeportugues.com.br/2015/05/dia-da-lingua-portuguesa/

 

Participação especial neste post:

O reinado histórico de Elizabeth II e as relações do Reino Unido com o mundo

Olá, queridos pupilos e pupilas!

No último dia 6 de fevereiro, o mundo assistiu a um acontecimento inédito: Elizabeth Alexandra Mary, a rainha Elizabeth II do Reino Unido, tornou-se a primeira monarca britânica a comemorar o Jubileu de Safira, completando sessenta e cinco anos de reinado. Isso significa que Elizabeth II é a figura real que mais tempo permaneceu no trono britânico, superando o recorde da rainha Vitória, cujo reinado durou sessenta e três anos. Em todo esse tempo, a rainha Elizabeth II se consolidou como uma chefe de Estado bastante ativa e participativa nos assuntos públicos, tornando-se uma personalidade conhecida e respeitada mundialmente. Seu vasto histórico de participações em eventos internacionais, seja realizando visitas em diversos países ou recebendo outros representantes de Estado no Palácio de Buckingham, é a prova de que seu reinado é diferenciado no que se refere às relações do Reino Unido com o mundo.

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Rainha Elizabeth II em viagem oficial à Alemanha em 2015

A vida agitada e cheia de compromissos oficiais, porém, não estava inicialmente nos planos de Elizabeth II e sua família. Na ocasião de seu nascimento, em 21 de abril de 1926, ela ocupou o terceiro lugar na linha de sucessão ao trono, depois de seu tio Edward, Príncipe de Gales, e seu pai George, o Duque de York. Esperava-se, então, que a jovem Alteza levasse uma vida comum e privilegiada apenas como parte da família real. Entretanto, em dezembro de 1936, as mudanças começaram a ocorrer quando o então rei Edward VIII abdicou e George tornou-se o rei George VI, deixando Elizabeth como sua sucessora ao trono britânico. Esse contexto da crise da abdicação é bem retratado pelo filme O Discurso do Rei.

No início de 1952, o rei George VI foi acometido por um grave problema de saúde e ficou impedido de realizar uma viagem relacionada à Commonwealth – associação voluntária dos países que formavam o antigo Império Britânico (exceto Moçambique e Ruanda) e, após a independência, decidiram manter os laços culturais e econômicos com o Reino Unido formalmente. Diante disso, a então princesa Elizabeth realizou a viagem em seu lugar e, no dia 6 de fevereiro, recebeu a notícia da morte do pai e de sua própria ascensão ao trono enquanto estava no Quênia. A coroação oficial foi realizada no dia 2 de junho de 1953, na Abadia de Westminster, sendo essa a primeira cerimônia transmitida pela televisão. Esse fato fez com que milhares de pessoas ao redor da Commonwealth pudessem observar o esplendor e o significado da coroação de uma forma nunca possível anteriormente.

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Cerimônia de coroação da Rainha Elizabeth II em 1953

Ao tornar-se a rainha do Reino Unido, Elizabeth assumiu todas as responsabilidades e funções que antes eram exercidas por seu pai, tanto no âmbito interno quanto externo. No campo exterior, uma de suas primeiras e mais importantes ações foi ter acolhido o título de chefe da Commonwealth e, consequentemente, ter se tornado rainha também de quinze países que compõem essa comunidade. Este é um importante papel simbólico e unificador, que reforça pessoalmente os laços pelos quais a comunidade une pessoas de todo o mundo. Uma das maneiras de fortalecer essas conexões foi por meio de visitas regulares da Commonwealth. Em meados de 1953, a Rainha realizou uma turnê de sete meses pelo mundo, visitando treze países, e se tornou a primeira monarca reinante a visitar a Austrália e a Nova Zelândia. Posteriormente, as visitas aos países membros tornaram-se periódicas e prioritárias na agenda de compromissos oficiais da Alteza. Ela também sempre manteve contato regular com o Secretário Geral e o Secretariado da organização, com sede em Londres, para se informar sobre o desenvolvimento das atividades e projetos. Garantir a unidade da comunidade sempre esteve entre as prioridades mais importantes de Elizabeth.

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Rainha Elizabeth II e líderes de outros países na Conferência da Commonwealth em 1960

Desde o início, o reinado de Elizabeth adquiriu um caráter internacional singular e sua atuação no decorrer do tempo reforçou ainda mais esse fato. Em seu país e no exterior, a Rainha precisava sempre manter a neutralidade política, porém conseguiu desenvolver um sentido próprio para o papel de um monarca. Como chefe de Estado, ela realizou uma série de ações e visitas históricas, como a primeira viagem de uma realeza britânica a Berlim desde antes da Primeira Guerra Mundial.

queen1-popupEm 1957, a Rainha fez uma visita aos Estados Unidos, onde discursou na Assembleia Geral das Nações Unidas, representando o Reino Unido e a Commonwealth. Na mesma turnê, ela abriu o 23º Parlamento Canadense, tornando-se a primeira monarca do Canadá a abrir uma sessão parlamentar. Quatro anos mais tarde, Elizabeth realizou uma extensa viagem que percorreu o Chipre, a Índia, o Paquistão, o Nepal e o Irã e, em 1968, foi a vez do Brasil receber a Alteza, na primeira visita oficial de um monarca britânico ao país. Além de realizar cerimônias tradicionais, a Rainha também instituiu novas práticas, como a “Caminhada Real”, que tinha o objetivo de promover o encontro da realeza com pessoas locais durante passeios nos países visitados. Posteriormente, esse hábito se tornou uma tradição em suas viagens.

Plenary meeting: General Assembly 105th plenary meeting -Address by Her Majesty Queen Elizabeth IICada participação inédita de Elizabeth em eventos e viagens oficiais possuiu um grande simbolismo e foi fundamental para o fortalecimento das relações do Reino Unido com os demais países. Um exemplo disso foi o discurso realizado em uma reunião do Congresso dos Estados Unidos, em 1991, após a vitória da Coalização internacional na Guerra do Golfo. Na ocasião, ela se tornou a primeira monarca britânica a discursar em uma cerimônia deste tipo. Em 2010, a Rainha retornou ao país norte-americano para participar da Assembleia Geral da ONU pela segunda vez, como representante da Commonwealth, e inaugurar oficialmente um jardim memorial para as vítimas britânicas dos ataques do 11 de Setembro.

No final de 2011, devido à idade avançada, a Rainha encerrou a realização de viagens ao exterior com uma visita à Austrália, que ficou conhecida na imprensa como “turnê de despedida”. Ao finalizar esse ciclo, Elizabeth se estabeleceu como a realeza britânica que mais realizou visitas oficiais em outros países e viajou para lugares inéditos, nunca antes visitados por monarcas britânicos, como países da América do Sul e do Golfo Pérsico. O diplomata Alan Charlton registrou que “a Rainha é conhecida por sua dedicação, responsabilidade e trabalho árduo — uma continuação da obra dos dois monarcas anteriores, seu avô e seu pai. Ela é uma parte importante da identidade britânica.”

Charlton também afirma que, para os embaixadores britânicos ao redor do mundo, a Rainha e a Família Real são recursos excelentes para apoiar a diplomacia exercida por eles. Ao longo de sessenta e cinco anos de reinado, Elizabeth desempenhou essa função com maestria e prestou o apoio necessário a treze primeiros-ministros, de Winston Churchill a Theresa May, quando eles promoveram a política externa do Reino Unido, baseada em três eixos principais: Estados Unidos, Europa e Commonwealth.

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Rainha Elizabeth II em um banquete de Estado em Berlim, Alemanha, em 2015

Uma forma interessante de aprender mais sobre a história e o reinado de Elizabeth II é por meio da série The Crown, que conta de forma didática a vida da Rainha como realeza e chefe de Estado, bem como acontecimentos históricos da segunda metade do século XX. O seriado também busca mostrar como era a relação da Rainha com outros líderes políticos, como Winston Churchill, o experiente Primeiro-ministro britânico na época de sua ascensão ao trono. A ideia do criador da série é abordar sessenta anos do reinado da monarca, sendo cada década desse período retratada por uma temporada. Essa é uma ótima oportunidade de conhecer melhor a trajetória de uma rainha que exerceu – e ainda exerce – seu papel brilhantemente e conseguiu conquistar o respeito e a admiração de todo o mundo.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
MARR, A. A real Elizabeth: uma visão inteligente e intimista de uma monarca em pleno século 21. São Paulo: Editora Europa, 2012.
https://www.royal.uk/her-majesty-the-queen
http://www.itamaraty.gov.br/pt-BR/ficha-pais/5662-reino-unido-da-gra-bretanha-e-irlanda-do-norte