Baronesa do Mês: Odette de Carvalho e Souza

Caríssimas e caríssimos,

Como vimos há alguns meses, ao ser aprovada no concurso do Itamaraty e tornar-se a primeira mulher diplomata do Brasil, em 1918, Maria José de Castro Rebello Mendes abriu caminho para a presença feminina no funcionalismo público federal e inspirou o ingresso de outras mulheres na carreira diplomática. Uma delas foi Odette de Carvalho e Souza, que, mais tarde, ocuparia o lugar de primeira embaixadora brasileira, chefiando o então Departamento Político do Ministério das Relações Exteriores (MRE), de 1956 a 1959.

Por esse notável motivo, Odette de Carvalho é a baronesa cuja trajetória e atuação relembramos este mês aqui no blog. Para tanto, trazemos a fantástica apresentação do diplomata Guilherme José Roeder Friaça* sobre a vida e a carreira desta personagem que marcou a história da diplomacia brasileira!

 

A PRIMEIRA EMBAIXADORA: A TRAJETÓRIA DE ODETTE DE CARVALHO E SOUZA

odette-jovemDesde o mês de janeiro de  1956,  o  Itamaraty  convivia  com  a  primeira  mulher promovida  a  ministra  de  primeira  classe:  Odette  de  Carvalho  e  Souza.  A primeira embaixadora do  Itamaraty  e  primeira  embaixadora  de  carreira  do  mundo  (LINTZ,  1983), tinha então 52 anos e ficou conhecida no MRE como Dona Odette, uma abordagem sexista, já que,  nas  referências  a  todos  os  homens,  seus  nomes  eram  sempre  precedidos  do  título hierárquico.  Se aos ministros de primeira classe se  dava,  em  geral,  o  tratamento  de embaixador, as referências à embaixadora Odette de Carvalho e Souza seguiram sendo como Dona  Odette  até  sua  morte.  “As mulheres não  têm  sobrenome,  têm  apenas  um  nome. Aparecem sem nitidez, na penumbra dos quartos obscuros” (PERROT, 2007, p. 17).

Odette de Carvalho e Souza, que integrava o “Grupo das 20” [diplomatas  pioneiras:  19  mulheres admitidas até  a proibição de acesso  ao sexo feminino,  em 1938, e Maria  José Monteiro de Carvalho, transferida para carreira diplomática em 1945], ingressou no Itamaraty em 13 de fevereiro de 1936, aprovada em concurso de títulos. Nascida no Rio de Janeiro em 1º de outubro de 1904, filha de Augusta Possas de Carvalho e Souza e Carlos de Carvalho e Souza, Odette de Carvalho e Souza chegou ao topo da carreira um mês antes de completar 20 anos de serviço. Seu pai era membro da carreira consular, de modo que ela travara contato com as atividades do Itamaraty desde muito jovem. Ademais, já tinha experiência no campo internacional quando foi nomeada cônsul de terceira classe, cargo inicial das carreiras consular e diplomática. Havia sido conselheira técnica governamental das XV, XVI e XVII Conferências Internacionais do Trabalho, realizadas em Genebra nos anos de 1931, 1932 e 1933 e arquivista da Delegação Brasileira à Conferência do Desarmamento de 1932, na mesma cidade.

Na primeira gestão do ministro José Carlos de Macedo Soares no MRE (jul. 1934 a nov. 1936), exerceu as funções de sua secretária, de julho de 1934 até a data da posse dela na carreira. Durante esse  tempo  produziu  vários  textos,  sob  encomenda  do  chanceler,  nos quais  já  demonstrava  o  anticomunismo  ferrenho  que  a  caracterizaria.  Em  um  ano  e  meio produziu  cerca  de  500  páginas,  em  sete  ensaios  sobre  temas  diversos:  em  1934,  “O comercio exterior entre o Brasil e URSS” e “Os soviets e a América Latina”; no ano seguinte, “A  repartição  internacional  dos  vinhos  e  seus  fins”,  “Ordem  do  dia  da  Conferencia Commercial  Panamericana  e  respectivos  projetos  de  convenção  e  recomendação”,  “A unificação de estatisticas officiaes e as estatisticas de migração”, “O Conflito ítalo-ethiope” e “A  infiltração  comunista  nas  classes  armadas”.  Possivelmente por  ser  de  confiança  do ministro  Macedo  Soares,  foi  indicada,  em  janeiro  de  1936,  ainda  antes  de  ingressar  na carreira, para chefiar os Serviços Especiais de Informação do MRE.

Segundo Negrão (2005), os Serviços chefiados por Odette de Carvalho e Souza por cerca de um ano nada mais eram, em caráter experimental, que os Serviços de Estudos e Investigações (SEI), criados por Decreto de 1º de fevereiro de 1937 e, a partir de novembro de 1937 até março de 1939, novamente dirigidos por Odette de Carvalho e Souza.  Negrão (2005)  afirma  ainda  que  os  SEI  do  MRE  funcionaram  como  órgãos  secretos  auxiliares  da repressão  varguista,  atendendo  à  política  governamental  anticomunista.  Sobre Odette  de Carvalho e Souza, o autor afirma que todos os documentos sobre os SEI a que teve acesso eram por ela firmados, o que permitiria classificá-la como assídua colaboradora do Governo no combate ao comunismo. O autor tece comentários que enriquecem o perfil da diplomata:

Na reunião dos delegados de Polícias Estaduais, a sua posição como representante do MRE é destacada, aparecendo como uma das responsáveis pela elaboração das normas a serem adotadas pela  polícia política. Nos  documentos  referentes aos SEI, Odette de  Carvalho  e Souza enumera, mais uma vez, os relevantes serviços prestados no combate ao comunismo internacional e propõe que esse  órgão funcione diretamente ligado  ao MRE, sendo o  seu funcionário considerado adido nas embaixadas (NEGRÃO, 2005, p. 160).

Com  efeito,  o  Almanaque  do  Pessoal  de  1939  indica  que  a  diplomata  foi  a representante  do  Itamaraty  no  1º  Congresso  dos  Chefes  de  Polícia,  realizado  no  Rio  de Janeiro em outubro de 1936. Odette de Carvalho e Souza permaneceu à frente dos SEI até o começo  de  1939,  quando  foi  removida  para  a  Embaixada  em  Londres.  No  entanto,  a nomeação foi tornada sem efeito e seu destino passou a ser a Legação do Brasil em Berna. Os motivos para essa decisão foram expressos em carta que encaminhava Decretos de remoção ao presidente Getúlio Vargas:

Quanto à Senhora Odette de Carvalho e Souza, fôra designada para servir na Embaixada em  Londres,  mas  o  Embaixador  Régis  de  Oliveira  comunicou  que  ao  Govêrno  de  Sua Majestade  Britânica  não  agradaria  a  nomeação  de  uma  mulher  para  cargo  diplomático, razão pela qual proponho enviá-la  para  a  Suíça,  tornando  sem  efeito  a  designação anterior.

Odette de Carvalho e Souza esteve em Berna de abril de 1939 a junho de 1946. Em  dezembro  de  1945,  foi  promovida  a  primeira-secretária.  De  regresso  ao  Brasil,  ficou  à disposição da Interventoria Federal de São Paulo até dezembro de 1946, quando assumiu a função  de  auxiliar  de  Gabinete  do  chanceler  Raul  Fernandes.  Entre  1947  e  1948,  foi representante  do  MRE  na  Comissão  Organizadora  do  Congresso  Panamericano  de  Serviço Social  (julho/1947);  secretária  da  Delegação  do  Brasil  à  Conferência  Interamericana  Para  a Manutenção  da  Paz  e  da  Segurança  no  Continente  (agosto/1947);  membro  da  Comissão encarregada  de  preparar  os  elementos  de  estudo  dos  temas  constantes  do  programa  na  9ª Conferência  Internacional  Americana  (outubro/1947)  e  secretária  da  Delegação  do  Brasil  à 3a Sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas (setembro/1948). Em novembro de 1949, recebeu o título de conselheira e em maio de 1950 foi promovida a ministra de segunda classe.

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No dia 2 de abril de 1951, assumiu a função de cônsul-geral em Lisboa, de onde partiu em 15 de março de 1956. Havia sido promovida a ministra de primeira classe em 16 de janeiro daquele  ano,  o  que  mereceu  destaque  de  vários  jornais  portugueses,  em  notícias publicadas  no  mesmo  dia  em  que  foi  oficializada  a  promoção.  O  Diário  de  Lisboa,  por exemplo, mostrava retrato de Odette de Carvalho e Souza, sob o  qual  estava  impressa  a  seguinte  legenda:  “Pela  primeira  vez  na  história  da  diplomacia brasileira uma senhora (a Cônsul-geral em Lisboa) é elevada a ministro plenipotenciário”. Também o Diário de Notícias e o Diário da Manhã daquele dia mencionavam a promoção da cônsul-geral do Brasil. Sua partida foi igualmente noticiada e as despedidas que tiveram lugar naquela ocasião tiveram destaque em diversos periódicos lisboetas.

Regressou,  em  abril  de  1956,  à  Secretaria  de  Estado,  onde  seria  mais  uma  vez colaboradora direta de José Carlos de Macedo Soares, em sua segunda gestão como titular da pasta das Relações Exteriores  (novembro/1955 a julho/1958). Tão logo  chegou ao Rio de Janeiro, assumiu a chefia interina do Departamento Político e Cultural. Foi a primeira mulher a ocupar cargo  tão  alto  na  Casa.  O  MRE  estava  então  dividido  em  três  departamentos  e  o Departamento  a  cargo  de  Odette  de  Carvalho  e  Souza  reunia  cinco  divisões:  Política; Cultural; do Cerimonial; de Fronteira e de Atos, Congressos e Conferências Internacionais. Embora o cenário mundial se tenha complexificado e as atribuições a que tem que fazer face o Itamaraty sejam maiores e mais diversificadas, a posição ocupada por Odette de Carvalho e Souza  corresponderia,  no  MRE  de  hoje,  à  chefia  conjunta  de  pelo  menos  quatro Subsecretarias-gerais.

Odette de Carvalho e Souza ficou à frente do Departamento até o fim da gestão de Macedo Soares, em 4 de julho de 1958. Foi sucedida por Manoel Pio Corrêa que lhe dedicou, em suas memórias, dois parágrafos. Se, por um lado, ajudam a compor o retrato dessa mulher, por outro, trazem em si o preconceito de que deve a mulher forçosamente aliar beleza física à inteligência e à competência profissional:

“Dona  Odette”  não  fora  agraciada  pela  Natureza  com  dotes  físicos  correspondentes  aos seus  grandes  dotes  intelectuais.  Sob  uma  cabeleira  postiça  extremamente  inconvincente diziam-na  calva  como  um  joelho,  e,  quanto  ao  resto,  não  possuía  sobrancelhas  nem pestanas, o que lhe dava um aspecto incomodamente inexpressivo. Sob esse aspecto ingrato e  mesmo  dolorosamente  caricato  abrigava-se  uma  inteligência  clara,  uma  grande  cultura profissional, uma grande bondade  e  um  invejável sentido de  humor  (CORRÊA, 1994, p. 151).

odette-e-golda-meirEm  março  de  1959,  a  primeira  embaixadora  brasileira  deu  sequência  a  uma sucessão de atos pioneiros. No âmbito bilateral, esteve à frente da Embaixada em Tel Aviv de 1 de maio de 1959 a 6 de agosto de 1961. Foi a terceira representante brasileira naquele Posto, de criação recente. De lá partiu para assumir a Embaixada em São José, onde permaneceu de 5 de outubro de 1961 a 14 de outubro de 1964. Em 9 de dezembro de 1964, foi designada para chefiar  a  Delegação  do  Brasil  junto  às  Comunidades  Econômicas  Europeias  (CEE),  em Bruxelas. Chegou ao Posto em 16 de janeiro de 1965, lá permanecendo até sua remoção para a  Secretaria  de  Estado,  no  segundo  semestre  de  1969.  Nas  três  capitais,  foi  a  primeira brasileira a ocupar o posto.

Odette de Carvalho e Souza, quando avaliada no “Grupo das 20”, foi a diplomata que  mais  funções de  relevo  desempenhou.  Conforme  indicado, das  19  mulheres  que  lhe foram  contemporâneas,  somente  outras  duas,  Dora  de  Alencar  Vasconcellos,  em  1964,  e Lourdes de Vincenzi, em 1972, chegaram a  embaixadoras.  Observe-se  que  Beata  Vettori  e Margarida Guedes Nogueira, aposentadas como ministras de segunda classe, tiveram o título de  embaixadora,  mas  não  chegaram  a  ministras  de  primeira  classe.  Odette  de  Carvalho  e Souza  foi  aposentada  no  dia  2  de  outubro  de  1969,  por  ter  completado  65  anos  de  idade. Faleceu no ano seguinte, aos  66 anos de  idade, na cidade  do Porto, Portugal,  no dia 30 de novembro.

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* FRIAÇA, Guilherme. Mulheres diplomatas no Itamaraty (1918-2011): uma análise de trajetórias, vitórias e desafios (Tese do Curso de Altos Estados (CAE)). Brasília: Instituto Rio Branco, 2012.

Baronesa do Mês: Bertha Lutz

Caras pupilas e caros pupilos,

Atualmente, a Organização das Nações Unidas (ONU) possui uma agenda bem definida e desenvolvida no que diz respeito às questões de igualdade de gênero ao redor do mundo. Esse é, inclusive, um dos elementos que compõem a Agenda 2030 e os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, adotados na ocasião da Cúpula das Nações Unidas em 2015. O que nem todos sabem, porém, é como e quando esse assunto começou a ser discutido no âmbito da instituição.

E se eu dissesse a vocês que uma das principais responsáveis pela inclusão das temáticas de gênero na ONU foi uma brasileira? Isso mesmo, meus caros! A cientista e diplomata Bertha Lutz representou o Brasil na Conferência de São Francisco – reunião que originou as Nações Unidas –, em 1945, e, com a ajuda de outras delegadas latino-americanas, reivindicou e garantiu a inclusão da defesa dos direitos das mulheres na Carta da ONU e a criação de um órgão intergovernamental para a promoção da igualdade de gênero.

Por esse motivo ilustre e importantíssimo, Bertha é a nossa grande homenageada do mês! Conheçam mais sobre suas admiráveis história e carreira a seguir.

 

bertha_jovemFilha da enfermeira inglesa Amy Fowler Lutz e do cientista e médico Adolfo Lutz, Berta Maria Júlia Lutz nasceu em São Paulo em 2 de agosto de 1894 e foi educada formalmente na Europa, graduando-se em Ciências Naturais na Faculdade de Ciências da Universidade de Paris (Sorbonne). Durante o tempo que passou em terras europeias, ela pôde conhecer de perto o movimento feminista e a campanha sufragista que ganhava espaço na Inglaterra. Essa experiência foi determinante para que, mais tarde, ela começasse sua militância em defesa da liberdade das mulheres e da igualdade de gênero.

Em 1918, Bertha retornou ao Brasil e começou a trabalhar como auxiliar de seu pai e tradutora do Instituto Oswaldo Cruz. Prestou concurso para o cargo de secretária do Museu Nacional, passou em primeiro lugar e foi nomeada por decreto, tornando-se a segunda mulher a ocupar um cargo público no país, em 1919. Posteriormente, a cientista foi designada pelo diretor do Museu Nacional para auxiliar os trabalhos da Seção de Botânica. Após a morte de seu pai, em 1940, ela deu continuidade às pesquisas por ele desenvolvidas, e qualificou-se como zoóloga especialista em hylas neotropicais. Bertha também se preocupou com os assuntos ambientais e com o patrimônio natural e cultural brasileiro, participando como conselheira do Conselho Federal Florestal e do Conselho Federal de Expedições Artísticas e Científicas.

Ao mesmo tempo em que desempenhava excelente trabalho nas ciências biológicas, Bertha travou uma luta admirável pelos direitos políticos e sociais das mulheres no Brasil e no mundo. Sua militância tinha diversos objetivos, sendo o direito do voto e a emancipação da mulher os principais deles. Em 1919, criou a Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher e, três anos depois, organizou o I Congresso Internacional Feminista no Rio de Janeiro, consolidando a criação da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (FBPF), na qual foi presidente e presidente de honra vitalícia posteriormente. A atuação política dessa instituição foi fundamental para a conquista do direito de voto feminino no país, por meio do decreto-lei do presidente Getúlio Vargas, em 1932.

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I Congresso Internacional Feminista no Rio de Janeiro, 1922. Fonte: Arquivo Nacional.

A cientista também teve participação na fundação da União Universitária Feminina, em 1929, e da Liga Eleitoral Independente em 1932. No ano seguinte, criou a União Profissional Feminina e a União das Funcionárias Públicas. Ainda em 1933, Bertha candidatou-se a uma vaga na Assembleia Nacional Constituinte de 1934, pelo Partido Autonomista do Distrito Federal, mas não conseguiu se eleger. Obteve, porém, a primeira suplência no pleito seguinte e acabou assumindo o mandato de Deputada Federal em julho de 1936, devido à morte do titular, Cândido Pessoa. Como parlamentar, priorizou as propostas de reformulação das leis referentes ao trabalho da mulher e do menor, objetivando a igualdade salarial, a licença de três meses para a gestante e a redução da jornada de trabalho de 13 horas diárias. Sua atuação legislativa perdurou somente até novembro de 1937 devido à decretação do Estado Novo. Todavia, ela se manteve fiel à luta das mulheres pela cidadania nas décadas seguintes.

Buscando se aprofundar nas questões legais dos direitos da mulher, formou-se em Direito pela Faculdade de Direito do Rio de Janeiro (1933). Em seguida, escreveu a obra “A Nacionalidade da Mulher Casada”, onde analisou juridicamente o assunto e apresentou ideias para a solução do problema das mulheres de outros países – as brasileiras não eram submetidas a essa regra – que se viam obrigadas a adotar a nacionalidade do marido se ele fosse estrangeiro.

Como bem registrou o pesquisador Guilherme Gantois, Bertha Lutz tinha grande interesse nos movimentos feministas que estavam ocorrendo nos diversos lugares do planeta e, além do continente americano, mantinha contato com movimentos e organizações da Europa e da Ásia, o que lhe dava amplo conhecimento da situação das mulheres em vários lugares do mundo. Ademais, ela representou o Brasil em reuniões e assembleias internacionais pela causa da emancipação política e social feminina, defendendo especialmente o direito de igualdade no trabalho para homens e mulheres.

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IX Congresso da Aliança Internacional pelo Sufrágio Feminino, 1923. Fonte: Arquivo Nacional.

A ativista participou de diversos eventos e atividades internacionais de grande importância, dentre os quais: o Conselho Feminino Internacional (1919), órgão da Organização Internacional do Trabalho (OIT) – onde foram aprovados os princípios de salário igual para ambos os sexos e a inclusão da mulher no serviço de proteção aos trabalhadores; a Assembleia-Geral da Liga das Mulheres Eleitoras nos Estados Unidos (1922), na qual foi eleita vice-presidente da Sociedade Pan-Americana; o IX Congresso da Aliança Internacional pelo Sufrágio Feminino em Roma (1923); a Conferência Internacional da Mulher em Berlim (1929); a Conferência Internacional do Trabalho nos EUA (1944), como membro da Comissão de Assuntos Femininos; a Conferência de São Francisco (1945), na função de delegada plenipotenciária; a Comissão de Estatutos da Mulher das Nações Unidas (1952), criada por sua iniciativa, e a Comissão Interamericana de Mulheres (1953), órgão da Organização dos Estados Americanos (OEA), nos postos de delegada e vice-presidente até 1959.

Além disso, Bertha foi membro de inúmeras entidades internacionais. Tais como: a Aliança Internacional pelo Sufrágio Feminino e Igualdade Política dos Sexos (Londres), a Sociedade Internacional de Mulheres Geógrafas (Washington), a Comissão Feminina Consultiva do Trabalho da Mulher, do Bureau Internacional do Trabalho, da Sociedade das Nações (Genebra), o Bureau Internacional de Proteção à Natureza (Bruxelas) e o Museu Americano de História Natural (Nova York).

 

O papel decisivo de Bertha Lutz na Conferência de São Francisco

No final de 2016, a ONU divulgou uma pesquisa reveladora sobre a atuação da diplomata brasileira na Conferência de São Francisco, na qual foi redigida a Carta das Nações Unidas, o documento que originou a Organização mundial em 1945. Bertha Lutz foi a única mulher a integrar a delegação do Brasil ao evento e, na ocasião, procurou impulsionar a igualdade entre homens e mulheres não apenas na agenda da instituição, mas também princípio universal. Graças à insistência das representantes latino-americanas presentes na Conferência, lideradas por Bertha, a Carta foi um dos primeiros tratados internacionais a mencionar em seu texto a necessidade de igualdade de direitos entre os gêneros.

O estudo também revelou que as latino-americanas enfrentaram forte oposição de diplomatas norte-americanas e britânicas. Durante os debates, a estadunidense Virginia Gildersleeve afirmou que as mulheres já estavam “bem estabelecidas” e a igualdade de oportunidades entre homens e mulheres já era realidade nos EUA. Lutz, por sua vez, respondeu que “em nenhum lugar do mundo, havia igualdade completa de direitos com os homens”, e que havia sido encarregada pelo governo Getúlio Vargas de defender justamente esse ponto na Carta da ONU.

Apenas três por cento dos 160 participantes da Conferência eram mulheres, e quatro delas assinaram a Carta da ONU: Bertha Lutz (Brasil), Wu Yi-fang (China), Minerva Bernardino (República Dominicana) e Virginia Gildersleeve (EUA). Todavia, somente Lutz e Bernardino defenderam abertamente os direitos das mulheres. “As delegadas latino-americanas eram as mais progressistas, suas posições foram determinantes para estabelecer o primeiro acordo internacional a declarar os direitos das mulheres como parte dos direitos humanos fundamentais”, observaram as pesquisadoras responsáveis pelo estudo.

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Bertha Lutz representando o Brasil na Conferência de São Francisco, 1945. Fonte: Nações Unidas.

As principais contribuições de Bertha e outras diplomatas latino-americanas para o documento estão contidas nos seguintes pontos:

  • o preâmbulo da Carta, que cita a igualdade de direito de homens e mulheres – Lutz fez questão de incluir a palavra “mulher” no texto, mesmo com colegas defendendo, na ocasião, que o trecho “direitos humanos para os homens” seria suficientemente inclusivo;
  • o Artigo 1, que prevê como função da ONU “promover e estimular o respeito aos direitos humanos e às liberdades fundamentais para todos, sem distinção de raça, sexo, língua ou religião” – esse último princípio é reiterado quatro vezes em diferentes trechos da Carta;
  • o Artigo 8, segundo o qual “as Nações Unidas não farão restrições quanto à elegibilidade de homens e mulheres destinados a participar em qualquer caráter e em condições de igualdade em seus órgãos principais e subsidiários”.

Ao término da Conferência, a diplomata brasileira elaborou um relatório oficial sobre a participação feminina no evento, registrando as observações que fizera durante as reuniões e as conclusões a respeito das posições dos delegados e das expectativas brasileiras sobre os próximos passos para a efetivação da igualdade entre homens e mulheres no âmbito geral da ONU.

Em novembro de 2016, a ONU Brasil publicou um vídeo sintetizando a fundamental participação de Bertha na Conferência de São Francisco:

 

Após sua destacada atuação na conferência originária da ONU, Lutz ganhou ainda mais reconhecimento nacional e mundial. Em 1946, recebeu um prêmio de viagem aos Estados Unidos e lá colaborou com o Clube Soroptimista, sendo considerada a Mulher do Ano. Foi também premiada com o título de Mulher das Américas em 1951 e, no ano seguinte, representou o Brasil na Comissão de Estatutos da Mulher das Nações Unidas, criada por sua iniciativa. Em 1953, foi eleita delegada do Brasil junto à Comissão Interamericana de Mulheres da União Panamericana de Repúblicas (atual Organização dos Estados Americanos). Seu último ato em prol da melhoria da condição feminina foi em 1975, quando a ONU estabeleceu esse ano como o Ano Internacional da Mulher – resultado das pressões do movimento feminista internacional. Mesmo doente, ela aceitou o convite do governo brasileiro para integrar a delegação do país no primeiro Congresso Internacional da Mulher, realizado na capital do México.

Bertha também foi reconhecida internacionalmente por sua contribuição na pesquisa zoológica, especificamente de espécies anfíbias brasileiras. Dentre os seus escritos estão os Estudos sobre a biologia floral da Mangífera Índica L., Wildlife in Brazil, A nacionalidade da mulher casada, Homenagem das senhoras brasileiras à ilustre presidente da União Interamericana de Mulheres e Estatuto da Mulher. Foi aposentada compulsoriamente em 1964, após 46 anos de trabalho como docente e pesquisadora do Museu Nacional, e conquistou o título de professora emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro em 1965.

Em 16 setembro de 1976, a cientista e diplomata brasileira faleceu no Rio de Janeiro, aos 82 anos.

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Seu arquivo pessoal, atualmente, está custodiado pela Seção de Memória e Arquivo do Museu Nacional e encontra-se em processo de organização e descrição, pelo Museu e a Casa de Oswaldo Cruz / Fundação Oswaldo Cruz. Existe também o Museu Virtual Bertha Lutz, desenvolvido pela Universidade de Brasília com o apoio do CNPq. O site reúne alguns documentos pessoais de Bertha, imagens do jornal Correio da Manhã e do CPDOC da Fundação Getúlio Vargas, boletins da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, entre outros arquivos.

Em homenagem e reconhecimento ao trabalho diplomático fundamental de Bertha Lutz, a turma 2015-2017 do Curso de Formação do Instituto Rio Branco a escolheu como patronesse na ocasião de sua formatura, em abril deste ano. Durante o discurso de orador, o Terceiro Secretário João Soares Viana Neto proferiu belas palavras em memória da grande ativista brasileira:

“Bertha Lutz soube ocupar espaços e trazer o novo. Filha do século XIX, ajudou a modelar o século XX. Bióloga, fez-se jurista. Quando a mulher casada era relativamente incapaz para os atos da vida civil, foi deputada. Quando os vencedores da Segunda Guerra reuniram-se em São Francisco para desenhar o futuro, fez-se diplomata, representou o Brasil numa conferência na qual 97% dos delegados eram homens e foi a responsável pela inclusão da igualdade de direitos entre homens e mulheres no preâmbulo da Carta da ONU.”

 

FONTES:

SCHUMAHER, Schuma; BRAZIL, Érico Vital. Dicionário Mulheres do Brasil. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2000.

MIRANDA, Guilherme Gantois de. Berta Lutz: cientista e feminista em luta pela emancipação da mulher. Seminário Internacional Fazendo Gênero. Florianópolis, 2006.

www.itamaraty.gov.br/pt-BR/plano-nacional-de-acao-sobre-mulheres-paz-e-seguranca/14884-bertha-lutz

www12.senado.leg.br/noticias/entenda-o-assunto/bertha-lutz

cpdoc.fgv.br/producao/dossies/AEraVargas1/biografias/berta_lutz

Baronesa do Mês: Michelle Gyles-McDonnough

Baronesas e Barões,

Na data de ontem, 25 de julho, foi celebrado o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha. Esse marco foi estabelecido durante o I Encontro de Mulheres Afro-Latino-Americanas e Afro-caribenhas, realizado em Santo Domingo (República Dominicana), em 1992, e reconhecido pela Organização das Nações Unidas (ONU) ainda nesse ano. Na ocasião, também foi instituída a Rede de Mulheres Afro-latino-americanas e Afro-caribenhas. Tais acontecimentos surgiram da necessidade verificada pelas mulheres negras das Américas do Sul e Central de se organizarem à parte e provocarem reflexões críticas no âmbito dos movimentos negro e feminista, visto que ambos se reconheciam como compostos por identidades homogêneas até meados dos anos 1970 e, por isso, não contemplavam suas demandas específicas.

A celebração do Dia da Mulher Afro-Latino-Americana e Afro-Caribenha é extremamente relevante por valorizar suas contribuições políticas, intelectuais, econômicas e socioculturais no processo histórico de seus países e do continente. Também foi graças à articulação das mulheres afro-latinas e caribenhas que os governos da região passaram a constituir acordos e políticas internas e internacionais que vêm permitindo avanços na participação das mulheres negras em espaços como a universidade pública, o mercado formal de trabalho, os veículos mídia e a política partidária.

No Brasil, o dia 25 de julho é duplamente importante: além da data internacional, também é celebrado por aqui o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra. Essa data foi instituída por meio da Lei nº 12.987/2014, sancionada pela Presidenta Dilma Rousseff, e contribuiu para dar maior visibilidade a esse movimento de mulheres. Tereza de Benguela foi uma líder quilombola e viveu durante o século XVIII no Mato Grosso. Com a morte de seu companheiro, ela se tornou a rainha do quilombo Quariterê, e, sob sua liderança, a comunidade negra e indígena resistiu à escravidão por duas décadas, sobrevivendo até 1770, quando o quilombo foi destruído e a população – cerca de 79 negros e 30 indígenas –, morta ou aprisionada.

Como forma de celebrar e reforçar a profunda importância nacional e internacional desta data, nossa homenagem do mês de julho vai para uma baronesa das Relações Internacionais que representa muito bem as mulheres negras da América Latina e do Caribe em nível mundial. Conheçam mais sobre a trajetória de Michelle Gyles-McDonnough, a jamaicana que está fazendo história na ONU!

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Michelle Gyles-McDonnough nasceu e cresceu na cidade de Kingston, capital da Jamaica. Durante sua juventude, havia a visão de que a advocacia era uma profissão de sucesso entre os jamaicanos, tanto na região do Caribe como na esfera internacional, e, em certa medida, essa ideia influenciou sua formação acadêmica e sua carreira. Formou-se Bacharel em Economia, com ênfase em Francês, pela Bryn Mawr College (EUA), em 1989, e concluiu o Doutorado em Direito, com honras em Direito Internacional e Estrangeiro, na Columbia Law School em 1992. Em seguida, ela começou a trabalhar como assistente jurídica no Harare Legal Projects Center, no Zimbábue.

No período de 1996 a 1999, Michelle trabalhou como Conselheira do secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA) em Washington DC. Ela foi consultora jurídica e representante suplente da Embaixada da Jamaica e Missão Permanente da Jamaica junto à OEA e atuou como advogada especializada em comércio internacional no escritório de advocacia Winthrop Stimson Putnam & Roberts em Nova York. Posteriormente, exerceu o cargo de chefe da Unidade de Recursos Sub-regionais do Caribe do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD-SURF), em Trinidad e Tobago, até 2004. Nesse mesmo ano, a jamaicana obteve a titulação de Mestre em Administração Pública pela Harvard University (EUA) e foi assistente de ensino nessa instituição, auxiliando no desenvolvimento de cursos de mestrado em governança global e gerenciamento de desenvolvimento em um mundo em transformação.

De volta ao âmbito do PNUD, Gyles-McDonnough atuou como coordenadora do Programa de Recuperação de Granada (2004-2005) – após os furacões que devastaram o país caribenho em 2004 –, conselheira regional na Jamaica por seis meses, em 2005, e assessora de programas do Grupo de Apoio de Operações no Escritório Executivo (2006-2008).

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Michelle no Fórum de Direitos Humanos realizado na Malásia em 2014

Logo depois, Michelle assumiu o posto de Coordenadora Residente da ONU e Representante Residente do PNUD para Barbados e Organização dos Estados do Caribe Oriental (OECS), funções exercidas até 2013. Durante seu mandato, ela aumentou significativamente a visibilidade dos desafios de desenvolvimento enfrentados pelos pequenos Estados insulares em desenvolvimento e mobilizou outros parceiros de desenvolvimento a trabalhar com a ONU para apoiar os estados membros de Barbados e da OECS, abordando diversos problemas. Esses incluíram impactos das mudanças climáticas; transição para um futuro com energias sustentáveis; fortalecimento das capacidades para avaliar e gerenciar riscos e impactos de desastres e melhoria da segurança dos cidadãos, bem-estar e oportunidades de vida.

Em julho de 2013, a advogada caribenha passou a ocupar três novas relevantes posições nas Nações Unidas: Coordenadora Residente para a Malásia, Representante Residente do PNUD para a Malásia, Cingapura e Brunei Darussalam e Representante do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) para a Malásia. Atualmente, ela também atua como vice-diretora adjunta e diretora regional adjunta para a Ásia e o Pacífico.

Na abertura do evento Lean In Summit Malaysia 2015, Michelle compartilhou suas ideias sobre o fosso de desigualdade de gênero e o trabalho que as Nações Unidas estão fazendo para promover os direitos das mulheres. Confiram o vídeo a seguir:

 

Para completar essa admirável trajetória internacional, em outubro de 2016, Michelle Gyles-McDonnough foi nomeada pelo atual Secretário-Geral da ONU, António Guterres, para a função de conselheira principal na equipe de transição que lhe prestou auxílio para assumir a liderança da organização neste ano. A partir disso, ela se tornou a jamaicana com o cargo mais elevado no sistema das Nações Unidas. Que essa seja a primeira de muitas conquistas pioneiras dessa baronesa brilhante e que sua história possa inspirar outras mulheres e meninas caribenhas e latino-americanas a trilharem seus caminhos de sucesso em seus países e também fora deles! 😀

 

Fontes:
www.cultura.gov.br/o-dia-a-dia-da-cultura/-/asset_publisher/waaE236Oves2/content/dia-internacional-da-mulher-negra-latino-americana-e-caribenha/10883
www.uefs.br/modules/noticias/article.php?storyid=1160
www.jamaicaobserver.com/news/Michelle-Gyles-McDonnough-becomes-highest-serving-Jamaican-in-UN-system

Baronesa do Mês: Maria Luiza Viotti

Olá, pupilas e pupilos!

Nosso blog acabou de estrear e já tenho muitas novidades para vocês! Sabemos que muitos foram os nomes que marcaram a trajetória do nosso país e realizaram grandes feitos no âmbito das Relações Internacionais. Seja firmando tratados territoriais, acordos de comércio ou parcerias estratégicas, alguns agentes dessa área se destacaram ao desempenhar suas funções com grande êxito em situações decisivas, obtendo expressivos ganhos materiais e simbólicos para a nação.

Tendo em vista a importância histórica desses atores, apresentamos a nossa primeira coluna mensal: o Barão do Mês. Este será um espaço dedicado à apresentação dos nomes que tiveram papel fundamental na construção das relações do Brasil com os demais países e da imagem que temos hoje perante todo o sistema internacional. Sendo assim, a cada mês, você conhecerá um pouco mais sobre a vida e a carreira de um importante personagem da história das nossas relações exteriores.

Para começar em grande estilo e iniciar as celebrações do Dia Internacional da Mulher, inauguramos a coluna com uma grande baronesa: Maria Luiza Ribeiro Viotti, a atual chefe de gabinete do secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU).

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Diplomata de carreira, Maria Luiza Viotti entrou para o Serviço Exterior Brasileiro em 1976, depois de ingressar no Instituto Rio Branco – academia diplomática brasileira –, atuando na área de promoção comercial da instituição, onde contribuiu para a expansão das relações comerciais brasileiras com a China e países Africanos. Posteriormente, ela realizou os cursos de graduação em Economia, em 1979, e de pós-graduação nessa mesma área em 1981, ambos pela Universidade de Brasília.

Viotti iniciou sua atuação no exterior por meio da Missão do Brasil junto às Nações Unidas no período de 1985 a 1988. Ao retornar ao Brasil, ela trabalhou no âmbito de assuntos multilaterais e atuou como coordenadora executiva do gabinete do ministro das Relações Exteriores. Em 1993, a diplomata foi nomeada para a Embaixada do Brasil em La Paz, Bolívia, onde dirigiu o setor econômico até 1995. No ano seguinte, tornou-se Chefe da Divisão América do Sul I no Ministério das Relações Exteriores do Brasil (MRE), ficando encarregada das relações com a Argentina, Uruguai, Paraguai e Chile, e, em 1999, foi indicada novamente para atuar na Missão do Brasil junto à ONU até 2004.

Dentre os demais cargos ocupados pela diplomata no MRE, estão o de Diretora-Geral do Departamento de Direitos Humanos e Assuntos Sociais (2004-06) e de Diretora-Geral do Departamento de Organizações Internacionais (2006-07). Em seguida, Viotti tornou-se Representante Permanente do Brasil junto às Nações Unidas de 2007 a 2013, sendo a primeira mulher a chefiar a Missão e levando para Nova York a experiência de trinta anos de Itamaraty. Lá, ela também liderou a delegação do Brasil junto ao Conselho de Segurança em 2010 e 2011 e ocupou a presidência rotativa do Conselho de Segurança em fevereiro de 2011.

Recentemente, Maria Luiza atuou como embaixadora na Alemanha, no período de 2013 a 2016. Seu último cargo antes de se tornar chefe de gabinete na ONU foi o de subsecretária para Ásia e Pacífico do Ministério de Relações Exteriores do Brasil, onde teve especial responsabilidade pelo trabalho com os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul).

O atual secretário-geral da ONU, António Guterres, anunciou no final do ano passado que Maria Luiza Viotti comporia o alto escalão de seu gabinete, a partir de 1º de janeiro de 2017, já começando a cumprir a promessa de campanha de promover a paridade entre homens e mulheres na organização. Além da embaixadora brasileira, Guterres também indicou mais duas mulheres para assumir posições de comando em sua equipe: a ministra do Meio Ambiente da Nigéria, Amina J. Mohammed, que será a nova vice-secretária-geral; e a sul-coreana Kyung-wha Kang, que será assessora especial para assuntos políticos. A escolha foi feita pela sólida experiência que as três possuem em assuntos globais, desenvolvimento, diplomacia, direitos humanos e ação humanitária.

Quando questionada sobre o crescimento da representação feminina em postos de destaque, Maria Luiza Viotti pontua: “Estamos, sem dúvida, avançando, mas ainda num nível bastante aquém do que seria desejável. […] O secretário-geral tem insistido muito que é necessário fazer mais para que se possa alcançar a paridade de gênero no secretariado, sobretudo nos mais altos níveis.”

Que essa baronesa tenha muito sucesso em sua nova importante jornada e inspire futuras diplomatas e demais profissionais a trilharem a carreira dos seus sonhos!
Fontes:
Nações Unidas (un.org/sg/en)
Agência Brasil (agenciabrasil.ebc.com.br)